Chega-se
numa idade na qual é impossível não se indignar
ou omitir-se. Como não reagir diante das imagens
que vemos na TV e nos jornais? Como ficar indiferente
diante de uma guerra alimentada pelo medo e
ódios recíprocos? Como ficar insensível diante
do terror, seja ele dos homens e mulheres bombas
ou do terrorismo de Estado?
Confesso
que, por um bom tempo, via tudo isso sob uma
sensação de distanciamento e como algo incompreensível.
As imagens, os fatos, as notícias não me tocavam
diretamente. Na minha desinformação, debitava
tudo ao fator religioso, aos fanatismos fundamentalistas.
Passei a ter um maior interesse pela questão
israelense-palestina a partir de Maurício Tragtenberg.Com ele passei a me dedicar às leituras sobre este povo
tão perseguido milenarmente; a me interessar
pelo sofrimento e pelas realizações judaicas;
a aprender e tentar compreender o que é ser
judeu; e, a buscar compreender o conflito no
oriente médio.
Maurício
Tragtenberg foi, nas palavras de Paulo-Edgard
Almeida Resende, professor da PUC/SP, o intelectual
sem cátedra, o judeu sem templo, o militante
sem partido.Nestes tempos sombrios, como diria Hanna Arendt, fico
refletindo qual seria a postura de Maurício
Tragtenberg diante da guerra israelense-palestina
atual. Infelizmente, não podemos contar com
sua intervenção direta, seus escritos e sua
voz. Mas, a julgar pelo que escreveu em outros
momentos igualmente difíceis, como na escalada
militar no Líbano e o massacre de Sabra e Chatila,
ele seria um crítico veemente da ocupação dos
territórios palestinos pela exército
israelita.
Tragtenberg
foi um dos signatários do Manifesto contra
a violência no Líbano, assinado por vários
intelectuais brasileiros de origem judaica.
Isto lhe valeu uma polêmica com o Embaixador
de Israel no Brasil.A despeito da crítica ao militarismo expansionista do
Estado de Israel, Maurício não renunciou à sua
condição de judeu e nem à tradição judaica.
Para ele,
ser fiel à tradição judaica é condenar mais este genocídio
praticado contra o povo palestino. É necessário
acabar de vez com o etnocentrismo que toma a
forma de judeu-centrismo, onde o massacre de
judeus brancos por brancos europeus tem um status
diferente do massacre dos armêmios pelos turcos,
dos negros africanos pelos traficantes de escravos,
dos chineses na Indonésia. Assim, Auschwitz
é elevado a potência metafísica. Sou um dos
últimos a minimizar as atrocidades cometidas
em Auschwitz, porém, as lágrimas de outros
povos não contam?
Tragtenberg
foi um judeu defensor da causa palestina. "Da
mesma maneira que defendemos o direito de Israel
subsistir como Estado, defendemos o direito
dos palestinos construírem seu Estado, terem
seu lugar ao sol", escreveu. Naquela
oportunidade, não lhe passou despercebido que
a "máquina de guerra de Sharon", apoiada
pela administração americana, então sob comando
de Ronald Reagan, poderia até atingir o objetivo
de "liquidar os palestinos como povo,
mas é certo que liquidará os israelenses como
seres humanos. Essa é a 'banalidade do mal'
em sua versão atual", afirmou. Tragtenberg
considerou "melancólico que um povo
que conheceu o genocídio, os campos de concentração,
seja utilizado como arma pela minoria governante
em Israel, que serve a interesses espúrios".
Por
outro lado, tenho certeza de que Tragtenberg
não faria coro com os que, a despeito de defenderem
os direitos palestinos, fazem campanha anti-semita
e dissimulam o objetivo de varrer o Estado de
Israel da face da terra. Tanto quanto os palestinos,
os judeus têm direito à existência com segurança,
à sua pátria.
Nestes
tempos sombrios, tempos de ódios recíprocos
que alimentam o irracionalismo, as palavras
de Tragtenberg ecoam de forma vibrante e expressam
um chamamento à razão. Ele representa a coerência
entre a postura judaica e a tradição humanista
deste povo.
Isaac
Deutscher se definiu com um judeu não-judeu,
afirmando:
Se não é a raça, que é então que faz um judeu? Religião?
Eu sou ateu. Nacionalismo judaico? Sou internacionalista.
Dessa forma, em nenhum dos dois sentidos sou
judeu. Sou judeu, entretanto, pela força da
minha incondicional solidariedade aos perseguidos
e exterminados. Sou judeu porque sinto a tragédia
judaica como a minha própria tragédia; porque
sinto o pulsar da história judaica; porque daria
tudo que pudesse para assegurar aos judeus auto-respeito
e segurança reais e não fictícios.
Não
sei se Maurício Tragtenberg concordaria com
esta definição. Mas é assim que o vejo. Suas
palavras e as imagens da guerra atual, falam
por si mesmas.
Maurício Tragtenberg (1929-1998)
foi professor na PUC/SP, FGV e UNICAMP.
Para mais informações biobibliográficas
acesse o site http://www.nobel.com.br/~cdmt
Ver o artigo, Maurício
Tragtenberg: o intelectual sem cátedra,
o judeu sem templo, o militante sem partido,
em: SILVA, Doris Accioly e e MARRACH, Sonia
Alem. (Orgs.) Maurício Tragtenberg: Uma
vida para as Ciências Humanas. São Paulo,
Editora da Unesp, 2001, pp. 135-47.
Ver o artigo publicado
na Espaço
Acadêmico, n 07: Maurício Tragtenberg.
Menachem Begin visto por Einstein, H. Arendt
e N. Goldman. Publicado originalmente
no jornal Folha de S. Paulo, em 21 de setembro
de 1982.
Ver: Maurício Tragtenberg.
Quando os “justos” têm as
mãos sujas. Também publicado
na Espaço
Acadêmico, n 07. Publicado originalmente
no jornal Folha de S. Paulo, em 02 de julho
de 1982.
DEUTSCHER,
Isaac. O judeu não-judeu e outros ensaios.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1970, p. 49.