À
mestra e ao mestre com carinho e compreensão!
Seja você mesmo.
Procure seu próprio caminho. aprenda a se conhecer antes
de pretender conhecer as crianças. Observe os limites
de suas próprias capacidades antes de fixar aqueles
dos direitos e deveres das crianças. Antes de todos
os que você poderia compreender, educar, instruir, está
você. É por você mesmo que é preciso começar. (Janusz
Korczac)
Oh! meu Deus!
Deus
que livre vocês de uma escola
em que tenham que copiar pontos.
Deus
que livre vocês de decorar
sem entender, nomes, datas, fatos...
Deus
que livre vocês de aceitarem
conhecimentos "prontos", mediocremente embalados
nos livros didáticos descartáveis.
Deus
que livre vocês de ficarem
passivos, ouvindo e repetindo, repetindo, repetindo...
(Carlos
Drummond de Andrade)
Escrevo a você, mestre e mestra, como pai e educador, consciente
das dificuldades que enfrentamos para exercer a prática
pedagógica. Contudo, por mais difíceis que sejam os
tempos, não podemos nos eximir das nossas responsabilidades.
Peço que não se ofenda com as minhas palavras: elas
apenas exprimem as incertezas e angústias diante dos
fatos que observo.
Em primeiro lugar, quero expressar minha sincera gratidão pelo
trabalho edificante que você exerce, a despeito de todas
as dificuldades impostas pelos governantes, pelos burocratas
e, por que não, pela própria comunidade e seus alunos,
que muitas vezes exigem mais do que o suportável. Não
bastasse este estorvo, muitas vezes você ainda é obrigado
a tolerar a incompreensão dos seus próprios colegas
e a conviver diariamente num ambiente de competição.
Mas é preciso fazer a caminhada e enfrentar os obstáculos.
Estes, não são intransponíveis.
Por um momento esqueço a qualidade de pai e educador. Como
que num quadro cujo desenho perdeu a nitidez pela ação
do tempo, mescla-se em minha memória imagens de uma
época que, como diz o poeta, eu era feliz e não sabia.
Lembro daqueles que me ensinaram as primeiras letras,
os primeiros números e aguçaram a minha curiosidade
pelos mistérios da vida. Recordo, com imenso carinho
e saudade, daquela que me ajudou a superar as dificuldades
da fala – sem que nem ela nem eu soubéssemos que existia
uma ciência denominada fonoaudiologia.
Não esqueço também dos que estimularam o gosto pela leitura
e ajudaram-me a compreender que se é importante saber
ler, é fundamental saber como ler e ter uma
atitude crítica diante do que se lê. Foi uma professora,
com as suas chatas exigências, que me fez ver
que também era importante ler aqueles assuntos que consideramos
chatos, mas que, na verdade, dizem respeito às
decisões que podem mudar nossas condições de vida e
frustrar nossos sonhos.
Outro professor, com uma didática provocativa, contribuiu para
ampliar o meu interesse pelas questões históricas e
sociais. Este professor, numa das suas aulas, defendeu
a escravidão, tecendo argumentos que nos faziam pensar
e também nos deixavam enfurecidos. Lembro que era um
dos mais exaltados. Depois, ficamos sabendo, era tudo
teatro: o professor agira assim, diria mesmo, perigosamente,
para estimular a discussão. Tempos depois nos encontramos.
Descobri então que ele era comunista. E embora não compartilhássemos
das mesmas idéias políticas, fiquei feliz por, ainda
jovem e engatinhando no aprendizado político, poder
compartilhar com o mestre os mesmo objetivos de liberdade
e democratização do nosso país.
Como esquecer a professora de francês – cuja beleza e delicadeza
despertou em mim o platonismo juvenil; a professora
de inglês e as histórias de sua estadia em Londres;
o professor de inglês e seu jeito meigo de se expressar?
Como esquecer aqueles que, na faculdade, me ensinaram
o caminho das pedras e me dedicaram a sua confiança?
Como não lembrar do amigo e orientador nas minhas descobertas
acadêmicas? Como esquecer até mesmo os que me decepcionaram
como educadores mas que foram um exemplo de como não
se deve agir como professor?
Ao escrever, professora e professor, renovo em você a gratidão
que tenho por aqueles que ajudaram a construir as fundações
do edifício da minha vida. Sem eles não estaria escrevendo
estas palavras.
Porém, também não esqueci aqueles que insistiram em me fazer
aprender a partir do método decoreba. Éramos
obrigados a memorizar nomes de cidades, países e suas
respectivas capitais, fórmulas e regras que nunca usamos,
datas e nomes sem significado real para a nossa vida.
Quanto tempo da nossa vida perdeu-se com o esforço para
memorizar conhecimentos inúteis? Éramos adestrados para
tirar nota e passar de ano. Quanto orgulho,
nosso e dos nossos pais, quando mostrávamos os boletins
com as ótimas notas? E aqueles que não conseguiam as
notas almejadas? Quanta decepção e humilhação. A maior
dor, na verdade, é a do que se sente um fracassado.
E todo este sofrimento para quê? Para aprender? Não. Para tirar
a nota. A mesma angústia, a mesma aflição que observo
em meus alunos, nas minhas filhas. Com tristeza, observo
que o sistema de ensino se mantém inalterado, isto é,
permanece fundado na memorização, no sistema de notas.
