Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000)

 

Maosoleando em Pequim

 

Mao Tomamos o metrô na estação em frente ao hotel, pagamos nossos três yuans cada, e fomos até a estação Qian Men, que fica diante da praça Tiannamen. Sim, esta é a mesma praça que nós vimos pela televisão em l989, quando milhares de estudantes chineses fizeram demonstrações, pediram reformas políticas, jogaram tinta no retrato de Mao colocado na entrada da Cidade Proibida, e afinal acabaram sendo massacrados pelas forças militares.  Mas no dia 26 de março de 2002, a multidão na praça não estava a fim de fazer demonstrações. Pelo menos, não demonstrações como as de 1989.

Asssim que o metrô parou na estação, havia um grupo grande de chineses que eram ligeiramente diferentes dos habitantes de Pequin—que aqui na Ásia é chamada de Beijing. Eles não só eram fisicamente diferentes—alguns de pele mais escura, com cortes diferentes de cabelo, mais baixos—mas eram também diferentes na roupa. A maioria deles vestia paletós amarrotados com calças não muito limpas, e todos tinham sapatos velhos, meio embarreados. Aí no Brasil, a gente diria que estes homens eram todos “do mato.” A China, um país de mais de um bilhão de habitantes, e mais de vinte etnias diferentes, consiste em muitos tipos humanos, muitas línguas, muitas culturas. Talvez a maioria dos chineses seja mesmo composta por gente como estes cidadãos que chegavam a Beijing, num dia qualquer de março, para prestar uma importante homenagem.

Mas antes da homenagem, eles tinham que negociar a escada rolante que nos levaria da estação suberrânea do metrô até a praça. Um deles, que parecia ter por volta de uns vinte anos, parou em frente da escada rolante, indeciso. Um que vinha atrás disse qualquer coisa, e o rapaz “montou” a escada, meio cambaleante. Com certeza esta era a primeira vez que ele via tal aparato. Na saída, ele corajosamente saltou o último degrau, e deu uma olhada pra trás, talvez ainda surpreso com a tal escada que se move sozinha. Para mim, criada no Brasil num tempo em que escadas rolantes ainda não existiam, a atitude deste jovem me trouxe lembranças de mim mesma, quando o edifício Três Marias foi construído em Maringá e eu “andei de elevador” pela primeira vez. O mundo tem tantos caipiras! Basta a gente olhar pra encontrá-los, e basta a gente não esquecer as raízes pra sentir afinidade como aquela que eu senti por uma pessoa cujo nome não sei, e que provavelmente nunca mais vou ver. Pra facilitar, resolvi chamá-lo de Choo Ye Feng, porque este nome soa bem chinês.

A praça Tiannamen não é o retângulo vazio que parecia ser quando vimos aquelas imagens dramáticas de 1989. Agora o retângulo é ladeada por avenidas movimentadas, e, nas calçadas laterais, muitas lojas vendem roupas, eletro domésticos e câmeras. Próximo à entrada da Cidade Proibida, estão dois prédios quadradões, um dos quais abriga o Museu da História do Povo Chinês. Dentro da estrutura da praça há um portão antigo, de três andares, que parece um forte, remanescente de outras eras, e muito consertado cada vez que foi derrubado, queimado ou destruído. Hoje este edifício parece ter apenas funções decorativas, porque na placa colocada diante dele só constavam explicações de teor histórico, e não do uso atual. No centro da praça está o mausoléu de Mao Tse Tung. Era para este mausoléu que a multidão se dirigia.

Entramos na fila, como todo mundo. Linhas amarelas no chão demarcavam onde devíamos andar. Guardas uniformizados, carregando megafones, davam instruções em chinês Mandarin. Nossos amigos da estação do metrô entraram na fila também, e seguiram as ordens cuidadosamente enquanto caminhávamos ao lado da cerca que separa o mausoléu do resto da praça. Quando estávamos quase chegando ao portão de entrada, um guarda separou a fila, e abriu caminho para um carro passar e entrar. Impossível não refletir que mesmo aqui os figurões andam em carro de vidro fumê, e entram mais rápido, sem precisar fila. Agora um auto falante dava instruções em Mandarin, Cantonês, e Inglês, e afinal pudemos compreender que não era permitido nem falar alto, nem rir, e nem cuspir no mausoléu. Considerando-se que os dois esportes nacionais dos chineses parecem ser escarrar e cuspir (o som característico se ouve em qualquer lugar na China, inclusive dentro de restaurantes), achei que aquelas instruções vinham bem a calhar.

A fila ainda teria que andar mais uns 200 metros, fazendo um retângulo diante da entrada, quando os vendedores de flores apareceram. Eles iam a um quiosque no centro da praça, e traziam as flores aos que compravam. Choo Ye Feng tirou a carteira do bolso e consultou o conteúdo. Coçou a cabeça, acho que decidindo se podia comprar as flores ou não. Ele saiu rapidamente da fila, caminhou até o quiosque, e voltou com um buquê de flores azuis. Agora, ele não andava de cabeça baixa. Acho que o gesto da compra das flores o encheu de algum tipo de orgulho—eu posso comprar flores para Mao!—e ele começou a caminhar de peito estufado, cabeça erguida. Impossível a gente não se emocionar.

Afinal, subimos a escadaria e chegamos à entrada, onde outra voz nos disse para retirarmos nossos chapéus e fazer silêncio. A fila foi repartida em duas correntes, uma indo pra direita, outra pra esquerda. Uma estátua branca de Mao diante de uma tapeçaria gigantesca é a primeira coisa que se vê. A expressão da estátua é de serenidade. Mao está sentado, perna esquerda cruzada sobre a direita, mão direita sobre o joelho, olhando para o infinito. Atrás da estátua, a tapeçaria mostra uma imagem genérica da China, com suas montanhas e seus vales. A estátua de Mao está colocada de tal maneira que ele está mais elevado que a montanha mais alta.  A metáfora é clara, intencional.

