Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na UEM e doutorando na Faculdade de Educação da Universidade de S. Paulo

 

 

À mestra e ao mestre com carinho e compreensão!

 

Seja você mesmo. Procure seu próprio caminho. aprenda a se conhecer antes de pretender conhecer as crianças. Observe os limites de suas próprias capacidades antes de fixar aqueles dos direitos e deveres das crianças. Antes de todos os que você poderia compreender, educar, instruir, está você. É por você mesmo que é preciso começar. (Janusz Korczac)

Oh! meu Deus!

Deus que livre vocês de uma escola em que tenham que copiar pontos.

Deus que livre vocês de decorar sem entender, nomes, datas, fatos...

Deus que livre vocês de aceitarem conhecimentos "prontos", mediocremente embalados nos livros didáticos descartáveis.

Deus que livre vocês de ficarem passivos, ouvindo e repetindo, repetindo, repetindo... 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Escrevo a você, mestre e mestra, como pai e educador, consciente das dificuldades que enfrentamos para exercer a prática pedagógica. Contudo, por mais difíceis que sejam os tempos, não podemos nos eximir das nossas responsabilidades. Peço que não se ofenda com as minhas palavras: elas apenas exprimem as incertezas e angústias diante dos fatos que observo.

Em primeiro lugar, quero expressar minha sincera gratidão pelo trabalho edificante que você exerce, a despeito de todas as dificuldades impostas pelos governantes, pelos burocratas e, por que não, pela própria comunidade e seus alunos, que muitas vezes exigem mais do que o suportável. Não bastasse este estorvo, muitas vezes você ainda é obrigado a tolerar a incompreensão dos seus próprios colegas e a conviver diariamente num ambiente de competição. Mas é preciso fazer a caminhada e enfrentar os obstáculos. Estes, não são intransponíveis.

Por um momento esqueço a qualidade de pai e educador. Como que num quadro cujo desenho perdeu a nitidez pela ação do tempo, mescla-se em minha memória imagens de uma época que, como diz o poeta, eu era feliz e não sabia. Lembro daqueles que me ensinaram as primeiras letras, os primeiros números e aguçaram a minha curiosidade pelos mistérios da vida. Recordo, com imenso carinho e saudade, daquela que me ajudou a superar as dificuldades da fala – sem que nem ela nem eu soubéssemos que existia uma ciência denominada fonoaudiologia.

Não esqueço também dos que estimularam o gosto pela leitura e ajudaram-me a compreender que se é importante saber ler, é fundamental saber como ler e ter uma atitude crítica diante do que se lê. Foi uma professora, com as suas chatas exigências, que me fez ver que também era importante ler aqueles assuntos que consideramos chatos, mas que, na verdade, dizem respeito às decisões que podem mudar nossas condições de vida e frustrar nossos sonhos.

Outro professor, com uma didática provocativa, contribuiu para ampliar o meu interesse pelas questões históricas e sociais. Este professor, numa das suas aulas, defendeu a escravidão, tecendo argumentos que nos faziam pensar e também nos deixavam enfurecidos. Lembro que era um dos mais exaltados. Depois, ficamos sabendo, era tudo teatro: o professor agira assim, diria mesmo, perigosamente, para estimular a discussão. Tempos depois nos encontramos. Descobri então que ele era comunista. E embora não compartilhássemos das mesmas idéias políticas, fiquei feliz por, ainda jovem e engatinhando no aprendizado político, poder compartilhar com o mestre os mesmo objetivos de liberdade e democratização do nosso país.

Como esquecer a professora de francês – cuja beleza e delicadeza despertou em mim o platonismo juvenil; a professora de inglês e as histórias de sua estadia em Londres; o professor de inglês e seu jeito meigo de se expressar? Como esquecer aqueles que, na faculdade, me ensinaram o caminho das pedras e me dedicaram a sua confiança? Como não lembrar do amigo e orientador nas minhas descobertas acadêmicas? Como esquecer até mesmo os que me decepcionaram como educadores mas que foram um exemplo de como não se deve agir como professor?

Ao escrever, professora e professor, renovo em você a gratidão que tenho por aqueles que ajudaram a construir as fundações do edifício da minha vida. Sem eles não estaria escrevendo estas palavras.

Porém, também não esqueci aqueles que insistiram em me fazer aprender a partir do método decoreba. Éramos obrigados a memorizar nomes de cidades, países e suas respectivas capitais, fórmulas e regras que nunca usamos, datas e nomes sem significado real para a nossa vida. Quanto tempo da nossa vida perdeu-se com o esforço para memorizar conhecimentos inúteis? Éramos adestrados para tirar nota e passar de ano. Quanto orgulho, nosso e dos nossos pais, quando mostrávamos os boletins com as ótimas notas? E aqueles que não conseguiam as notas almejadas? Quanta decepção e humilhação. A maior dor, na verdade, é a do que se sente um fracassado.

