Os
acontecimentos nas últimas semanas têm me feito pensar seriamente
que estou vendo uma série de documentários do passado. Na França,
um partido de extrema direita, a Frente
Nacional de Jean Marie Le Pen, consegue ir para o segundo
turno da eleição presidencial, derrotando o candidato socialista,
Lionel Jospin. Na Venezuela, um presidente populista, Hugo Chavez,
é derrubado do poder por uma ação militar e, apesar de ele ter
sido reempossado, parecia um típico golpe de Estado latino-americano
dos anos 70. Será possível que estamos voltando ao passado?
Apesar das aparências, quero acreditar que não.
Comecemos
analisando o problema europeu. Os acontecimentos na França,
apesar de algumas especificidades, estão seguindo o mesmo padrão
da Áustria e da Itália, para mencionar apenas alguns exemplos.
Nestes países, partidos políticos declaradamente racistas
e com nostalgia do nazismo ou do fascismo chegaram, em coalizão
com conservadores de direita (os da Forza
Italia de Silvio Berlusconi e
o Partido Popular de Wolfgang Schuessel), ao poder, causando escândalo
internacional.
A
maioria da população austríaca e italiana com certeza não parece
desejar a volta do nazismo e nem a entronização de Jorg Haider
ou de Gianfranco Fini (líderes fascistas austríaco e italiano,
respectivamente) como os novos Hitler e Mussolini. Ainda assim,
a votação deles nas últimas eleições não foi inexpressiva e
merece algum tipo de explicação.
O
primeiro elemento a ser levado em consideração é que, apesar
da riqueza e da prosperidade, os europeus
vivem hoje um certo clima de
insegurança causado
pelo desemprego e por
uma crise de identidade
causada pelo processo de globalização e pela contínua erosão
das nacionalidades dentro da União Européia. A perspectiva,
além disso, real ou imaginária, de milhões de imigrantes nas
fronteiras a espera de um passo em falso para invadir o continente,
deixa os europeus, em linhas gerais, assustados e com a sensação
de serem uma fortaleza sitiada.
Nesse
contexto, a extrema direita vem conseguindo espaço através da
bandeira da recuperação das soberanias nacionais ameaçadas
pela União Européia, da repressão à imigração e aos imigrantes
(vistos como inferiores, ameaçadores e culpados de todos os
problemas dos europeus)
e da crítica aos políticos tradicionais. Apesar das especificidades
locais, os exemplos francês, italiano e austríaco
se encaixam nesse padrão.
Em todos esses países, além disso, os neo fascistas se
apresentaram como alternativa a
sistema políticos fossilizado e não há dúvida de que
essa aura de novo ajudou em muito a sua popularidade.
A
experiência de Haider ou Le Pen, na verdade, mostra um pouco
como é o fascismo dos anos 90. Não mais se baseando na pequena
burguesia como nos anos 30, mas num operariado apavorado com
a falta de perspectivas e com a potencial concorrência dos imigrantes;
usando com habilidade os meios de comunicação na defesa da nação
e da tradição e na mobilização demagógica da crise e da insegurança.
Eis o fascismo reciclado. O que diferencia a França de outros
países é que a direita conservadora, de Chirac, disputa o poder
com a extrema direita e não vai, portanto, aliar-se a ela. Já
os políticos da direita conservadora da Itália e da Áustria
não hesitaram em incorporá-la ao governo para a manutenção de
seu poder. Especificidades
locais, que não mudam o quadro geral.
No
entanto, seria um erro supor que a Europa caminha de forma acelerada
para o fascismo e esse neo fascismo tem mais a ver, talvez,
com o mundo da democracia moderna do que com os velhos fascismos
dos anos 30. De fato, apesar das semelhanças ideológicas, a
ascensão de Berlusconi e seus aliados tem mais a ver com o poder
da mídia na sociedade contemporânea do que com uma herança fascista
onipresente na Itália,
enquanto a derrota de Jospin se deveu mais à abstenção
dos eleitores de esquerda (derivada, por sua vez, de fenômenos
típicos do mundo atual, como o desinteresse pela política e
a perda dos referenciais ideológicos dos partidos, que acabam
ficando todos iguais e desestimulam os eleitores) do que a um
substancial aumento dos votos de extrema direita.
O
mesmo pode ser dito da situação da Venezuela. Chavez é um populista
típico e a tentativa de removê-lo do poder pela força indica
que a solução militar ainda ronda a cabeça da direita latino-americana.
Tanto que me espantou a levíssima condenação ao golpe, por exemplo,
na imprensa brasileira. No entanto, o seu próprio fracasso indica
como as coisas mudaram e que não se pode mais pensar, apesar
do crescente descrédito com a democracia na América Latina,
em golpes de Estado como nos anos 70.
Ou
seja, o mundo mudou muito nas últimas décadas e nem tudo é o
que parece ser. Isso não quer dizer, claro, que os riscos da
volta do fascismo e de ditaduras militares latino-americanas
sejam nulos, mas sou otimista a ponto de achar que eles são
pequenos. Garantir isso, contudo, é tarefa da sociedade civil
e de todos os democratas.