Por GÉRARD ROY
Sociólogo e pesquisador em Ciências Sociais do ORSTOM (L'institut Français de Recherche Scientifique pour le Developpement en Cooperation); Publicou, juntamente com Maria Conceição D'Incao, o livro "Nós, Cidadãos aprendendo e ensinando a democracia" (Paz e Terra, 1995)

 

Carta de um francês à amada brasileira (Entre  os dois turnos da eleição presidencial francesa)*

 

Eu te telefono terrificado domingo à noite, dia 21 de abril, às 20,05 horas: Jospin foi batido e é Lê Pen que se encontra face a Chirac para a eleição, dia 5 de maio, do presidente da República Francesa. Você não quer acreditar, mas sim, os dois rostos estão ali, na tela da televisão a minha frente, e os resultados: Chirac, 19,64%; Le Pen, 17,07%. E Jospin, 16,01%, aparece em seguida ao lado dos outros 13 candidatos. Você diz: “é horrível...a França...nossa referência...”. No dia seguinte, você me chama: “o que se passou?” E, um dia depois: “você pode me enviar um texto pra circular entre os amigos?”.

Hoje, cinco dias depois do terremoto, eu me ponho a te escrever. Somente agora porque  todos esses dias estive em choque, como todos os homens e mulheres de esquerda, mas também os da direita democrática. Leio a cada dia do começo ao fim do Le Monde e do Liberation: os títulos, os editoriais, as declarações, as análises dos partidos, as explicações dos “politicólogos”, as enquetes dos jornalistas em campo junto aos que se abstiveram, os que votaram nos extremos, à direita e à esquerda, os que votaram Chirac e que não votaram Jospin e lamentam amargamente, as palavras dos operários, dos empregados, dos jovens que  votaram Le Pen de um modo inesperado. Escuto o rádio, vejo a televisão. Tudo se mexe, os jovens estão na rua. Por onde começar?

Até ontem à noite, eu não sabia justamente por onde começar, ou antes, eu tinha feito um plano metódico e frio: 1. Os resultados e as primeiras reações. 2. As explicações em torno do escrutínio (as abstenções, a dispersão), o questionamento das sondagens e das mídias, as campanhas eleitorais(a esquerda e as esquerdas, a direita e as direitas, a campanha de Le Pen). 3. A crise da sociedade francesa, os partidos democratas e os extremos. 4. As mobilizações para o segundo turno. Mas tudo isso a imprensa brasileira vem abordando longamente, com certeza. E eu me perguntava se uma recapitulação do quadro geral seria suficiente... como comunicar a emoção de cada um dentre nós, a amigos estrangeiros? A vergonha, as lágrimas, a dor, o sobressalto. E afinal, esta manhã, bem cedo, durante o café, escutando o rádio, fui tomado de uma náusea, de uma reação visceral, o café não descia e me dei conta de que se tratava de  coração e de tripas nessa história e não somente de razão e de inteligência. Um jornalista - cancioneiro de talento tinha decidido consagrar  sua mensagem cotidiana de alguns minutos, na France-Inter, a nossos sentidos, a fazer-nos “ouvir” quem era Le Pen. E uma música de um CD gravado pela editora  desse “empresário liberal” teve início - um canto nazista acompanhado do martelamento das botas – e foi seguida,  depois, da voz desse “democrata republicano”, vomitando palavras ao se dirigir a um jornalista que, nos últimos dias,  o encurralava um tanto sobre seu passado: “eu me lembrarei do senhor, eu me lembrarei do senhor, eu me lembrarei do senhor”.          

Aos 68 anos, o passado remontava em mim e eu juntava num clarão todos os anos desde a  guerra: a infância, a família materna, republicana de direita, reagindo com lentidão ao Apelo do General de Gaule, em 1940, a família paterna, oportunista – “pétainista”, colaboracionista, fascista. A mãe, a mulher, de formação superior, mas vítima de sua boa educação “feminina” da época, acantoada à depressão grave periodicamente ( você se lembra, os nazistas esvaziavam os asilos alemães em nome da raça pura. Então, você imagina o perigo...) e manipulada por esta extrema direita, e toda essa “brava gente” bem pensante da burguesia. A criança fazendo a aprendizagem desta opressão numa dor muda. O adolescente e o homem que tirou disso um engajamento à esquerda incondicional, não questionável, irreversível, que ele vem manifestando ao longo de toda sua vida. De um lado,  na sua família, com seus filhos, com seus amigos, seus amores... e, de outro, no  campo profissional: na luta com o povo de Madagascar, seus camponeses, seus trabalhadores e seus intelectuais “por uma verdadeira independência e pelo socialismo” (anos 60); no trabalho de organização e de luta dos movimentos de mulheres, de homens e de jovens, franceses e imigrantes, na periferia de uma grande cidade francesa, à véspera e nos primeiros tempos da vitória socialista (anos 70 e 80); no recente trabalho de pesquisa com os Sem-Terra, no Brasil... E, mesmo assim, eu também não vi a coisa chegar. E esta música e esta voz que, de um só golpe, interrogava o homem no qual eu tinha me transformado, como deviam estar interrogando  tantos outros dentre nós... Eu tinha votado Jospin, é certo, mas tinha me faltado qualquer coisa, já que eu também não tinha  visto a coisa acontecer. Quem era eu, atualmente? Teria me deixado entorpecer, acomodar?

