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Palestina:
a solução final e José Saramago
James
Petras
Traduzido para Rebelión por Jorge Capelán
As
imagens da força militar de Israel foram transmitidas
ao mundo inteiro. Soldados disparando na cabeça
dos feridos. Tanques derrubando paredes de casas,
escritórios, o complexo de Arafat. Centenas de crianças
e homens, com as cabeças encapuchadas, sendo levados
à coronhadas para os campos de concentração; helicópteros
artilhados destruindo mercados; tanques destruindo
olivais, laranjais e limoais.
As
ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas
crivadas de balas, desenhos de crianças feitos em
pedaços, crucifixos transformados em cacos, paredes
pichadas pelos saqueadores do exército israelense.
Milhões de palestinos rodeados por tanques: com
a eletricidade cortada, a água, os telefones, sem
alimentos. As tropas de assalto arrombam as portas
e quebram os móveis e utensílios domésticos, o que
seja que torne possível a vida.
Por
acaso alguém pode hoje em dia dizer que não sabia
que os israelenses estavam cometendo um genocídio
contra todo um povo amontoado nos sótãos, sob as
ruínas de seus lares?
É
negada deliberadamente aos sobreviventes entre os
feridos e agonizantes a assistência médica; as decisões
sistemáticas e metódicas do Alto Comando israelense
são de
bloquear todas as ambulâncias, de prender e até
atirar contra os motoristas e pessoal de emergências
medidas. Temos o duvidoso privilégio de ver e ler
no mesmo instante como se desenvolve todo este horror
por parte dos descendentes do Holocausto, os que
com hipocrisia e rancor reivindicam o monopólio
do uso da palavra que melhor descreve o ataque contra
todo um povo, com a cumplicidade da maioria dos
israelenses – exceto umas poucas almas valentes.
O
público israelense, seus meios de comunicação e
jornalistas se escandalizaram quando o português
ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago,
confrontou-os com a verdade histórica: “O que está
acontecendo na Palestina é um crime que podemos
comparar com o que ocorreu em Auschwitz”.
O
público israelense, ao invés de refletir sobre seus
atos violentos, lançou-se contra Saramago por este
ter se atrevido a compara-los com os Nazis. Em sua
cegueira moral, Amos Oz, o escritor israelense e
por muito tempo pacifista – até que Israel entra
em guerra – acusou Saramago de ser um “anti-semita”
e de uma “incrível cegueira moral”. A profunda imoralidade
de uma guerra contra todo um povo é um crime contra
a humanidade. Não há exceções especiais. São exatamente
esses intelectuais israelenses e da diáspora que
se dizem “progressistas” que expuseram sua própria
cegueira nacional e sua covardia moral, encobrindo
suas desculpas para o terror israelense com os trapos
das vítimas do Holocausto de há 50 anos.
É
preciso apenas ler a imprensa israelense para compreender
a validade da analogia
histórica de Saramago. Dia a dia, líderes
proeminentes e respeitáveis eleitos pelo eleitorado
judeu ‘bestializam’ seus adversários palestinos,
tudo isso com o propósito de justificar melhor sua
própria violência desenfreada. Segundo o diário
israelense Ma Arriv – citado por Robert Fisk – um
oficial israelense aconselha a suas tropas estudar
as táticas adotadas pelos Nazis na segunda guerra
mundial. “Se o nosso trabalho é tomar campos de
refugiados densamente povoados em Casbh de Nablus,
um oficial deve analisar as lições das guerras passadas,
inclusive analisar como o exército alemão atuou
no gueto de Varsóvia”.
Quando
a imprensa hebréia acusou a Saramago de ser anti-semita,
estavam dispostos a estender essa calúnia aos oficiais
de seu exército e a suas tropas por utilizar as
mesmas analogias?
Será
que os oficiais israelenses também vão alegar simplesmente
que “estavam cumprindo ordens” ao destruir edifícios
com mulheres, crianças e idosos em seu interior?
Nos
fóruns mundiais – desde a União Européia até as
Nações Unidas e em todo o Terceiro Mundo
- se condena Israel por atos contra a humanidade.
Os defensores de Israel descobrirão que tachar os
críticos de “anti-semitas” já não intimida as pessoas.
A opinião pública mundial viu e leu muito. Estamos
nos dando conta de que as vítimas podem se transformar
em executores; que a ocupação militar leva à limpeza
étnica e às expulsões massivas; que os arranhões
podem se transformar em gangrena.
