Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e editor da revista Debate Sindical

 

A máfia sindical da Venezuela

 

No golpe de estado contra o presidente Hugo Chávez, um fato repugnante, entre tantos outros nesta triste história, chama a atenção: a participação ativa de uma central sindical, a Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), ao lado dos empresários, mídia e setores militares nesta conspiração direitista – orquestrada ostensivamente pelo governo dos EUA. O fato deprimente, entretanto, não deve causar surpresas. Um pouco de história comprova que esta central, que representa apenas 8% da PEA, há muito tempo faz o jogo da oligarquia venezuelana, sendo biombo de uma máfia sindical corrupta e violenta.

O decrépito Carlos Ortega, presidente da CTV, ganhou notoriedade nas últimas semanas por seus discursos abertamente golpistas, sua sanha anticomunista contra Cuba e seus raivosos pronunciamentos contra a reforma agrária e outras leis de cunho progressista baixadas por Hugo Chávez. Junto com a poderosa entidade empresarial do país, a Fedecámaras, liderada pelo milionário Pedro Carmona (o segundo homem mais rico da Venezuela), Ortega foi o principal expoente “civil” na preparação do golpe militar. Ele teve participação direta nos vários lockouts patronais organizados para desestabilizar o governo.

FORÇA REACIONÁRIA

Durante 40 anos, desde a queda da ditadura do general Marcos Jimenez (1952/58), a CTV teve papel determinante na montagem do bloco dominante. Ela foi um dos sustentáculos do bipartidarismo que dominou o país, formado pela Ação Democrática (AD, social-democrata) e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei, social-cristão). “A partir da consolidação do regime, na Constituição de 1961, seus líderes foram paulatinamente incorporados ao pacto conservador, com a tarefa de conter as lutas sociais e eliminar os focos de contestação. O prêmio por esses préstimos era a sua integração à burocracia do Estado ... Sucessivas gerações de sindicalistas da CTV receberam cargos nababescos em diretorias de institutos previdenciários, de autarquias estatais e até de bancos oficiais” [1].

Várias denúncias comprovam que para se manter no poder, a AD, que passou a ser a força hegemônica na central, utilizou-se de métodos arbitrários e violentos contra os oponentes. As lideranças contrárias ao peleguismo eram excluídas das eleições sindicais; muitos foram demitidos de seus empregos; a montagem de chapas de oposição sempre esbarrou no veto da Justiça controlada pelos dois partidos no poder; a maioria dos empregos no setor público passava pelo crivo da burocracia sindical. A própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) registrou queixas contra a “ausência de liberdade e autonomia sindicais” no país.

A vitória de Hugo Chávez na eleição presidencial de 1998, com 56,2% dos votos, pôs fim ao sossego da velha e carcomida cúpula sindical. A derrota do bipartidarismo oligárquico foi um duro revés para a CTV, que bancou o candidato da AD – partido desgastado pelas denúncias de corrupção, que inclusive levaram ao impeachment e fuga do ex-presidente Andrés Pérez. Chávez, com forte apoio popular mas sem uma consistente base social organizada, ainda tentou incentivar núcleos de oposição à CTV. Patrocinou a criação da Força Bolivariana dos Trabalhadores e privilegiou a CUTV, uma central minoritária sob hegemonia dos comunistas.

Diante da furiosa reação da burocracia sindical, encastelada nos maiores sindicatos, Chávez tomou uma atitude arriscada: convocou, para dezembro de 2000, plebiscito nacional para avaliar o papel do sindicalismo. Apesar do índice elevado de abstenção, com a ausência de 76,5% dos eleitores, o referendo representou uma derrota histórica da cúpula da CTV, que fez campanha aberta contra a consulta. Dos 2,63 milhões de votantes, 72,3% responderam positivamente à pergunta formulada, concordando com a “renovação das direções sindicais em um prazo de 180 dias e a imediata suspensão de seus mandatos”.

