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Uma análise preliminar desses resultados indicaria, portanto,
que a esquerda, em seu conjunto, logrou preservar seu
capital eleitoral (admitindo-se contar o “gaullista
de esquerda” Chevènement entre suas fileiras), ainda
que o candidato socialista tenha perdido muitos votos
(cerca de 2,5 milhões) e que o comunista tenha sido
propriamente “lapidado” (passou de 2,6 milhões em 1995
para cerca de 960 mil em 2002). A esquerda tradicional,
em relação a 1995, perdeu pouco mais de 1,5 milhão de
votos (mas apenas cerca de 300 mil votos, se excluídos
os comunistas e os ecologistas), o que corresponde aproximadamente
aos ganhos da extrema esquerda. De fato, foi a direita
quem perdeu relativamente mais votos, em parte transferidos
para a extrema direita representada pelos “irmãos inimigos”
Le Pen e Mégret (este, um “trânsfuga” do Front National).
A direita dita governamental (na qual podria ser colocada
igualmente o centro) perdeu, no total, quase 4 milhões
de votos, sem que isso tenha ido beneficiar a extrema
direita, que agregou menos de um milhão de votos adicionais
aos resultados de 1995. Os votos faltantes na direita,
portanto, foram os daqueles que se abstiveram, os verdadeiros
vilões desta eleição de 2002, na qual a “participação”
dos ausentes passou de 21 % em 1995 a quase 28 % agora. Em outros termos, os resultados das eleições francesas não
foram dramáticos para o conjunto da esquerda, mas é
verdade que alguns dos candidatos da esquerda tradicional
foram exemplarmente castigados, da mesma forma, aliás,
que outros candidatos da direita governamental. A extrema
direita deve ser considerada, para todos os efeitos
práticos, como um agrupamento anti-sistema e de fato
seu discurso político ataca tanto a esquerda como os
representantes da direita e do centro conservador, considerados
como pouco confiáveis na defesa dos “interesses do povo
francês”. No Brasil, cuja classe política
seguiu com atenção esses resultados, o candidato do
PT, Lula, chamou a atenção, como vimos, para os perigos
da divisão no seio da esquerda, algo tão tradicional
como a multiplicação de seitas religiosas. De fato,
Jospin deixou de figurar no segundo turno porque alguns
dos tradicionais opositores da direita também quiseram
mandar um sinal de descontentamente aos socialistas
votando pelos candidatos da extrema esquerda. Mas, isso
também ocorreu com os eleitores da direita tradicional.
Quais seriam, portanto, os verdadeiros ensinamentos
a serem tirados dessas eleições francesas? Parece claro, em primeiro lugar, que o eleitorado francês
– como eventualmente o brasileiro também poderá fazer
dentro de alguns meses – mandou um sinal de nítido descontentamento
em relação à classe política em seu conjunto, muito
embora o castigo tenha penalizado mais claramente os
candidatos tradicionais, de esquerda ou direita. Em
segundo lugar, esse descontentamento se prende a razões
bem específicas, que explicam o relativo sucesso da
extrema direita: se trata da insegurança, tanto econômica
quanto pessoal. A primeira fonte de insegurança se refere
às ameaças ao emprego, representadas pelos perigos difusos
da globalização – que os franceses, por atavismo anti-americano,
chamam de mundialização – enquanto a segunda está diretamente
ligada às ameaças bem reais de delinquência e de violência
urbanas. Em terceiro lugar, no Brasil, esse tipo de
sinalização seria mais suscetível de atingir os candidatos
da esquerda, que são os mais identificados com uma certa
leniência em relação às fontes de insegurança social. O que, em termos mais simples, os eleitores franceses disseram
aos políticos foi mais ou menos o seguinte: quero meu
emprego de volta e quero que sejam eliminadas radicalmente
as fontes de delinqüência nos subúrbios das grandes
cidades (as que são identificadas, certa ou erradamente,
com a população imigrada, em primeiro lugar de origem
árabe). Tudo isso tem muito pouco a ver com as diatribes
anti-comunitárias do candidato Le Pen e suas ameaças
de retirar a França da UE e da moeda única, mas deve
provavelmente incitar o candidato Chirac a reforçar
sua defesa dos esquemas “generosos” de redistribuição
de recursos a grupos de interesses, entre os quais se
conta a absurda (e absolutamente nefasta para os interesses
brasileiros) Política Agrícola Comum. No Brasil, igualmente, desemprego e violência serão os dois
grandes temas das próximas campanhas presidenciais e
não está ainda muito claro quem, da situação ou da oposição,
poderá apresentar programas de governo dotados de um
pouco mais de credibilidade nesses dois fortes vetores
sociais. Se o candidato tradicional da esquerda parece
mais propenso a defender o emprego dos já empregados,
não é certo que ele seja visto como capaz de criar novas
fontes de trabalho para os milhões de jovens (e outros
nem tão jovens) que sobrevivem no mercado informal ou
no subemprego. Por outro lado, a esquerda é vista, habitualmente,
como mais leniente em relação ao “tratamento” a ser
aplicado aos delinqüentes, o que retira muito do apoio
que lhe poderia ser concedido pela classe média ou mesmo
pelas camadas ditas populares. O candidato governista,
por sua vez, não terá uma campanha muito confortável
nessas duas áreas, uma vez que o taxa média de desemprego
tendeu a crescer no período (ainda que não dramaticamente)
e que, segundo o senso comum, a violência parece ter
aumentado exponencialmente. Em que pese a crença de muitos militantes de esquerda, o
eleitorado, qualquer que seja ele, tende a votar de
maneira não ideológica, privilegiando mais suas preocupações
do momento do que grandes programas de transformação
geral da situação econômica ou política. O eleitor quer
em geral que o político resolva o seu problema de emprego
e de insegurança pessoal, todo o resto vindo depois,
inclusive a peroração contra as políticas neoliberais
e as privatizações. Os detalhes e demandas específicas em termos de políticas
setoriais surgem durante a campanha, e nesse campo a
estabilidade econômica continua a ser valorizada potencialmente
(ainda que seja pouco provável que ela constitua o “cabo
eleitoral” que foi em 1994 e em 1998). Em todo caso,
o candidato do PT não parece dispor, nesse particular,
de uma boa base de partida, tendo em algum momento do
passado deixado a entender que um “pouquinho” de inflação
seria uma troca aceitável por um pouco mais de crescimento
econômico e de criação de empregos. Em síntese, no Brasil
como na França, o embate não se dará entre a esquerda
e a direita, mas entre candidatos que saberão inspirar
maior ou menor confiança em termos de preocupações imediatas
dos cidadãos, em primeiro lugar em relação às fontes
de insegurança pessoal e social. Políticos acomodados,
de direita ou de esquerda: preparem-se para algumas
surpresas! PAULO ROBERTO DE ALMEIDA |
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