Estuda-se para as provas como se fazia nos meus tempos
juvenis: memorizando conteúdos com o principal objetivo,
senão o único, de tirar nota. O aluno não aprende,
decora. Sua motivação restringe-se à necessidade
de ir bem na prova. Em certa idade, ele é treinado
para passar no vestibular e chega à universidade, quando
consegue, com graves deficiências em sua formação.
Este
é um sistema viciado. O meio transforma-se no fim. O
aluno passa boa parte da sua vida nos bancos escolares
não para aprender, formar-se enquanto indivíduo crítico,
consciente dos seus direitos e deveres e da sua responsabilidade
social, mas sim para pegar o diploma. Num mundo
onde a concorrência predomina e os empregos escasseiam,
seu diploma pode não lhe valer muita coisa. Mas, é preciso
tê-lo. E para isso, valem todos os artifícios. Como
condenar o aluno por usar de subterfúgios como colar,
comprar o trabalho pela internet, pagar ou pedir a um
colega para fazê-lo, ou copiar textos e resumos de livros?
São estratégias de defesa contra o sistema escolar.
A culpa, se existe, não é só dele.
Também
prisioneiros do sistema de notas, nós professores muitas
vezes aniquilamos a curiosidade pelo saber. Nossos métodos
de ensino não priorizam o aprender pelo aprender: como
esperar que o aluno se interesse por temas e assuntos
tratados sob a frieza burocrática do dar o ponto,
fazer a prova e dar a nota? Se a única utilidade
do aprendizado é passar de ano, porque o aluno
se responsabilizará por seu processo de formação? Onde
está a nossa criatividade para tratar criticamente os
conteúdos, para ensinar e estimular o aluno a pensar,
para co-responsabilizá-lo pelo processo educativo?
É
certo que os professores vivemos um dilema: exigem que
trabalhemos pela formação crítica e cidadã dos nossos
alunos; dizem-nos que, com o advento das novas tecnologias
e do mundo globalizado, é preciso ensinar a pensar,
a pegar o peixe; mas, simultaneamente, somos cobrados
pelo fracasso dos nossos alunos em exames vestibulares
ainda formulados sob o signo da memorização de conteúdos.
É claro que precisamos trabalhar os conteúdos. O problema
é como fazê-lo para que este procedimento não se restrinja
à mera transmissão de conhecimentos, à decoreba, à educação
bancária.
Exigem
que façamos avaliações. Nossos alunos e pais não aceitam
um sistema de ensino sem notas. Ainda que seja
discutível os processos avaliativos que usamos, tomemos
a necessidade de avaliar como ponto pacífico. Mas a
avaliação de pessoas não é um cálculo contábil, frio
e burocrático. Decidir se a pessoa vale dez ou zero
não é um procedimento matemático, envolve muitos fatores
objetivos e subjetivos. Contudo, se temos que avaliar
porque não fazê-lo de forma criativa? Por que insistir
nos velhos testes objetivos, no complete a frase,
assinale o verdadeiro ou falso ou coisas do tipo?
Será que paramos para pensar o ridículo de certas questões
que formulamos para nossos alunos? Nestas situações,
se o aluno cola, troca a prova com seu colega
e inventa outras artimanhas para ir bem na prova,
ele só prova a inutilidade da nossa prova, só
prova o ridículo deste sistema. Ele sabe que aquilo
não lhe serve para nada – mas que tem que responder
para tirar a nota. Que assim seja...
Lembro-me
até hoje da tensão e, em alguns casos, do clima de terror,
do dia da prova. Na verdade, aprendi muito mais com
aqueles professores que estimularam a reflexão crítica,
a curiosidade e a busca do saber, e concediam a liberdade
e as condições necessárias para desenvolver o aprendizado.
O aprender é um processo que pressupõe compromisso pessoal
com algo que está para além do passar de ano.
Erramos se pensamos que a criança não é capaz de assumir
esta responsabilidade.
O
terrorismo da prova ainda se repete. A criança
acorda de madrugada e, ainda sonolenta e angustiada,
como quem ainda não se libertou do pesadelo, fala:
- Meu
Deus! Não estudei para a prova. Como pude esquecer?!
O pai, ao seu lado, procura tranqüilizá-la; tenta fazê-la voltar
a dormir. Em seu coração, uma ponta de orgulho pela
dedicação da filha e uma enorme tristeza por vê-la sofrer
por motivos tão fúteis. Até quando nós, pais e professores,
consciente ou inconscientemente, torturaremos nossas
crianças? Até quando insistiremos em manter o sistema
de notas fundado no mais puro decoreba?
No
processo de ensinar deve-se atribuir responsabilidades
aos alunos. Na verdade, o sistema de nota desobriga-os
de agirem responsavelmente quanto às condições do próprio
aprendizado. O aluno preocupa-se apenas em tirar
a nota. E, caso não consiga, sabe que o sistema
lhe dá uma margem de manobra razoável para atingir o
objetivo: tirar o diploma. Ao se desresponsabilizar
quanto ao seu aprendizado, o aluno não terá qualquer
escrúpulo ou trauma de consciência em usar a tão propalada
cola. Esta, em tempos de internet, encontra-se
cada vez mais sofisticada. Este é um dos sintomas que
apontam a falência do sistema de notas.