Por ANTONIO THOMAZ JÚNIOR
Professor dos Cursos de Graduação e de Pós-Graduação em Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNESP/Presidente Prudente (SP); Coordenador do Grupo de Pesquisa “Centro de Estudos de Geografia do Trabalho” - CEGeT; Coordenador do Centro de Documentação, Memória e Hemeroteca Sindical “Florestan Fernandes” (CEMOSi); Autor do livro “Por Trás dos Canaviais os Nós da Cana”  (Annablume/FAPESP, 2002)


 

A Dignidade Roubada e a Barbárie
(um espectro ronda nossas vidas!)

Mais uma vez estamos assistindo nos últimos dias  cenas de violência que se repetem incólumes, com o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, do Partido dos Trabalhadores e a tentativa de homicídio, por agentes do latifúndio, do líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra  (MST), José Rainha Júnior. Falar de assunto tão complexo poderia nos exigir uma longa reflexão, sendo que nesse momento, pretendemos ponderar alguns aspectos desse quadro.

Definir genericamente como violência atitudes que suprimem a vida ou que dela fazem uso indevido para benefício próprio, vingança, perseguição, queima-de-arquivo, etc., é não se dispor a entender a complexa trama de relações que sustenta as contradições vigentes e que ao seu entorno ergue barreiras que impede a visualização dos atores sociais envolvidos. Cenas típicas da barbárie ainda nos assustam!

É a partir dessa tomada de consciência que poderemos entender os papéis cumpridos pelo Estado, pelos órgãos públicos constituídos (nos diferentes níveis: estadual e federal), que  “cuidam” da segurança pública, alguns ainda com alcunha de defensores/mantenedores da cidadania. Em certa medida não poderíamos esquecer de alguns setores da mídia, que mancomunados com segmentos dominantes internamente aos órgãos de Estado, prestam desserviço à sociedade, ofuscando fatos, omitindo e distorcendo informações, etc., enfim forjando sociabilidades. É por dentro desse cenário que podemos entender as mediações e as reais inserções dos partidos políticos, das entidades da sociedade civil, e no caso particular da luta pela terra no Brasil e especificamente no Pontal do Paranapanema, dos envolvimentos com mortes, desaparecimentos, ameaças de morte, as ações dos jagunços a mando dos latifundiários, etc. Seqüestros seguidos ou não de mortes, invasões de domicílios por órgãos de segurança, ações de grupos de extermínio, emboscadas, nos assustam, mas não param de ocorrer, sempre com mais ousadia e virulência. Pode-se dizer que os trabalhadores e as trabalhadoras brasileiros estão desassistidos de segurança, dignidade e, sobretudo, de esperança.

É hora de darmos um basta nisso tudo.

É necessário que a sociedade civil exija uma faxina ampla e completa nos órgãos de segurança e de que o Estado atue com políticas públicas capazes de incluir descentemente um sem-número de trabalhadores e trabalhadoras que estão à própria sorte, vagando em busca de emprego, de segurança, enfim, da dignidade roubada.

Reforma Agrária, direito ao trabalho, direito a vida  são componentes elementares para se discutir a inclusão social no Brasil. Como e por que não se discutir esses assuntos nesse momento?

É importante não aceitarmos os caminhos sugeridos pela burguesia e pelos setores sociais que lhe dão sustentação, nesse momento de consternação, quando clamam por dignidade, justiça, Estado de direito, sendo, pois, bandeiras que não incluem os setores sociais que vivem do trabalho, os trabalhadores e as trabalhadoras brasileiras que acabaram de ser  premiados com as recentes reformas na CLT, cenas exemplares e típicas da barbárie imposta pelas classes dominantes.

É necessário sim, que os trabalhadores e as trabalhadoras brasileiros entendam o conteúdo e a magnitude do espectro que ronda as nossas vidas, e solidifiquem os propósitos da busca da emancipação social para além da sociedade do capital, pois somente isso será capaz de promover-lhes a dignidade roubada, e a segurança para ir e vir, aliás, que se fazem urgentes.

 

ANTONIO THOMAZ JÚNIOR

     

 


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