Economia
e educação: um debate invertido
Estive
recentemente, na condição de economista (pois as pessoas pensam
que sou economista) em um congresso de educadores. Fiquei, desde
logo, preocupado. Para defender a alocação de mais recursos
para o setor, pessoas bem-intencionadas enfatizavam a influência
positiva - a meu ver, bastante discutível - da educação sobre
o crescimento econômico. "Que apoio a educação pode dar
para a retomada do desenvolvimento?", foi a questão que
me propuseram. Fugi dela. Pois, a meu ver, deveríamos perguntar
exatamente o contrário: "Qual é o papel do crescimento
econômico no apoio à educação?"
É
claro que um projeto educacional exige meios, e isso envolve
questões de economia. Mas, se colocarmos na balança o que é
meio e o que é fim, não hesito em responder: economia é meio,
educação é fim, e não o contrário. Em uma sociedade civilizada,
o desenvolvimento econômico deve ser pensado como um estratagema
útil e necessário, de que lançamos mão, para que as pessoas
possam dedicar mais tempo de sua vida a buscar cultura, conhecimento,
interação humana, prazer estético e transcendência.
A
valorização dos espaços educacionais se tornou imprescindível
para a própria sobrevivência da nossa espécie, o que nos remete
a questões mais fundamentais. Não exagero. Ao longo da história,
essa espécie tão frágil, que somos nós, que não voa, que não
é especialmente ágil e veloz, que não vive em buracos, que não
enxerga no escuro, que não é muito forte, essa espécie aprendeu
a se proteger dos perigos externos - o frio, o calor, os predadores,
a necessidade de encontrar alimentos -, que praticamente não
a ameaçam mais. Para fazer isso, desenvolveu sua racionalidade
técnica. Cada um de nós, colocado na frente de um urso ou um
leão, não vale nada. Como portadores de uma técnica adequada,
os derrotamos sem dificuldade.
O
espetacular desenvolvimento da técnica permitiu que nos protegêssemos
de todos os perigos. Ou melhor, quase todos. Porque uma espécie
- e só uma - continua ameaçando seriamente a nossa existência.
É a própria espécie humana. O risco que corremos no mundo contemporâneo
não é o de sermos destruídos por causas externas. É sermos destruídos
por nós mesmos, pela nossa incapacidade de viver juntos. Para
enfrentarmos esse risco, a racionalidade técnica não vale de
nada. Ao contrário, ela freqüentemente se volta contra nós.
A bomba atômica e os fuzis AR-15 são filhos dela.
Uma
sociedade que enfatiza excessivamente a técnica e perde a capacidade
de dialogar - ou seja, de estabelecer valores comuns, acordos,
pactos, fins compartilhados e legítimos - é uma sociedade que
se destruirá. Hoje, dependemos muito menos da racionalidade
técnica, já bastante desenvolvida, e muito mais de fortalecer
nossa minguante capacidade de estabelecer regras e normas de
uma convivência civilizada. Eis o papel insubstituível da educação
e dos educadores. No mundo contemporâneo, os sistemas educacionais
são um dos últimos espaços que restam, que podem ser espaços
essencialmente comunicativos. Voltados para trabalhar valores
e fins, para valorizar a comunicação dialógica e a própria linguagem
centrada na palavra, a linguagem humana por excelência. Espaços
em que as interações humanas continuam a existir sem que estejam
dominadas pela unidirecionalidade e a velocidade, em que se
formam grupos, em que se trabalha em escala controlável pela
comunidade, em que se valoriza a memória, que são componentes
essenciais de qualquer projeto civilizatório.