Entretanto, esta manhã, até às cinco para as oito horas, ouvi e reagi interiormente à sucessão das  informações em cena... Le Pen tinha dado uma entrevista a um canal de televisão, na véspera. Seu “leit-motiv”, sua obsessão, “A preferência nacional”, agora no domínio da saúde: médicos e profissionais da saúde “franceses”, o exame do prontuário de 10.000 médicos estrangeiros que trabalham na França, a ética médica (fim da IVG – interrupção voluntária da gravidez), o controle do estado de saúde nas fronteiras para detectar a aids, etc.. Os imigrantes sempre, os sem-documentos, clandestinos declarados, que é necessário cercar em “campos” de passagem antes de expulsar... O despropósito, a razão enlouquecida, as pulsões da morte, mas isso falava ainda à minha razão. Depois, eu tinha ouvido que Chirac iria a Dreux, esta tarde, fazer um comício no antigo reduto da Frente Nacional, onde Le Pen  havia retomado seu impulso alguns anos atrás. Eu ouvia “Chirac, super- mentiroso, super- ladrão”. Mas eu apenas entendia.  E, ainda, a entrevista de uma jovem na massa dos jovens presentes nas ruas e sua palavra, clara, decidida: “uma vergonha, nós não podemos deixar passar, mesmo com o risco de alimentar a direita”. Mais os slogans gritados, cantados alegre e firmemente: “Nós somos todos filhos de imigrantes”, “Black, Blanc, Beur, même combat” (negro, branco, árabe, mesmo combate),   “Socialmente humanos, economicamente solidários, nacionalmente acolhedores” -  em resposta à declaração de Le Pen: “eu sou socialmente de esquerda, economicamente de direita e, nacionalmente, francês”. Tudo isso estava bem. Mas quando essa música acompanhada do som das botas ressoou e este grito gutural vomitou, resgatando a minha infância, eu estremeci, eu, homem de esquerda desde sempre, estava concernido diretamente, intimamente.

Simultaneamente, outras vozes começaram a ressoar em mim, com a mesma força. Aquela de um operário, que tinha votado Le Pen, no Liberation da véspera (um “dos pequenos, dos excluídos, dos sem divisas”, como havia dito “o Chefe”, na noite de sua vitória): “O Estado é como uma “torre de marfim”, há 15 milhões  de pequenos senhores na França, superdiplomados e largamente pagos”... E a voz dos outros  que re-estimavam: “Há 4 milhões de franceses abaixo da linha de pobreza”. E depois uma leitora do Le Monde: “O Partido socialista desenvolveu hábitos de corte os socialistas acompanhados de seus intelectuais de aparelho... caras elites socialistas que preconizam a escola única e 80% de uma faixa etária na universidade pública  e inscrevem seus filhos, em segredo, nas melhores escolas privadas confessionais...que assim que seus filhos cultivados e felizes , nutridos pelo leite do pós-maio de 68, procuram  encontrar-lhes  um lugar na sociedade através da  ajuda de uma rede de parentesco...”. E, ainda, este outro leitor:  “Os homens políticos, as mídias, os sociólogos e outros especialistas vão agora dissertar ao infinito a partir de uma única questão: como chegamos nisso? A resposta é tão simples e evidente... As pessoas estão saturadas de ser tomadas por imbecis; saturadas de ver que os verdadeiros problemas não só são deixados de lado, como até mesmo negados, que a insegurança é  percebida como um sentimento, quando ela é uma realidade; saturadas de que, sob o pretexto de anti- racismo, se deixe os delinqüentes apodrecerem  a vida de bairros inteiros; saturadas de um governo autista e arrogante; saturadas  desses políticos que preferem cuidar de suas pequenas contas pessoais enquanto que todo um lado da sociedade sucumbe; saturadas de constatar que sindicatos corporaratistas transforma os serviços públicos em campo privado e impedem toda e qualquer reforma de fundo; saturadas de serem obrigadas a submeter-se à mundialização; saturadas de ouvirem dirigentes declararem que não podem fazer nada; saturadas de tantas injustiças e de cinismo; saturadas de ver esse governo dar lições a todo mundo sem ser capaz de receber uma única; saturadas, enfim, de serem  tomadas do alto por uma pretensa elite, desdenhosa, condescendente e sem alguma sensibilidade diante do sofrimento dos mais fracos... A maioria silenciosa lançou uma advertência aos governantes. Eles a receberam?”... Bem, meus filhos, meus amigos, votaram à esquerda, mas não seremos nós, na vida cotidiana,  “uma minoria silenciosa”?

Assim, esta manhã, como num relâmpago, a raiva interior renascia, dissipando a confortável indignação de esquerda, ao mesmo tempo em que, “em algum lugar”, como se diz hoje em dia (sim, com efeito era  bem “em algum lugar” que alguma  coisa não ia bem), eu me sentia na berlinda, acusado, interrogado na minha boa consciência “de elite de esquerda”. O velho Sartre ressurgia, ele que eu jamais havia deixado, você sabe, o velho Sartre do pós-guerra, “que tinha decidido não mais se colocar ao largo da vida política, que elaborava sua nova moral baseada na autenticidade e que exigia que o homem “assumisse” sua “situação”, sendo que a única maneira de fazê-lo era ultrapassando-a através do engajamento numa ação: qualquer outra atitude seria uma fuga, uma pretensão vazia, um jogo de máscaras, fundados sobre a má fé” (Simone de Bouvoir,  La Force de l´Âge). O velho fascista – Le Pen - ressuscitava o velho  lutador (Sartre), sacudindo,  mais uma vez, as boas consciências... de esquerda.

                                                                Paris, 27 de abril de 2002

 

GÉRARD ROY

Tradução de Maria Conceição D´Incao.    


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