Diante da estátua há dois móveis que parecem camas com rodas. É sobre este móvel que os que trazem flores vão colocá-las. Choo Ye Feng deu uma olhada à sua volta, talvez pra se certificar que todos estavam olhando, sorriu, e foi colocar seu ramalhete de flores diante de Mao. Mas Choo Ye Feng retornou à fila outra vez cabisbaixo. Será que uma das atendentes que recolocava as flores nos móveis tinha dito alguma coisa ofensiva a ele? Será que ele viu que suas flores eram das mais pobres do monte?  Ou será que ele desconfiou que aquelas flores seriam retiradas daquele móvel durante o intervalo das 11 às 13 horas e re-vendidas no período da tarde? Ou talvez, o que seja mais provável, Choo Ye Feng se lembrou que seu gesto lhe havia custado o almoço daquele dia.

Mas a fila seguia, organizada pelos tais guardas uniformizados, que não pareciam nada amigáveis. Fomos dirigidos a um outro salão, caminhando rapidamente. Ninguém tinha câmeras, porque tais coisas—assim como qualquer sacola ou bolsa—são proibidas no mausoléu. Então todos temos que guardar na memória somente a figura de Mao dentro de um sarcófago de vidro transparente. O rosto parece alaranjado, como se estivesse iluminado por dentro. Diz-se que, quando Mao morreu e o partido ordenou ao seu médico que fizesse a conservação do corpo para ele poder ser mostrado ao público, o médico decidiu fazer também uma réplica de cera, caso o corpo embalsamado deteriorasse. Não sei se os chineses comentam este tipo de coisa, mas entre a comunidade estrangeira na China, sempre se diz que o que vemos é a réplica. Pelo menos para mim, naqueles 10 segundos que me foram permitidos olhar a figura de Mao, acho que o que vi tinha sido feito não de cera, mas de plástico mesmo.

Afinal saímos do mausoléu, mas não antes de passarmos pelos vendedores de curiosidades e lembranças relacionadas a Mao. Estavam à disposição dos consumidores relógios, despertadores, canetas, prendedores de gravata, e outras quinquilharias com a foto de Mao. Os preços variavam de 3 a 300 yuans. Acabei comprando por 3 yuans um ‘santinho” com a foto de Mao de um lado, e um texto indecifrável do outro. Choo Ye Feng, por estas alturas, já havia descido os degraus e se havia voltado, mãos nos bolsos, para olhar a multidão que saía do mausoléu.

Por que pessoas como este chinês do campo (80% dos chineses ainda vivem no campo) vêm a Beijing para prestar esta homenagem quase religiosa a Mao? Logicamente, embora a sociedade chinesa tenha seus preceitos morais baseados em uma mistura de budismo e confucionismo, e o respeito aos antepassados é parte integrante da cultura, Mao representa uma das imagens fundacionais do país em que eles vivem hoje. Mao, ou “Mao,” foi quem fez com que os palácios e templos, antes reservados para a aristocracia mais alta, agora estejam abertos ao público. No dia em que estive no “Templo do Céu,” onde antigamente os imperadores faziam cerimônias para pedir bom tempo para as colheitas, naquele dia de março uns três mil idosos tomavam conta do parque, cantando, dançando, fazendo “tai chi,” fazendo crochê, jogando “mah jong,” ou simplesmente batendo papo. Tais cenas seriam inconcebíveis antes da revolução que Mao encabeçou.

Mas nem tudo são rosas, claro. A Beijing de hoje, agora que o país parece estar caminhando—ou voando—em direção a uma sociedade de mercado, aos poucos começa a ter centenas de mendigos de todas as idades, e camelôs de todo tipo agressivamente tentando vender coisas nas ruas. O aumento do número de desempregados também preocupa. No dia 20 de março, in Liaoyang, uma cidade no nordeste industrial da China,  de 5.000 a 10.000 trabalhadores fizeram demonstrações em frente à prefeitura da cidade, exigindo o pagamento de salários atrasados, protestando contra a prisão de um de seus líderes, e exigindo a renúncia dos chefes da legislatura local.  Agora que a China entrou oficialmente na World Trade Organization, as companhias terão que despedir milhares de empregados, para poderem tornar-se mais eficientes e poderem competir com frrmas estrangeiras.  Este é um momento de transição, e as dores são, talvez, inevitáveis. Agora as demonstrações não são chefiadas pelos estudantes idealistas de 1989, lutando em nome de coisas abstratas; os cabeças agora são trabalhadores que exigem pagamento justo, e melhores condições de trabalho. A tendência é estas demonstrações aumentarem. Como o governo chinês vai reagir, ainda não se sabe.

Talvez a romaria ao mausoléu de Mao –“Maosoléu”—continue por ainda bastante tempo, atraindo os Choo Ye Fengs que vêm piamente depositar suas modestas flores aos pés da estátua. Ou talvez, se os ventos políticos mudarem, assim como aconteceu com Stalin em 1961 em Moscou, o corpo embalsamado (ou a réplica de cera) seja removido e enterrado, e o nome de Mao amaldiçoado, ou esquecido. Na China, um país de longuíssima história, que já viu tantas guerras, invasões, revoluções e contra-revoluções, tudo é possível. É até possível que Mao seja um dia chamado de Mao Aparecido. Ou coisa assim.

 

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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