Carta
de um francês à amada brasileira (Entre
os dois turnos da eleição presidencial francesa)*
Eu te telefono terrificado domingo
à noite, dia 21 de abril, às 20,05 horas: Jospin foi batido
e é Lê Pen que se encontra face a Chirac para a eleição, dia
5 de maio, do presidente da República Francesa. Você não quer
acreditar, mas sim, os dois rostos estão ali, na tela da televisão
a minha frente, e os resultados: Chirac, 19,64%; Le Pen, 17,07%.
E Jospin, 16,01%, aparece em seguida ao lado dos outros 13 candidatos.
Você diz: “é horrível...a França...nossa referência...”. No
dia seguinte, você me chama: “o que se passou?” E, um dia depois:
“você pode me enviar um texto pra circular entre os amigos?”.
Hoje, cinco dias depois do terremoto,
eu me ponho a te escrever. Somente agora porque
todos esses dias estive em choque, como todos os homens
e mulheres de esquerda, mas também os da direita democrática.
Leio a cada dia do começo ao fim do Le
Monde e do Liberation:
os títulos, os editoriais, as declarações, as análises dos
partidos, as explicações dos “politicólogos”, as enquetes dos
jornalistas em campo junto aos que se abstiveram, os que votaram
nos extremos, à direita e à esquerda, os que votaram Chirac
e que não votaram Jospin e lamentam amargamente, as palavras
dos operários, dos empregados, dos jovens que
votaram Le Pen de um modo inesperado. Escuto o rádio,
vejo a televisão. Tudo se mexe, os jovens estão na rua. Por
onde começar?
Até ontem à noite, eu não sabia
justamente por onde começar, ou antes, eu tinha feito um plano
metódico e frio: 1. Os resultados e as primeiras reações. 2.
As explicações em torno do escrutínio (as abstenções, a dispersão),
o questionamento das sondagens e das mídias, as campanhas eleitorais(a
esquerda e as esquerdas, a direita e as direitas, a campanha
de Le Pen). 3. A crise da sociedade francesa, os partidos democratas
e os extremos. 4. As mobilizações para o segundo turno. Mas
tudo isso a imprensa brasileira vem abordando longamente, com
certeza. E eu me perguntava se uma recapitulação do quadro geral
seria suficiente... como comunicar a emoção de cada um dentre
nós, a amigos estrangeiros? A vergonha, as lágrimas, a dor,
o sobressalto. E afinal, esta manhã, bem cedo, durante o café,
escutando o rádio, fui tomado de uma náusea, de uma reação visceral,
o café não descia e me dei conta de que se tratava de
coração e de tripas nessa história e não somente de razão
e de inteligência. Um jornalista - cancioneiro de talento tinha
decidido consagrar sua
mensagem cotidiana de alguns minutos, na France-Inter, a nossos
sentidos, a fazer-nos “ouvir” quem era Le Pen. E uma música
de um CD gravado pela editora desse “empresário liberal” teve início - um canto nazista acompanhado
do martelamento das botas – e foi seguida,
depois, da voz desse “democrata republicano”, vomitando
palavras ao se dirigir a um jornalista que, nos últimos dias,
o encurralava um tanto sobre seu passado: “eu me lembrarei
do senhor, eu me lembrarei do senhor, eu me lembrarei do senhor”.
Aos 68 anos, o passado remontava
em mim e eu juntava num clarão todos os anos desde a guerra: a infância, a família materna, republicana de direita,
reagindo com lentidão ao Apelo do General de Gaule, em 1940,
a família paterna, oportunista – “pétainista”, colaboracionista,
fascista. A mãe, a mulher, de formação superior, mas vítima
de sua boa educação “feminina” da época, acantoada à depressão
grave periodicamente ( você se lembra, os nazistas esvaziavam
os asilos alemães em nome da raça pura. Então, você imagina
o perigo...) e manipulada por esta extrema direita, e toda essa
“brava gente” bem pensante da burguesia. A criança fazendo a
aprendizagem desta opressão numa dor muda. O adolescente e o
homem que tirou disso um engajamento à esquerda incondicional,
não questionável, irreversível, que ele vem manifestando ao
longo de toda sua vida. De um lado,
na sua família, com seus filhos, com seus amigos, seus
amores... e, de outro, no
campo profissional: na luta com o povo de Madagascar,
seus camponeses, seus trabalhadores e seus intelectuais “por
uma verdadeira independência e pelo socialismo” (anos 60); no
trabalho de organização e de luta dos movimentos de mulheres,
de homens e de jovens, franceses e imigrantes, na periferia
de uma grande cidade francesa, à véspera e nos primeiros tempos
da vitória socialista (anos 70 e 80); no recente trabalho de
pesquisa com os Sem-Terra, no Brasil... E, mesmo assim, eu também
não vi a coisa chegar. E esta música e esta voz que, de um só
golpe, interrogava o homem no qual eu tinha me transformado,
como deviam estar interrogando
tantos outros dentre nós... Eu tinha votado Jospin, é
certo, mas tinha me faltado qualquer coisa, já que eu também
não tinha visto
a coisa acontecer. Quem era eu, atualmente? Teria me deixado
entorpecer, acomodar?