PACTO CONSERVADOR

É nesta ocasião que sai de cena Federico Ramírez, que apresenta a sua carta de renúncia à presidência da CTV, e desponta a figura de Carlos Ortega, velha liderança sindical vinculada às prósperas empresas petrolíferas. De imediato, ele firma um pacto com a Fedecámaras e  viaja aos EUA, onde consegue o apoio da AFL-CIO, a central sindical norte-americana, e da Ciosl (Confederação Internacional das Organizações Sindicais “Livres”). Esta articulação conservadora ofusca o resultado do plebiscito, conseguindo adiar o processo eleitoral.

No pleito, realizado em outubro do ano passado, sob coordenação da própria central, Ortega conquista a presidência da CTV. Dos 1 milhão e 255 mil sindicalizados, votaram apenas 286 mil. Ele obtém 174 mil votos, contra 50 mil dados a Aristóbulo Istúriz, da Força Bolivariana. O Tribunal Supremo Eleitoral declarou que o pleito foi viciado: entre outras fraudes, foram extraviadas 22 mil atas com resultados anulados pela comissão eleitoral da CTV. Ortega inclusive perdeu a eleição na sua base, na federação dos petroleiros. Até a imprensa local, totalmente envolvida na conspiração golpista, foi obrigada a admitir que “Ortega se proclamou presidente da CTV faltando 49% das atas de votação” [2].

Só mesmo a Ciosl, que enviou “observadores” ao país (incluindo um representante da Força Sindical do Brasil), não constatou nada de errado! O secretário geral da Orit, braço da Ciosl no continente, Luis Anderson, inclusive foi acusado de fazer campanha para Ortega, “com alto conteúdo de intromissão nos assuntos internos da República Bolivariana da Venezuela ... “Talvez o senhor Anderson em algum momento explicará as quatro impugnações contra urnas da Força Bolivariana dos Trabalhadores ... Elas apontam claramente a Carlos Ortega e a Ação Democrática como propulsores da manobra e da fraude [3].

Pouco antes, Alfredo Ramos, o outro candidato da oposição – que se apresentou dividida no pleito –, já havia previsto que a “máfia sindical” fraudaria a pleito. “Carlos Ortega concentra os vícios do passado. Ele é promotor da venda de postos de trabalho. Protege sindicalistas potentados, donos de jatos, como Agustín Hernandez e José Vicente Pereira, que é dono de farmácias, clínicas e de uma frota de transporte ... Agora aparece com sua cara de “eu não fui”. Ele foi imposto na Fedepetrol (petroleiros), nunca foi eleito” [4].

Empossado ilegalmente, o primeiro ato de Ortega foi uma visita à sede da Fedecámaras. Na ocasião, as duas entidades acertam os detalhes para a “paro nacional” de 10 de dezembro, contra os 49 projetos de lei apresentados pelo presidente Hugo Chávez – entre eles o que visava liquidar o latifúndio improdutivo e outro que protegia os pescadores contra a ação predadora das frotas pesqueiras. O protesto de dezembro foi o primeiro lockout empresarial da história da Venezuela, contando com o apoio da mídia, da hierarquia católica e dos EUA.  

Animado com o “paro patronal-sindical”, Ortega nem se abateu com o vazamento de uma fita contendo a conversa entre ele e o ex-presidente Andrés Pérez, em sua residência nos EUA. Nela, os dois faziam planos de novas manifestações para desestabilizar o governo Chávez e comemoravam o apoio explícito do presidente George W. Bush e do embaixador norte-americano em Caracas. Na prática, já estavam agendando a “greve dos petroleiros” em março, que contou com o apoio de conspiradores na cúpula da empresa estatal.

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1 Breno Altman. “O avesso do avesso”. Publicado na revista Debate Sindical, número 37, maio de 2001

2 “Fuerza Bolivariana establece aliança com independientes”. Publicado em El Mundo, da Venezuela.

3 Declaração da Força Bolivariana dos Trabalhadores.

4 “Carlos Ortega pone cara de ‘yo no fui’”. Publicado em El Universal, de 23 de setembro de 2001.

 

 

ALTAMIRO BORGES

     

 


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