Ecos
do Fórum Social Mundial
Como
no ano passado, também em 2002 reuniram-se
em Porte Alegre dezenas de milhares de pessoas,
entre delegados (16.000) e ouvintes (35.000)
de 131 países, para participarem de quarenta
conferências sobre questões estratégicas
objetivando propostas e alternativas elaboradas
por inúmeros movimentos e organizações da
sociedade civil; de mais de 100 seminários
visando a elaboração e o aprofundamento
de temáticas específicas e aproximadamente
700 oficinas que proporcionaram oportunidades
de troca de experiências, articulação e
planejamento de programas e projetos cooperativos,
em redes nacionais e internacionais.
O número
elevado de participantes não impediu que
as reuniões se realizassem conforme a agenda
programada, com enorme interesse e seriedade,
refletindo um clima de otimismo e confiança
na capacidade coletiva de encontrar respostas
aos desafios que enfrentam os países e toda
a humanidade no contexto histórico atual.
Paralelamente
ao Fórum, reuniram-se em Porto Alegre mais
de mil autoridades locais, entre elas duzentos
prefeitos de todo o mundo, assinalando o
compromisso do poder local com políticas
de inclusão social.
Outro aspecto
significativo da reunião de Porto Alegre
foi a presença de mais de quinze mil jovens
que vieram para organizar sua própria agenda
de debates sobre como mudar suas sociedades.
Meio ambiente, violência, educação, cultura,
direitos humanos e outros temas constaram
da pauta dos trabalhos durante os quais
procurou-se superar as fórmulas prontas
e desgastadas, para criar algo novo a partir
da experiência política concreta de uma
juventude politicamente mais consciente
e preparada.
Um quadro
bem diferente foi apresentado no Fórum Econômico
Mundial, realizado na mesma semana, desta
vez em Nova York. Os mais de 3000 delegados,
representando o mundo das finanças e dos
grandes negócios, assessorados pela fina
flor da academia e da tecnocracia governamental,
reuniram-se atrás de portas fechadas ao
público, no luxuoso Waldorf-Astoria, sob
a proteção de um enorme aparato policial
que, como de costume, se excedeu nas medidas
de segurança e de repressão a manifestantes
contrários.
Fato curioso,
em ambas as reuniões havia praticamente
um consenso sobre a necessidade de enfrentar-se
o problema da pobreza. As diferenças manifestaram-se
em torno dos meios para faze-lo. Significativo,
contudo, para o estado de ânimo do Fórum
Econômico Mundial foi a conclusão de que
...“a persistente disparidade de renda entre
ricos e pobres, entre e dentre os países,
é inaceitável em termos
humanos e morais”...
Mas, o
Fórum Econômico Mundial persiste na tese
de irreversibilidade da globalização e aponta
supostos efeitos benéficos ignorando completamente
a natureza e a dinâmica do processo, totalmente
opostas às demandas pela humanização do
sistema que deve evoluir em direção ao que
Amartya Sen chama “desenvolvimento com liberdade”,
muito além do mero crescimento econômico.
Não duvidamos
do aumento da capacidade produtiva e do
volume do comércio internacional em conseqüência
da redução das barreiras alfandegárias.
A pergunta crucial, contudo, é se este contribui
para a melhora da qualidade de vida, a confiança
das pessoas no futuro e a ampliação do raio
das opções para os indivíduos realizarem
seu potencial criativo e seu projeto de
vida.
Não pregamos
contra a integração e a aproximação dos
povos, mas elas devem processar-se democraticamente,
de modo gradual e seletivo.
