Conservadorismo
e Educação no Brasil
Três
notícias sobre aberrações da educação brasileira, aparentemente
sem conexão entre si, circularam na internet nos últimos dias.
A
primeira, arrolava uma dezena de erros grosseiros cometidos
por alunos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).
Acredito que vários leitores chegaram a ler algumas das respostas
inusitadas, mas não consigo vencer a tentação de reproduzir
algumas delas. O que dizer de um aluno que afirma que “os desmatamentos
de animais precisam acabar” ou que o desmatamento é “um problema
de muita gravidez”? Por onde começar quando alguém diz que este
problema (o desmatamento) é causado pelos “raios ultra-violentos”?
Alguns outros, na tentativa de construir um discurso politizado,
avaliaram que a culpa central é do governo federal que “vem
com aquela prosopopéia flácida”. Ao ler tantas frases insólitas
surgem várias dúvidas. A primeira: qual o interesse de quem
decide divulgar essas
respostas ao sabermos que foram 400 mil alunos avaliados pelo
ENEM? Acredito que há um interesse mórbido em reduzir os esforços
educacionais recentes que envolveram todo o país. Ao selecionarmos
os inúmeros erros cometidos por jornalistas e editores para
divulgação, qual seria a intenção velada de tal ato? A segunda
dúvida: quais os erros cometidos na formação desses alunos que
resultariam em tais absurdos? Temo que a resposta fácil aumente
a repressão sobre nossos alunos.
A
segunda notícia está vinculada ao temor que indiquei na frase
acima: nas periferias de Manaus é prática corrente o uso de
palmatória em sala de aula. Alguns professores que lecionam
“aulas de reforço” a alunos do ensino fundamental, como Raquel
Magno Santarém, admitem que cada erro cometido ou demora em
responder uma questão vale uma palmada. O pior é que os pais
dos alunos agredidos concordam com a violência: Ana Keyla Reis
aprova a palmatória por acreditar que a professora “é uma segunda
mãe dos alunos e, portanto, tem o direito de repreendê-lo”.
Todos sabemos que uma pessoa educada dificilmente lança mão
da violência. Por que motivos, então, a violência aparece nesta
notícia como instrumento de educação?
A
última notícia vem de Brasília. Num e-mail emocionado, o professor
Carlos Pio, coordenador do Curso de Especialização da Universidade
de Brasília informa que reprovou 11 estudantes com mais de 25
anos, portadores de diploma universitário e empregados em empresas,
por terem plagiado trabalhos finais de conclusão do curso. Os
trabalhos foram copiados de portais da internet destinados a
“ajudar”, mediante pagamento, estudantes universitários a completar
suas tarefas acadêmicas. O professor Pio lista cinco portais
que oferecem tais serviços.
Começo
a pressentir uma onda de extremo conservadorismo que se esboça
a respeito do futuro das políticas educacionais de nosso país
e que permeiam as três notícias que citei. O movimento conservador
que estou pressentindo tem duas motivações distintas: de um
lado, interesses de mercado, de outro, um forte ressentimento.
A motivação mercadológica nasceu nos anos 90, quando o então
ministro Carlos Chiarelli procurou introduzir modelos de Qualidade
Total na educação. Apenas o Chile procurou um feito similar.
Nenhuma outra reforma educacional importante no mundo aproximou-se
dessa aventura. Mas a Qualidade Total acabou aumentando os rituais
escolares, os instrumentos de controle, a busca de resultados
quantificáveis. Um exemplo de tal confusão é a relação que alguns
dirigentes educacionais fazem entre índice de repetência e evasão
com qualidade do ensino. Não há relação imediata entre um dado
e outro. Mas a panacéia de avaliar a educação brasileira a partir
de dados estatísticos permanece. Fica, então, uma leve crença
que o melhor para a educação pública é o modelo empresarial
(da Qualidade Total), que o melhor aluno é o esperto e agressivo,
que o resultado final é mais importante que o processo de aprendizagem.
O interessante é que são raras as escolas particulares que se
apoiam nessa crença.
O
ressentimento é a motivação mais perigosa. Existe um movimento
surdo que procura valorizar a escola pública de muitas décadas
atrás. Os salários de professores teriam sido melhores, os alunos
seriam mais respeitosos, o conteúdo escolar mais complexo e
amplo, os resultados mais positivos. Esta crença não tem qualquer
fundamento na história da educação brasileira. Contudo, como
é um tema dos mais polêmicos, prefiro analisar tal erro num
próximo artigo. No momento, fica o alerta para o conservadorismo
que vai atingindo a educação brasileira.