Entretanto, esta manhã, até às
cinco para as oito horas, ouvi e reagi interiormente à sucessão
das informações
em cena... Le Pen tinha dado uma entrevista a um canal de televisão,
na véspera. Seu “leit-motiv”, sua obsessão, “A preferência nacional”,
agora no domínio da saúde: médicos e profissionais da saúde
“franceses”, o exame do prontuário de 10.000 médicos estrangeiros
que trabalham na França, a ética médica (fim da IVG – interrupção
voluntária da gravidez), o controle do estado de saúde nas fronteiras
para detectar a aids, etc.. Os imigrantes sempre, os sem-documentos,
clandestinos declarados, que é necessário cercar em “campos”
de passagem antes de expulsar... O despropósito, a razão enlouquecida,
as pulsões da morte, mas isso falava ainda à minha razão. Depois,
eu tinha ouvido que Chirac iria a Dreux, esta tarde, fazer um
comício no antigo reduto da Frente Nacional, onde Le Pen havia retomado seu impulso alguns anos atrás. Eu ouvia “Chirac,
super- mentiroso, super- ladrão”. Mas eu apenas entendia.
E, ainda, a entrevista de uma jovem na massa dos jovens
presentes nas ruas e sua palavra, clara, decidida: “uma vergonha,
nós não podemos deixar passar, mesmo com o risco de alimentar
a direita”. Mais os slogans gritados, cantados alegre e firmemente:
“Nós somos todos filhos de imigrantes”, “Black, Blanc, Beur,
même combat” (negro, branco, árabe, mesmo combate),
“Socialmente humanos, economicamente solidários, nacionalmente
acolhedores” - em
resposta à declaração de Le Pen: “eu sou socialmente de esquerda,
economicamente de direita e, nacionalmente, francês”. Tudo isso
estava bem. Mas quando essa música acompanhada do som das botas
ressoou e este grito gutural vomitou, resgatando a minha infância,
eu estremeci, eu, homem de esquerda desde sempre, estava concernido
diretamente, intimamente.
Simultaneamente, outras vozes começaram
a ressoar em mim, com a mesma força. Aquela de um operário,
que tinha votado Le Pen, no Liberation
da véspera (um “dos pequenos, dos excluídos, dos sem divisas”,
como havia dito “o Chefe”, na noite de sua vitória): “O Estado
é como uma “torre de marfim”, há 15 milhões
de pequenos senhores na França, superdiplomados e largamente
pagos”... E a voz dos outros
que re-estimavam: “Há 4 milhões de franceses abaixo da
linha de pobreza”. E depois uma leitora do Le Monde: “O Partido socialista desenvolveu hábitos de corte os socialistas
acompanhados de seus intelectuais de aparelho... caras elites
socialistas que preconizam a escola única e 80% de uma faixa
etária na universidade pública e
inscrevem seus filhos, em segredo, nas melhores escolas privadas
confessionais...que assim que seus filhos cultivados e felizes
, nutridos pelo leite do pós-maio de 68, procuram
encontrar-lhes
um lugar na sociedade através da
ajuda de uma rede de parentesco...”. E, ainda, este outro
leitor: “Os homens
políticos, as mídias, os sociólogos e outros especialistas vão
agora dissertar ao infinito a partir de uma única questão: como
chegamos nisso? A resposta é tão simples e evidente... As pessoas
estão saturadas de ser tomadas por imbecis; saturadas de ver
que os verdadeiros problemas não só são deixados de lado, como
até mesmo negados, que a insegurança é percebida como um sentimento, quando ela é uma realidade; saturadas
de que, sob o pretexto de anti- racismo, se deixe os delinqüentes
apodrecerem a vida
de bairros inteiros; saturadas de um governo autista e arrogante;
saturadas desses
políticos que preferem cuidar de suas pequenas contas pessoais
enquanto que todo um lado da sociedade sucumbe; saturadas de
constatar que sindicatos corporaratistas transforma os serviços
públicos em campo privado e
impedem toda e qualquer reforma de fundo; saturadas de serem
obrigadas a submeter-se à mundialização; saturadas de ouvirem
dirigentes declararem que não podem fazer nada; saturadas de
tantas injustiças e de cinismo; saturadas de ver esse governo
dar lições a todo mundo sem ser capaz de receber uma única;
saturadas, enfim, de serem
tomadas do alto por uma pretensa elite, desdenhosa, condescendente
e sem alguma sensibilidade diante do sofrimento dos mais fracos...
A maioria silenciosa lançou uma advertência aos governantes.
Eles a receberam?”... Bem, meus filhos, meus amigos, votaram
à esquerda, mas não seremos nós, na vida cotidiana,
“uma minoria silenciosa”?
Assim, esta manhã, como num relâmpago,
a raiva interior renascia, dissipando a confortável indignação
de esquerda, ao mesmo tempo em que, “em algum lugar”, como se
diz hoje em dia (sim, com efeito era
bem “em algum lugar” que alguma
coisa não ia bem), eu me sentia na berlinda, acusado,
interrogado na minha boa consciência “de elite de esquerda”.
O velho Sartre ressurgia, ele que eu jamais havia deixado, você
sabe, o velho Sartre do pós-guerra, “que tinha decidido não
mais se colocar ao largo da vida política, que elaborava sua
nova moral baseada na autenticidade e que exigia que o homem
“assumisse” sua “situação”, sendo que a única maneira de fazê-lo
era ultrapassando-a através do engajamento numa ação: qualquer
outra atitude seria uma fuga, uma pretensão vazia, um jogo de
máscaras, fundados sobre a má fé” (Simone de Bouvoir,
La Force de l´Âge).
O velho fascista – Le Pen - ressuscitava o velho
lutador (Sartre), sacudindo,
mais uma vez, as boas consciências... de esquerda.
Paris,
27 de abril de 2002
GÉRARD
ROY