A distinção
entre a globalização e a universalização
não é apenas conceitual. A investida da
primeira contra barreiras ao livre comércio
é brutal, sob o comando das corporações
transnacionais. A universalização, impulsionada
pelas ONGs, os movimentos sociais, alguns
sindicatos e partidos promove uma integração
dos povos, de suas economias e culturas,
de forma lenta, gradual e seletiva. Os agentes
da globalização, em sua busca de maximização
de retorno sobre os investimentos, pressionam
por escalas de produção e o nivelamento
dos padrões de consumo, enquanto os atores
da universalização defendem o pluralismo
e a diversidade de estilos de vida. A globalização
adota padrões de organização, tanto no setor
privado, quanto no público, rígidos, de
centralização autoritária, em oposição aos
princípios de democracia participativa,
de transparência e de responsabilidade cidadã
da universalização. Na primeira, os seres
humanos estão sendo alienados e transformados
em meros objetos de decisões tomadas segundo
a racionalidade funcional de “meio-fim”,
enquanto na segunda, cada um(a) se torna
sujeito ativo e autônomo do processo, orientado
por valores substantivos ancorados na Carta
dos Direitos Humanos.
Em suma,
a globalização configura um processo de
integração “por cima”, na contramão da História,
enquanto a universalização “de baixo para
cima”, acena com um futuro mais digno, justo
e seguro para a humanidade.
Os agentes
da globalização são dominados pelo frio
cálculo econômico, insensíveis aos efeitos
desastrosos no tecido social. A universalização
enfatiza os aspectos éticos do comportamento
individual e coletivo e não gera desempregados,
desabrigados, famintos, doentes, enfim,
excluídos.
Assim,
o Fórum Social Mundial reafirma o internacionalismo,
a aspiração por “um mundo só”, mas que será
um mundo justo, fundado na cooperação, na
democracia plena, no pluralismo cultural
e nos Direitos Humanos.
A cobrança
de propostas concretas e viáveis do Fórum
Social Mundial para os problemas que afligem
a humanidade no contexto histórico atual
seria justificável à luz da esterilidade
das reuniões do Fórum Econômico Mundial,
ao longo dos últimos trinta e dois anos?
O Fórum
Social Mundial não se resume apenas em protestos
contra as instituições multilaterais, como
o FMI, o BIRD, a OMC e o G-7, e suas reuniões
realizadas ao longo dos últimos anos, desde
Seattle, Washington D.C., Londres, Praga
a Gênova.
Basta consultar
a enorme pauta da programação da reunião
de Porto Alegre para perceber a seriedade
de propósitos e a riqueza de debates envolvendo
temas como relações de poder, Estado e sociedade
civil, ética e alternativas de desenvolvimento,
comércio, patentes, transgênicos e agricultura
familiar, entre muitos outros.
Apesar
da incredulidade de uns e o espanto de outros,
o Fórum Social Mundial mobilizou dezenas
de milhares de participantes do mundo todo
que se reuniram para debater idéias e propostas
conduzindo a ações políticas a partir da
identificação das raízes dos problemas.
Seria ingenuidade
ou má fé exigir do Fórum Social Mundial
um programa de ação imediata próprio a um
partido político. A imensa diversidade dos
movimentos, organizações, correntes e tendências
de pensamento presentes em Porto Alegre
expressa, num primeiro momento, a ampla
mobilização com aspirações à democracia
participativa, à justiça social e à construção
de uma sociedade sustentável, diferente
da atual em que as leis do mercado substituem
as Escrituras Sagradas e o próprio mercado
passou a ocupar o lugar da providência divina.
Por isso, continua a ressoar forte, mesmo
após o encerramento do Fórum, o clamor...”um
outro mundo é possível”!
Por outro
lado, reunindo-se pela trigésima segunda
vez e apesar de contar com a assessoria
da fina flor da academia e da tecnocracia
governamental, o Fórum Econômico Mundial
de Nova York não produziu nenhum documento
sério, seja de diagnóstico, análise ou de
prospectiva sobre a conjuntura atual.
Contudo,
a pergunta crucial...”o que fazer” (vide
V. I. Lênin, 1901) deve ser colocado aos
responsáveis pelos dois eventos, o da “direita”
que preconiza a manutenção do status
quo e o da “esquerda” que pretende transformar
a situação atual.