E todo este sofrimento para quê? Para aprender? Não. Para tirar a nota. A mesma angústia, a mesma aflição que observo em meus alunos, nas minhas filhas. Com tristeza, observo que o sistema de ensino se mantém inalterado, isto é, permanece fundado na memorização, no sistema de notas. Estuda-se para as provas como se fazia nos meus tempos juvenis: memorizando conteúdos com o principal objetivo, senão o único, de tirar nota. O aluno não aprende, decora. Sua motivação restringe-se à necessidade de ir bem na prova. Em certa idade, ele é treinado para passar no vestibular e chega à universidade, quando consegue, com graves deficiências em sua formação.

Este é um sistema viciado. O meio transforma-se no fim. O aluno passa boa parte da sua vida nos bancos escolares não para aprender, formar-se enquanto indivíduo crítico, consciente dos seus direitos e deveres e da sua responsabilidade social, mas sim para pegar o diploma. Num mundo onde a concorrência predomina e os empregos escasseiam, seu diploma pode não lhe valer muita coisa. Mas, é preciso tê-lo. E para isso, valem todos os artifícios. Como condenar o aluno por usar de subterfúgios como colar, comprar o trabalho pela internet, pagar ou pedir a um colega para fazê-lo, ou copiar textos e resumos de livros? São estratégias de defesa contra o sistema escolar. A culpa, se existe, não é só dele.

Também prisioneiros do sistema de notas, nós professores muitas vezes aniquilamos a curiosidade pelo saber. Nossos métodos de ensino não priorizam o aprender pelo aprender: como esperar que o aluno se interesse por temas e assuntos tratados sob a frieza burocrática do dar o ponto, fazer a prova e dar a nota? Se a única utilidade do aprendizado é passar de ano, porque o aluno se responsabilizará por seu processo de formação? Onde está a nossa criatividade para tratar criticamente os conteúdos, para ensinar e estimular o aluno a pensar, para co-responsabilizá-lo pelo processo educativo?

É certo que os professores vivemos um dilema: exigem que trabalhemos pela formação crítica e cidadã dos nossos alunos; dizem-nos que, com o advento das novas tecnologias e do mundo globalizado, é preciso ensinar a pensar, a pegar o peixe; mas, simultaneamente, somos cobrados pelo fracasso dos nossos alunos em exames vestibulares ainda formulados sob o signo da memorização de conteúdos. É claro que precisamos trabalhar os conteúdos. O problema é como fazê-lo para que este procedimento não se restrinja à mera transmissão de conhecimentos, à decoreba, à educação bancária.

Exigem que façamos avaliações. Nossos alunos e pais não aceitam um sistema de ensino sem notas. Ainda que seja discutível os processos avaliativos que usamos, tomemos a necessidade de avaliar como ponto pacífico. Mas a avaliação de pessoas não é um cálculo contábil, frio e burocrático. Decidir se a pessoa vale dez ou zero não é um procedimento matemático, envolve muitos fatores objetivos e subjetivos. Contudo, se temos que avaliar porque não fazê-lo de forma criativa? Por que insistir nos velhos testes objetivos, no complete a frase, assinale o verdadeiro ou falso ou coisas do tipo? Será que paramos para pensar o ridículo de certas questões que formulamos para nossos alunos? Nestas situações, se o aluno cola, troca a prova com seu colega e inventa outras artimanhas para ir bem na prova, ele só prova a inutilidade da nossa prova, só prova o ridículo deste sistema. Ele sabe que aquilo não lhe serve para nada – mas que tem que responder para tirar a nota. Que assim seja...

Lembro-me até hoje da tensão e, em alguns casos, do clima de terror, do dia da prova. Na verdade, aprendi muito mais com aqueles professores que estimularam a reflexão crítica, a curiosidade e a busca do saber, e concediam a liberdade e as condições necessárias para desenvolver o aprendizado. O aprender é um processo que pressupõe compromisso pessoal com algo que está para além do passar de ano. Erramos se pensamos que a criança não é capaz de assumir esta responsabilidade.

O terrorismo da prova ainda se repete. A criança acorda de madrugada e, ainda sonolenta e angustiada, como quem ainda não se libertou do pesadelo, fala:

-  Meu Deus! Não estudei para a prova. Como pude esquecer?!

O pai, ao seu lado, procura tranqüilizá-la; tenta fazê-la voltar a dormir. Em seu coração, uma ponta de orgulho pela dedicação da filha e uma enorme tristeza por vê-la sofrer por motivos tão fúteis. Até quando nós, pais e professores, consciente ou inconscientemente, torturaremos nossas crianças? Até quando insistiremos em manter o sistema de notas fundado no mais puro decoreba?

No processo de ensinar deve-se atribuir responsabilidades aos alunos. Na verdade, o sistema de nota desobriga-os de agirem responsavelmente quanto às condições do próprio aprendizado. O aluno preocupa-se apenas em tirar a nota. E, caso não consiga, sabe que o sistema lhe dá uma margem de manobra razoável para atingir o objetivo: tirar o diploma. Ao se desresponsabilizar quanto ao seu aprendizado, o aluno não terá qualquer escrúpulo ou trauma de consciência em usar a tão propalada cola. Esta, em tempos de internet, encontra-se cada vez mais sofisticada. Este é um dos sintomas que apontam a falência do sistema de notas.

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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