A
pós-graduação e a mais-valia
"Dedico
esse momento ao meu amigo Fulano, que é engenheiro,
e sempre me provocou dizendo que doutor é quem tem doutorado"
Pós-graduando,
ao saber da aprovação de sua tese de doutorado.
Uma
medida tomada recentemente por uma empresa de seguros
de saúde é, ao mesmo tempo, alvissareira e triste. Estabelece
regras para o ganho do médico, valorizando aspectos como:
formado há mais de dez anos, residência, especialização,
mestrado, doutorado e docência. Quanto aos três primeiros,
não há qualquer sombra de dúvida de que são indicadores
de maior experiência e melhor formação e preparo profissionais.
Mas será que isso vale também para mestrado e doutorado?
Não. O mestre/doutor é necessariamente melhor médico do
que o que não possui esses títulos? Não.
O
que significa, então, para o médico ter mestrado/doutorado?
Significa, na melhor das hipóteses, que se trata de uma
pessoa com grande interesse em ensino e/ou pesquisa. Digo
"na melhor das hipóteses" porque, infelizmente,
há uma infinidade de outros motivos menos nobres para
almejar esses títulos. Vaidade e marketing pessoal, para
começo de conversa. Galgar posições políticas em sociedades
médicas, subir na carreira universitária, melhorar o salário,
etc.
Um
erro grosseiro que se vem cometendo sistematicamente,
e, o que é pior, encarado de forma natural, é a valorização
cega e obsessiva dos títulos de mestre e doutor pelos
meios oficiais de fomento à educação. Se determinada universidade
tem mais mestres/doutores, é melhor conceituada, recebe
mais atenção, enfim, mais dinheiro. Em conseqüência, temos
universidades tradicionais tratando de garantir que seus
próprios quadros abocanhem logo o título, e professores
sem a menor vocação para a pesquisa sendo obrigados a
enfrentar os cursos não como se fossem cursos, mas, sim,
obstáculos à obtenção do amaldiçoado título.
Como
diz Wladimir Kourganoff, em A Face Oculta da Universidade
(Editora da Unesp), vocação para ensino não significa
necessariamente o mesmo para a pesquisa e vice-versa,
e o que se consegue com o atrelamento da produção científica
à subida na carreira docente é apenas a figura dos pseudopesquisadores
e pseudoprofessores.
Não
há porque obrigar bons professores da graduação a passar
pelo suplício (para eles) de um curso de pós-graduação.
Existem meios mais inteligentes e justos para mantê-los
atualizados. Por outro lado, não faz sentido obrigar pesquisadores
a dar aulas, se essa não for sua vocação. O prejuízo é
duplo: deles próprios e dos alunos.
O
financiamento da graduação não pode depender do número
de mestres/doutores ou mesmo da produção científica. Aliás,
número de mestres/doutores não deve servir de parâmetro
nem para a pós-graduação, pois seu financiamento e de
seus laboratórios de pesquisa deveria depender exclusivamente
de sua produção científica, quantitativa e qualitativa.
Afinal, de que vale o título com a tese empoeirando nas
bibliotecas, sem que seja sequer publicada ou mesmo inaugure
uma linha de pesquisa regular?
Outra
conseqüência bastante nociva dessa fome de títulos é a
dificuldade de acesso aos cursos de pós-graduação, por
parte de candidatos (com vocação) oriundos de universidades
mais novas. Enfrentam a endogenia reinante em muitas das
ditas tradicionais, e alguns acabam por desistir no meio
do caminho.
Como
consolo, apenas o fato de que, a médio e longo prazos,
essa endogenia será fatal a essas universidades, resultando
em completa decadência, pois instala um clima de inércia
e desestímulo entre seus integrantes.
Mestrado
e doutorado, antes de serem títulos, são cursos. Aprofunda-se
em um tema específico que será objeto de um experimento
científico para a elaboração da tese e, quiçá, inaugurador
de uma linha de pesquisa. Para tanto, são de vital importância
as disciplinas do chamado domínio conexo (metodologia
científica, estatística e didática, por exemplo). Pois
bem. É de estarrecer o desprezo que dispensam a essas
disciplinas os alunos que evidentemente entram na pós-graduação
com todas as credenciais do mundo, exceto a que mais interessa:
vocação. Resultado: formam-se mestres e doutores sem a
menor noção dessas matérias, aliviadas por obterem enfim
o título.
Sou
médico, não sou matemático, dizem, referindo-se à campeã
das antipatias, a bioestatística (como se fosse possível
realizar pesquisa científica sem, no mínimo, compreender
seus fundamentos). Alguns, os chamados medalhões, chegam
a contratar um verdadeiro exército para elaborar sua tese,
com a alegação de falta de tempo. Terminam o curso como
começaram: pseudopesquisadores.
"Sendo
o termo da vida limitado, não tem limites a nossa vaidade",
escreveu o filósofo brasileiro Matias Aires. É verdade.
Que o diga o rapaz da epígrafe, que fez doutorado para
ser chamado de doutor.
P.S.:
Será que estaria muito enganado se imaginasse que um bocado
do que está escrito acima pode ser generalizado para outras
áreas?