Dalai
Lama, Budismo Tibetano, Falun Gong e a China
O
que existe em comum entre um grupo de pessoas distribuindo
panfletos da Falun Gong em várias cidades do mundo e o
Dalai Lama? Muita coisa, claro. Mas as mais importantes
têm a ver com a relação do Dalai Lama e dos membros da
Falun Gong com o governo da China, ou, pra darmos o nome
completo, da República do Povo da China.
Revendo rapidamente alguns momentos da história recente
da Ásia: em 7 de outubro de 1959, oitenta mil soldados
do Exército da Libertação do Povo ( People’s Liberation
Army, PLA) da China
atacou o Tibet e anunciou ao mundo sua “liberação
pacífica,” enquanto soldados destruíam monastérios e casas,
matando monjes, monjas e pessoas da população civil. Eventualmente,
para poder continuar viabilizando a existência do Tibet
enquanto entidade política (e religiosa) separada da China,
o seu governante supremo, o Dalai Lama, conseguiu escapar
do Tibet e se refugiou na India. Apesar das óbvias conseqüências
futuras, Nehru, o Primeiro Ministro da India, aceitou
a anexação do Tibet em 1954. Desde então, o pequeno, pacífico
e religioso país do Tibet, que havia sempre funcionado
como uma zona de pára-choque entre a India e a China,
não pôde mais exercer tal papel.
Os resultados não foram totalmente supreendentes:
em 1962 a China atacou a India, e diz que não reconhece
a Linha Mc Mohan como a fronteira demarcadora entre os
dois países. Desde 1962, a China tem reclamado Arunachal
Pradesh e Sikkim como parte do seu território nacional.
Os desígnios expansionistas chineses são bastante claros.
Além disso, não podemos esquecer que, dentro da própria
China, entre os chineses tem existido uma seleção étnica
constante. Embora o país costume se apresentar como uma
nação de muitas etnias, basta um estudo superficial da
história interna (quando disponível, e não purgada e reescrita
para a conveniência do momento) para se ver que a etnia
Han é a que domina todas as outras, e seus membros recebem
mais vantagens educacionais, econômicas, políticas.
Sim, a China proclama que respeita as várias etnias
nacionais: de vez em quando há shows folclóricos em que
pessoas vestidas com os trajes desta ou daquela etnia
se apresentam em público. Mas são todos da etnia Han,
“fantasiados” das outras etnias. Esta é uma política que
sempre foi seguida na China. A presença de refugiados
das etnias minoritárias chinesas em países como Tailândia
e Myanmar atestam este fato. Muitos destes refugiados
chegaram a esses outros países mais de cem anos atrás,
buscando liberdade e melhores condições de vida. Nem todos
foram bem sucedidos, e muitos ainda vivem segregados.
Outros continuam chegando, impelidos pelas mesmas condições
que acossaram seus antepassados, e outras novas.
O fato é que, na China, ainda fiel ao totalitarismo
do modelo maoísta, embora hoje com arrotos de entrada
na sociedade democrática e na economia de mercado, quanto
mais as coisas mudam, mais elas continuam na mesma. Um
exemplo disso é o que está ocorrendo com os membros da
seita Falun Gong, que estão sendo perseguidos, torturados,
e mortos na China.
Para os que ainda não tiveram a experiência de encontrar
membros desta seita aqui vai um breve relato. A seita
é uma das formas de praticar o “qigong,” e pertence à
mesma categoria que o tai chi e outras formas de exercícios
físicos, em geral praticados em público, em grupos, e
em parques. Mas, alguêm pode perguntar, o que há de errado
com tai chi? Muitos chineses não praticam tai chi todos
os dias?
Sim, os chineses praticam o tai chi todos os dias,
sem problemas ou perseguições. Mas o Falun Gong (também
conhecido como Falun Dafa) está proibido, porque, além
de exercícios físicos, esta forma de “qigong” prega também
a melhoria mental através da meditação e—o que deve realmente
deixar as autoridades chinesas lívidas—o estudo dos escritos
de Li Hongzhi, o divulgador/fundador da Falun Dafa. Para
as autoridades chinesas, que arrasaram o Tibet, destruíram
seu sistema milenar de governo, enviaram milhões de chineses
para ocupar as terras tibetanas, e ainda continuam aprisionando,
torturando e matando monjes budistas, a mera possibilidade
de obediência a alguma outra pessoa que escreveu um livro
(exceto Mao Tse Tung), é claramente inadmissível, e punível
com todas as armas do governo.
Em uma viagem a Hong Kong em fevereiro de 2001, pude
observar pessoalmente o que acontece com os praticantes
da Falun Gong. Uma tarde, na estação da balsa ligando
Hong Kong a Kowloon havia um grupo de cinco pessoas (três
homens e duas mulheres) distribuindo panfletos aos que
chegavam. Estas pessoas não tinham nada diferente das
outras, a não ser, talvez, um insistente sorriso. Elas
me fizeram lembrar os membros da Hare Krishna que aborreciam
as pessoas nos aeroportos especialmente nos anos 70 e
80, cantando canções esquisitas, usando saris sujos, e
tentando enfiar papéis nas nossas mãos. Mas os membros
da Falun Gong naquela tarde em Hong Kong não insistiam;
ofereciam seus folhetos, e se você não queria pegar, eles
simplesmente iam oferecer a outra pessoa. No dia seguinte,
a estação estava cheia de policiais armados literalmente
até os dentes, e nem sinal dos membros da Falun Gong.
Teriam sido presos? Torturados? Mortos? Quem sabe?
O que se sabe com certeza é que a China, recém admitida
na World Trade Organization, membro permanente do Conselho
de Segurança da ONU, tem muito que explicar sobre seus
problemas com os direitos humanos. Infelizmente, este
país fenomenal, com gente alegre e cantadeira, forte e
talentosa, está sob o mando de um governo que espreme
e destrói todos que não estão de acordo com a linha do
partido. Os membros da Falun Gong, assim como os seguidores
do budismo tibetano, são dois exemplos desta situação.
Como os Jogos Olímpicos de 2008 vão ser sediados em
Beijing, será interessante ver que medidas o governo chinês
vai tomar para impedir a entrada de material “subversivo”
no país. Na Conferência Internacional de Mulheres em 1994,
os participantes que eram membros de ONGs –Organizações
Não Governamentais--foram confinadas em um bairro da cidade,
praticamente impedidos de deixar o recinto da conferência
sem supervisão de chineses especialmente designados para
manterem estas pessoas isoladas da população. Os Jogos
Olímpicos serão uma ocasião muito maior, mais abrangente,
que o evento de 1994. Só nos resta esperar e torcer para
que os Jogos Olímpicos
sejam um momento de confraternização entre as nações e
abertura política para a China. Mas talvez isso seria
esperar demais.