De
forma previsível, Washington apóia as poderosas
organizações judias e os militaristas da extrema-direita:
É somente o governo que respalda o terrorismo do
estado israelense, contra os líderes de fé cristã
e muçulmana, e contra os interesses das maiores
companhias petroleiras e de seus aliados da Arábia
Saudita e do Kuwait.
Enquanto
que pequenos grupos de dissidentes israelenses protestam
e muitos reservistas se negam a servir no exército
de ocupação, o comentário de Saramago sobre a opinião
pública israelense se aplica igualmente à maioria
da diáspora pró-israelense: “Um sentimento de impunidade
caracteriza hoje em dia o povo israelense e seu
exército. Foram transformados em rentistas do Holocausto”.
Com a prática de um estado policial qualquer, Israel
retirou todos os livros de Saramago das livrarias
e das bibliotecas. Com a mesma seriedade com que
se preparou para o genocídio, o estado israelense
proibiu a entrada de todos os jornalistas aos guetos
palestinos, a exceção daqueles que absorvem os comunicados
de imprensa do exército israelense.
Como
na Alemanha Nazista, todos os homens palestinos
entre 16 e 60 anos são capturados, muitos deles
despidos, algemados, interrogados, e muitos deles
torturados. As famílias dos combatentes da resistência
palestina são feitas reféns, sem água, alimento
ou eletricidade. Os soldados israelenses saqueiam
as casas e roubam qualquer objeto de valor, destruindo
os móveis. Como os nazistas, deixa-se morrer centenas
de palestinos feridos enquanto que as tropas israelenses
bloqueiam todas as ambulâncias. Centenas de milhares
enfrentam a desidratação e a morte por inanição,
dado que se cortou todo o fornecimento de água e
alimento. Tropas israelenses, tanques e helicópteros,
destruíram todas as cidades principais e campos
de refugiados: Tulkarm, Al Bireh, Al Jader, Beit
Jala, Oalquilya, Hebron. A descoberta de um só combatente
da resistência resulta em culpa e castigo coletivos:
pais, filhos, tios e vizinhos são arrastados pela
força e levados aos campos de concentração, campos
de futebol e parques infantis reconvertidos.
É
evidente que a indignação israelense e judia pela
equiparação feita por Saramago do terrorismo israelense
com Auschwitz colocou o dedo sobre uma ferida sensível:
o desprezo em relação a si mesmos dos executores
que se dão conta de que são discípulos de seus carrascos
e que, a todo custo, devem negar isso. Até hoje,
todas as apelações feitas pelos árabes moderados
perante Bush, para que intervenha para por fim ao
massacre perpetrado pelos israelenses foram fúteis.
Washington reiterou seu apoio a Sharon, à invasão
e à guerra contra os palestinos. Não há nenhum
poder nos EUA possa se contrapor ao dinheiro e à
influência do lobby israelense e de seus poderosos
aliados judeus. Em outros lugares, no entanto,
há esperança. A Via Campesina e os
seguidores de José Bové fizeram um apelo para por
em prática um boicote dos bens e serviços israelenses.
Israel depende fortemente de suas exportações à
União Européia. As reduções nos envios de petróleo
dos países exportadores, particularmente da Arábia
Saudita, Kuwait, Iraque e Líbia poderiam provocar
um forte aumento dos preços do petróleo e uma crise
econômica de importantes proporções nos EUA, Europa
e Japão. Isto poderia endireitar a covardia européia
e despertar a consciência do público norte-americano.
O
que está absolutamente claro é que enquanto que
Tel Aviv contar com a alavanca do lobby israelense
em Washington e com o apoio de Bus, não importa
que quantidade de resoluções das Nações Unidas,
Convenções de Genebra e apelos europeus sejam feitos,
estes serão ignorados por completo. Na mentalidade
de bunker de Sharon e de seus paranóicos seguidores
israelenses são todos anti-semitas, seguidores dos
Protocolos de Zion, que tentam desmoralizar os israelenses
para que não realizem a missão bíblica de uma Grande
Israel, um povo, uma nação, um Deus; a expulsão
de todos os palestinos de sua Terra Prometida.
A
opinião pública mundial não pode continuar passiva
e repetir a tragédia do Holocausto judeu do século
XX no século XXI. Ainda há tempo.
Mas
por quanto tempo pode resistir um povo heróico sem
água e comida?
A
oferta de Sharon a Arafat – a liberdade de partir
sem poder regressar nunca mais -, está dirigida
a todo o povo palestino.
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