Violência
e Perplexidade
Na tradição
freudiana, a agressividade é uma expressão sadia
e natural do ser humano. Agressividade significa "movimento
para a frente" (do latim ad + gradior), uma ação
humana, não necessariamente destrutiva. A violência,
pelo contrário, seria uma patologia, o pólo destrutivo
da agressividade humana.
O que surpreende
nos últimos dias é a confirmação
que o século XXI marca a cristalização
de hábitos violentos em nossa sociedade. Se não
bastassem as inúmeras guerras entre palestinos e judeus;
entre facções muçulmanas e países
ocidentais; entre hindus e muçulmanos da Caxemira e as
tensões sociais cada vez mais freqüentes em todo
o mundo (como os conflitos globalizados entre facções
do Fórum Social Mundial e Fórum de Davos ou as
crises cíclicas de países em crise econômica-financeira
como é o caso da Argentina), somos atingidos por situações
de extrema brutalidade sem motivos significativos. Refiro-me
aos assassinatos e ameaças de homicídio que atingiram
prefeitos de esquerda e promotores públicos ou roubos
suspeitos envolvendo a sede da CUT Nacional, além da
escalada de sequestros. Não há quem, de bom senso,
consiga entender com clareza a motivação desses
atos deploráveis. No caso dos prefeitos, são os
gestores mais técnicos e próximos de um receituário
tipicamente social-democrata que são atacados. Acreditar
que são seitas ultra-esquerdistas que estariam arquitetando
tais ações é puro devaneio, já que
o resultado prático seria pífio. No caso do promotor
mineiro recém assassinado, trata-se de um ato de violência
dos mais irracionais que presenciamos nos últimos anos.
Quem poderia imaginar que um proprietário de uma rede
de postos de gasolina poderia ter o arrojo de pilotar uma moto,
carregando um policial para cometer um covarde assassinato à
luz do dia, em frente um tribunal de justiça?
Ingressamos
numa era de violência ou banalização da
violência. Não por outro motivo, o sociólogo
francês, Alain Touraine publicou recentemente um livro
cujo título é "Poderemos Viver Juntos?".
Acredito,
por tudo que estamos vivenciando recentemente, que é
hora da sociedade brasileira envolver-se abertamente com o tema
da segurança pública. Alguns temas parecem essenciais
na pauta de discussão. Vou citar três deles.
1. O primeiro
refere-se à estrutura policial. Manteremos a atual
estrutura pluralista (com várias polícias que
se chocam cotidianamente) ou adotaremos um modelo "monista",
centralizado? O sistema centralizado é utilizado no
Japão, em Israel, na Hungria, Dinamarca, Irlanda, Grécia,
Suécia e Noruega, entre outros. São territórios
diminutos. A França acredita que tal modelo é
propício à corrupção. França,
Itália, Canadá e EUA adotam um modelo pluralista.
A Bélgica chega ao extremo de institucionalizar mais
de 2 mil corpos policiais municipais distintos, uma polícia
judiciária e a Gendarmaria belga.
2. Quais
mecanismos de controle social criaremos para evitarmos os
crescentes casos de corrupção policial? A descentralização
do sistema policial e proximidade com a população
não vem gerando bons frutos no mundo. Por outro lado,
o centralismo italiano e grego não garantiram sua probidade.
Para evitar a politização da polícia,
o Japão adotou um sistema centralizado que é
administrado por um colegiado independente dos governos. As
possibilidades, mais uma vez, são múltiplas.
3. Quais
políticas de prevenção adotaremos para
os próximos anos? O modelo internacional mais citado
é o Koban japonês, onde cada policial acompanha
150 lares. A PM mineira está adotando o modelo inglês
de polícia comunitária (Community Policing)
onde são criados fóruns periódicos entre
habitantes e policiais.
A pauta
de discussões emergenciais é extensa. Mas é
necessário que seja publicizada urgentemente. Tomei consciência
dessa urgência quando, no dia 06 de janeiro, o professor
uspiano José de Souza Martins enviou para vários
conhecidos uma mensagem em que fazia uma comparação
entre os festejos do Dia de Reis e os festejos de Natal. Aquele
era justamente o Dia de Reis e o pesquisador social de renome
internacional lembrava que a festa popular, vinda dos países
hibéricos para o Brasil era marcada pela distribuição
de bolos e doces feitos em cada residência para ofertar
aos vizinhos, tal como os Reis Magos teriam feito um dia. O
contraponto, dizia, eram as festas de Natal, marcadas por um
exagero de compras e distribuição desnecessária
de presentes manufaturados. Dizia que a festa popular era mais
sincera que a festa de Natal, porque ofertava aquilo que tinha
sido feito com as próprias mãos. Percebi o que
o professor José de Souza Martins queria dizer. Ele pressentia
uma mudança de comportamento no novo século: mais
individualista, mais instrumental, mais racional. Um passo para
a transformação da agressividade em violência.