Por CÉSAR BENJAMIN
Autor de A Opção Brasileira (Editora Contraponto, 1998) e integrante da Coordenação Nacional do Movimento Consulta Popular

 

Economia e educação: um debate invertido

 

Estive recentemente, na condição de economista (pois as pessoas pensam que sou economista) em um congresso de educadores. Fiquei, desde logo, preocupado. Para defender a alocação de mais recursos para o setor, pessoas bem-intencionadas enfatizavam a influência positiva - a meu ver, bastante discutível - da educação sobre o crescimento econômico. "Que apoio a educação pode dar para a retomada do desenvolvimento?", foi a questão que me propuseram. Fugi dela. Pois, a meu ver, deveríamos perguntar exatamente o contrário: "Qual é o papel do crescimento econômico no apoio à educação?"

É claro que um projeto educacional exige meios, e isso envolve questões de economia. Mas, se colocarmos na balança o que é meio e o que é fim, não hesito em responder: economia é meio, educação é fim, e não o contrário. Em uma sociedade civilizada, o desenvolvimento econômico deve ser pensado como um estratagema útil e necessário, de que lançamos mão, para que as pessoas possam dedicar mais tempo de sua vida a buscar cultura, conhecimento, interação humana, prazer estético e transcendência.

A valorização dos espaços educacionais se tornou imprescindível para a própria sobrevivência da nossa espécie, o que nos remete a questões mais fundamentais. Não exagero. Ao longo da história, essa espécie tão frágil, que somos nós, que não voa, que não é especialmente ágil e veloz, que não vive em buracos, que não enxerga no escuro, que não é muito forte, essa espécie aprendeu a se proteger dos perigos externos - o frio, o calor, os predadores, a necessidade de encontrar alimentos -, que praticamente não a ameaçam mais. Para fazer isso, desenvolveu sua racionalidade técnica. Cada um de nós, colocado na frente de um urso ou um leão, não vale nada. Como portadores de uma técnica adequada, os derrotamos sem dificuldade.

O espetacular desenvolvimento da técnica permitiu que nos protegêssemos de todos os perigos. Ou melhor, quase todos. Porque uma espécie - e só uma - continua ameaçando seriamente a nossa existência. É a própria espécie humana. O risco que corremos no mundo contemporâneo não é o de sermos destruídos por causas externas. É sermos destruídos por nós mesmos, pela nossa incapacidade de viver juntos. Para enfrentarmos esse risco, a racionalidade técnica não vale de nada. Ao contrário, ela freqüentemente se volta contra nós. A bomba atômica e os fuzis AR-15 são filhos dela.

Uma sociedade que enfatiza excessivamente a técnica e perde a capacidade de dialogar - ou seja, de estabelecer valores comuns, acordos, pactos, fins compartilhados e legítimos - é uma sociedade que se destruirá. Hoje, dependemos muito menos da racionalidade técnica, já bastante desenvolvida, e muito mais de fortalecer nossa minguante capacidade de estabelecer regras e normas de uma convivência civilizada. Eis o papel insubstituível da educação e dos educadores. No mundo contemporâneo, os sistemas educacionais são um dos últimos espaços que restam, que podem ser espaços essencialmente comunicativos. Voltados para trabalhar valores e fins, para valorizar a comunicação dialógica e a própria linguagem centrada na palavra, a linguagem humana por excelência. Espaços em que as interações humanas continuam a existir sem que estejam dominadas pela unidirecionalidade e a velocidade, em que se formam grupos, em que se trabalha em escala controlável pela comunidade, em que se valoriza a memória, que são componentes essenciais de qualquer projeto civilizatório.

Se desejamos desenvolvimento, usemos a economia e a técnica, mas olhando para as pessoas. Elas são o centro de qualquer projeto sustentável. Os educadores é que sabem disso. Por isso, mais importante do que os economistas falarem para educadores, é que os educadores comecem a falar para economistas. Só merecerá ser chamada de civilizada uma sociedade que trate a educação como um direito subjetivo das pessoas, como uma prática voltada para alargar seus horizontes humanos, como um fim em si. E não como um instrumento para adequar as pessoas às necessidades de um mercado cada vez mais enlouquecido, porque dominado pelo fetiche das coisas.

________________

 

CÉSAR BENJAMIN

     

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados