Por MÁRIO MAESTRI
53, é historiador

 

O grande desastre francês


Mário Maestri (*)
De Paris.


Ao entardecer do ensolarado domingo de 21 de abril, a população francesa sobressaltada tomou consciência da possibilidade de que, pela primeira vez desde 1969, após a derrota do Maio Francês, um candidato da esquerda tradicional ficaria fora do segundo turno das eleições presidenciais. A conclusão da apuração confirmaria a explosiva possibilidade. Lionel Jospin, primeiro-ministro francês e principal dirigente do Partido Socialista, finalizava como terceiro colocado na primeira fase da corrida presidencial, com pouco menos de 4.400.000 votos. Isto é, 15,8 % dos 27.755.000 votantes. Por sua vez, as abstenções superaram os 27%. A indignação do movimento social e democrático francês foi ainda maior quando se concretizou a possibilidade de que seria Jean-Marie Le Pen, o
candidato do fascista Frente Nacional - 17,19 % -, a disputar a presidência com Jacques Chirac, atual presidente francês e candidato da direitista RPR - 19,41%. Chirac, apontado como envolvido em grandes negociatas, perdeu igualmente votos em relação ao pleito presidencial passado.

Os resultados eleitorais do primeiro turno sugerem que, também na França, afigura-se a possibilidade de que mais um governo social-democrata preocupado com a governabilidade da ordem capitalista facilite a volta ao governo da direita mais conservadora, consagrada pelo voto popular. Ao igual do ocorrido nos últimos tempos na Dinamarca, Holanda, Israel, Itália e, há apenas algumas semanas, em Portugal. Os resultados do pleito presidencial, caracterizado pela grande dispersão dos votos, não deixa dúvidas sobre a enorme insatisfação da população com a «esquerda plural» francesa, paradoxalmente apontada como o menos timorato dos projetos sociais-democratas empossados em meados dos anos noventa.

Ao acomodar-se e, em alguns casos, apoiar as privatizações, a internacionalização da produção, a flexibilização da relações trabalhistas; etc., a «esquerda plural» lançou importantes setores operários e médios, econômica e socialmente, no desemprego e na precariedade e, politica e ideologicamente, nos braços da demagogia fascistizante. O apoio do governo Jospin à intervenção imperialista da
Otan na Iuguslávia criou contradição insolúvel entre a social-democracia no poder e os setores internacionalistas da esquerda francesa. Lionel Jospin é um dos grandes inspiradores de Luís Inácio Lula da Silva. Quando do último Fórum Social Mundial, concluiu-se acordo de apoio eleitoral entre o PT e o PS. Há poucas semanas, Lula apoiava a campanha presidencial de Jospin. Dificilmente será mantida a participação de Jospin na campanha petista, já que anunciou o abandono da política após conhecer os resultados desastrosos.

O retrocesso do bloco governamental social-democrata foi profundo. Os cinco partidos e movimentos que chegaram ao governo em 1997 - Partido Socialista; Partido Comunista; Radicais de Esquerda; Verdes; Chevènementistas - obtiveram, no 21 de abril, apenas 32,7% dos votos, recuando nove por cento em relação ao escore eleitoral passado. O mais humilhado entre os candidatos da esquerda plural foi Robert Hue, candidato do cada vez mais comportado PCF - renunciou ao leninismo, à ditadura do proletariado, à estatização da grande produção, etc. O PCF, após a Guerra, ainda quase com as armas às mãos, recebeu 30% dos votos franceses. Agora, obém miseráveis 3,5%.

Com menos de um milhão de votos, o PCF perdeu mais da metade dos votantes de 1995! Reduzido à situação grupuscular conhecida quando de sua fundação, nos anos 1920, abaixo dos cinco por cento fatídicos, não terá os gastos eleitorais pagos. Assim, além do inferno eleitoral, conhecerá o inferno
financeiro. Acresce o achincalhamento do PCF a votação do seu concorrente
histórico. A esquerda revolucionária trotskista abiscoitou praticamente todo seu eleitorado sindical e trabalhista!

Arlette Laguiller, da radical Luta Operária, que as estimativas chegaram a prognosticar escore eleitoral de dez por cento, concluiu o pleito com um milhão e seiscentos mil votos, ou seja, em torno de seis por cento do eleitorado. Ao contrário do PCF, Luta Operária refará sua caixa com
recursos fornecidos pelo Estado burguês!

Um sucesso praticamente igual conheceu o midiático trabalhador dos correios franceses Olivier Besancenot, que obteve 4,32% dos sufrágios para a menos radical Liga Revolucionária dos Trabalhadores - LCR -, também trotskista: quase 1.200.000 votos! O minúsculo Partido dos Trabalhadores, de orientação lambertista, não participou da grande festa francesa dos
filhos do Leão - recebeu apenas 0,47% dos sufrágios.

A profunda insatisfação com o governo social-democrata minou por fora e por dentro o candidato do Partido Socialista. Por dentro, a crise de orientação da «esquerda plural» levou a que ex-aliados como Jean-Pierre Chevènement - 5,3% - e os Radicais de Esquerda - 2% - apresentassem
candidatos independentes, ao contrário do ocorrido nas eleições presidenciais de 1995. Esses 7,3% garantiriam facilmente a participação de Jospin no segundo turno.

Por fora, a insatisfação popular transferiu votos sobretudo dos setores populares e trabalhadores menos politizados da esquerda para a proposta populista de Le Pen, que reforça seu apoio entre o operariado francês tradicional. Essa hemorragia social e eleitoral foi estancada apenas devido ao fortíssimo crescimento da esquerda-revolucionária trotskista, que conseguiu diferenciar o projeto socialista e classista das práticas neo-capitalistas da social-democracia no governo.

Em início de maio, a população francesa votará entre um candidato corrupto de direita e um populista de extrema-direita. Uma votação que não apresentará surpresas, afirma-se. O próprio patronato francês não aceita nem mesmo pensar na eleição de um presidente do Frente Nacional.

As estimativas apontam uma vitória de Jacques Chirac com mais de setenta e cinco por cento dos votos. O que se dará devido ao apoio da direita por parte do eleitorado de esquerda, pressionado pela chantagem da extrema-direita. A grande batalha eleitoral ocorrerá em junho, quando das eleições legislativas nacionais que definirão o bloco político que governará a França.

Apesar do desastre que constituiu a chegada de Le Pen às finais presidenciais, por primeira vez na história francesa recente o crescimento da esquerda-revolucionária coloca a possibilidade real da construção de uma alternativa classista e revolucionária para a grande população francesa.

Sinal da vitalidade do movimento social, em Paris, imediatamente após o anúncio dos resultados eleitorais, realizaram-se mobilizações espontâneas contra o crescimento do Frente Nacional. Na segunda-feira, 22, através do país, os estudantes secundários interromperam as aulas, manifestando
igualmente sua oposição à direita extrema.


 

MÁRIO MAESTRI

Publicado também no Portal Popular    

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados