Universidade
Pública e Competente
Antecipadamente,
peço desculpas aos leitores, pelo tema que vou abordar: a universidade
pública brasileira. Escrevo novamente sobre este tema, pois
falar sobre a universidade brasileira é tão fundamental quanto
discutir os rumos da economia, das eleições presidenciais ou
dos conflitos israelo-palestinos.
Por
que escrever sobre a Universidade Pública? Porque é numa instituição
como essa que eu trabalho há 10 anos e é onde eu estou tendo
a oportunidade de construir a minha vida profissional de docente
e pesquisador. Nesse período pude vivenciar, cotidianamente,
as dificuldades enfrentadas pelas universidades brasileiras:
falta de investimento em infraestrutura, laboratórios e salas
de aulas; bibliotecas defasadas e sem espaços adequados de trabalho
e de pesquisa; desmotivação funcional; baixos salários para
docentes e funcionários; péssimas condições de trabalho e de
segurança; falta de perspectiva profissional para a maioria
dos alunos que estão se formando; centralização e demasiada
burocratização das atividades administrativas.
Mesmo
diante desse “caos”, a universidade pública brasileira caminha
e contribui significativamente para a construção de uma país
melhor e uma vida mais digna para os seus cidadãos.
A
universidade tem uma dupla função social a cumprir, que é a
de formar profissionais qualificados e cidadãos ativos para
exercer as mais diversas atividades; e a de produzir o saber
e o pensamento crítico nas diferentes áreas do conhecimento
científico, tecnológico e cultural. A universidade pública têm,
de certa forma, cumprido esse papel. Hoje, são as universidades
públicas que oferecem os melhores cursos de graduação e de pós-graduação
e a quase totalidade da produção científica, tecnológica, humanística
e cultural é realizada no seu interior.
Sabemos
que a produção de conhecimento demanda tempo de trabalho intelectual
e muito esforço coletivo. E para isso, a sociedade precisa formular
as bases intelectuais e sociais para que tal conhecimento possa
ser continuamente construído e disponibilizado para esta mesma
sociedade.
Nesse
sentido temos muito a avançar. Já não dá mais para compactuar
com os desmandos governamentais frente à um setor essencial
para o futuro do país. E tenho certeza que a grande maioria
dos docentes e funcionários não compactua. O Brasil precisa
criar mecanismos eficientes de financiamento das universidades
públicas, ampliar o número de vagas nessas instituições e investir
estrategicamente em Ciência e Tecnologia. Pelo censo de 2000,
recentemente divulgado pelo IBGE, dos alunos matriculados nas
instituições de nível superior, apenas 29,1% estão no ensino
público. Um contraste muito grande, quando comparamos com os
dados do ensino fundamental e médio: 89% e 81,2%, respectivamente.
A sociedade precisa entender que quanto mais pública for a universidade,
mais esta se transformará na universidade da sociedade. Quanto
mais recursos forem investidos em educação, inclusive a superior,
em pesquisa e em desenvolvimento científico e tecnológico, mais
se consolida a democracia e a soberania nacional.
Para
ser uma universidade da sociedade, a universidade pública e
gratuita precisa ser competente. Nesse sentido, embora de difícil
solução, precisamos romper com o corrosivo corporativismo acadêmico
e sindical, criando mecanismos de avaliação periódica e continuada,
reorganizando a estrutura burocrática e diretiva, descentralizando
e tornando mais transparentes as ações administrativas; enfim,
criando o princípio da responsabilidade política e social e
reforçando o compromisso democrático. Esse é o nosso dever.
No
entanto, não há universidade competente de fato sem a devida
autonomia. Autonomia é a garantia concreta da universidade poder
atuar com liberdade (com respeito à ética profissional e de
pesquisa, obviamente) na produção do conhecimento, integrando
as atividades de ensino, pesquisa e extensão. É evidente que,
para o exercício completo da autonomia universitária, como estabelece
a constituição cidadã de 1988, é necessário que o Poder Público
defina as regras de financiamento em uma base sólida, cujos
recursos financeiros sejam suficientes para o pagamento de pessoal
e para a manutenção e custeio das atividades de ensino e pesquisa
com qualidades, sem evidentemente, deixar de proporcionar o
crescimento das universidades e a inclusão de mais estudantes
no ensino superior público. Isso é dever do Estado e da sociedade,
e seria uma prova de respeito a um espaço de construção e de
democratização do conhecimento.