A
Era Lula
Lula acaba
de vencer as prévias internas do PT. Alguns anos atrás
a disputa entre Lula e Suplicy não seria imaginada nem
mesmo pelos mais criativos militantes petistas. Primeiro, porque
entre os dois existem poucas diferenças ideológicas
e programáticas. Segundo, porque a liderança de
Lula no PT era, até então, inquestionável.
A novidade, acredito, sinaliza uma mudança nas práticas
políticas brasileiras, em especial, aquelas vinculadas
aos movimentos sociais iniciados nos anos 70 e 80 do século
passado, das quais Lula é herdeiro direto.
Nos anos
80, na esteira do processo de redemocratização
do país, movimentos sociais pipocaram por diversas regiões.
O mais pujante de todos foi o movimento sindical, com destaque
para as greves protagonizadas pelos metalúrgicos, seguidos
por petroquímicos, bancários, professores e trabalhadores
rurais. A ditadura militar havia imposto tal limitação
à ação pública, além de um
modelo de desenvolvimento tão seletivo, que os movimentos
sociais que emergiam no cenário político eram
marcados pela desconfiança e revolta. Seus líderes,
invariavelmente, adotavam um semblante fechado, eram irônicos,
discursavam raivosamente, denunciavam os desmandos dos governos
e não aceitavam participação em nenhuma
instância de governo. Rejeitavam quase todas formas de
representação política e privilegiavam
as formas de democracia direta, como plenárias e assembléias.
Os pesquisadores sociais denominaram tal ideário de "antiinstitucionalismo".
Ocorre
que as reviravoltas por que passou o mundo na virada de século
alteraram profundamente o perfil das lideranças sociais.
No Brasil, tal mudança foi ainda mais acentuada já
que várias lideranças antiinstitucionalistas acabaram
se elegendo nos anos 80 e 90 para cargos que antes desdenhavam.
Tornaram-se vereadores, prefeitos, deputados e senadores. Obviamente
que os novos cargos redefiniram seus valores políticos.
Inicialmente, alguns novos parlamentares afirmaram que o Legislativo
era uma tribuna de denúncia. Aos poucos, contudo, muitos
deles revelaram-se especialistas no regimento interno dessas
instâncias da política brasileira. Finalmente,
criaram múltiplas alianças políticas, alargando
o espectro ideológico inicial.
A globalização
parece ter provocado mudanças mais significativas. Vou
citar duas delas, como mote para entendermos o que se passa
no interior do PT:
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o
recuo da capacidade dos governos regularem a economia globalizada
gerou um certo vazio político. É fato que
a pauta neoliberal que assolou o mundo nos anos 80 contribuiu
para uma "orfandade" política crescente.
Mas mesmo os governos que não compactuaram com a
agenda neoliberal reduziram a intervenção
estatal, ainda que não totalmente. Por este espaço
aberto esboçaram-se vários movimentos sociais
que passaram a elaborar estratégias políticas
de participação nas gestões públicas.
Os exemplos são vários. Desde transferência
de recursos públicos para ONGs implementarem ações
públicas até modelos de co-gestão em
reassentamentos rurais;
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as
mudanças súbitas e a flexibilidade constante
de produção impostas pela globalização
geraram uma nova sociedade que Anthony Giddens resumiu num
conceito: sociedade reflexiva. O que Giddens queria afirmar
é que a nova sociedade, extremamente dinâmica,
cria dilemas novos a cada dia para todos nós, o que
nos obriga a tomar decisões - a refletir - a todo
instante sobre tudo. Somos, então, mais reflexivos
que em toda história da humanidade.
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Se juntarmos
as duas novidades citadas acima, podemos entender que as lideranças
sociais deste novo século devem ser mais propositivas,
reflexivas e institucionalizantes. Necessitam, ao menos, saber
manusear informações gerenciais, elaborar projetos
e propostas, gerir projetos e fiscalizar. Obviamente que esta
mudança de perfil implica numa mudança da ação
do Estado, mais aberto à co-gestão e à
participação direta da sociedade civil.
Mas o
interesse maior recai sobre a nova exigência dos atributos
dos líderes de movimentos sociais contemporâneos.
Não basta a capacidade de mobilização e
convencimento, mas a capacidade de formular e negociar, além
da capacidade de governar.
Acredito
que este é o pano de fundo para entendermos o que ocorre
no momento com o PT e com Lula. Estamos vivenciando uma sutil
transição no comportamento político. Não
por outro motivo, na semana em que se anuncia a vitória
de Lula - defensor da aliança política com o PL
- sobre Suplicy, Tarso Genro é proclamado candidato ao
governo gaúcho pelo PT, derrotando Olívio Dutra
(outro herdeiro direto dos anos 80. Há algo de mais profundo
que mero maquiavelismo político. São sinais de
mudança de uma Era.
Enfim,
imagino que esteja chegando o momento em que lideranças
populares e de esquerda serão obrigadas a redesenhar
o Estado brasileiro. Não bastam mais as conquistas de
cunho "participacionista" inscritas na Constituição
de 88. Os tantos conselhos de gestão criados estão
em lugar incerto na tomada de decisão dos governos. A
descentralização da gestão pública
ainda é tímida e sempre é acompanhada de
movimentos contrários.
Se uma
nova Era do comportamento político de movimentos sociais
e lideranças de esquerda parece se desenhar, ainda resta
aguardar o novo desenho de suas propostas políticas.