É verdade,
não existe uma resposta única aos dilemas
e desafios que afligem a humanidade mas,
depois de décadas de experiências e fracassos
do receituário do FMI, ficou patente que
o almejado e prometido crescimento econômico
via estabilidade fiscal e cambial outras
medidas preconizadas pelas políticas de
ajuste estrutural econômico representam
um legado pesado que tem contribuído para
o empobrecimento e a expansão da miséria
no mundo.
Quais
seriam, então, as propostas alternativas?
Em
busca de alternativas
Economistas
e cientistas sociais no mundo todo têm se
esmerado em análises e propostas de como
superar o impasse atual, com sua dinâmica
perversa de reprodução polarizada de riqueza
e miséria.
O crescimento
econômico cíclico e irregular não proporcionou
alívio aos milhões de marginalizados pela
concentração de riquezas em poucas mãos.
Os tão
aclamados aumentos de produtividade não
foram suficientes para assegurar a distribuição
e expansão da riqueza social. Em vez dos
ganhos em eficiência serem canalisados para
a retroalimentação do sistema econômico,
via aumento de salários, redução de preços
ou elevação da taxa de investimentos, a
maior parte do excedente gerado foi gasto
em consumo de desperdício das elites dominantes,
quando não fora ex-patriada para paraísos
fiscais no exterior.
Frustrando
o sonho das massas que aspiram à educação
como via de mobilidade social ascendente,
a recessão econômica e a redução de verbas
da rede escolar pública têm desfeito mais
um mito tão comum nos países da América
Latina. Basta observar o que acontece na
vizinha Argentina, o país que ostenta os
mais altos índices de escolarização e de
graduados do ensino superior – vergonhosamente
desempregados e ociosos – para invalidar
a receita tão cara aos conservadores...”primeiro,
precisa educar o povo”!
Outra proposta
muito defendida tanto pela oposição quanto
pelos governistas, refere-se a reforma tributária
como alavanca para o desenvolvimento. Em
que pesam as incrivelmente baixas alíquotas
de imposto de renda cobrado de pessoas físicas
(27,5% o teto no Brasil, contra 45% - 55%
nos países europeus), análises dos debates
travados no Congresso a respeito da reforma
tributária revelam a resistência das elites
e oligarquias dominantes a qualquer mudança
dos padrões vigentes. Da mesma forma, a
propalada Taxa Tobin a ser cobrada sobre
transações financeiras internacionais, apesar
do apoio retórico dos governantes, nunca
saiu do patamar de discursos demagógicos
e irrelevantes.
Volta-se,
portanto, à pergunta “o que fazer”?
Todas as
medidas e propostas referidas acima não
vingam quando tomadas isoladamente e sem
o apoio decidido do poder público. Enquanto
o poder político estiver concentrado nas
mãos das oligarquias e elites conservadoras,
os obstáculos para levar a população a optar
por políticas alternativas parecem insuperáveis.
Por mais que as teses e propostas da oposição
fossem historicamente corretas, elas esbarram
na cortina de resistência, constantemente
reforçada por um nepotismo descarado que
assegure a continuidade da estrutura de
poder. O segundo fator adverso é representado
pela mídia organizada sob forma de oligopólios
nacionais e regionais e que controla todos
os meios de comunicação, verbal (rádio),
escrita (imprensa) e televisivo.
Concedidas
como concessões do poder executivo em barganhas
clientelistas desavergonhadas, os meios
de comunicação impactam pesadamente nas
mentes da população e influenciam o comportamento
consumista e eleitoral. Basta observar,
a este respeito, o tratamento parcial precário
e até cínico proporcionado pela mídia ao
Fórum Social Mundial, enquanto se derramava
em elogios descabidos e relatos repetitivos
sobre o Fórum Econômico Mundial.
O terceiro
fator de peso na equação do poder é representado
pelo grande capital, industrial e financeiro,
que ao longo das últimas décadas têm jogado
pesadamente no apoio aos candidatos da situação,
nas eleições.
Finalmente,
a mobilização do próprio aparelho estatal,
em todos seus níveis, concorre para impedir
eleições verdadeiramente livres e democráticas.
À cobrança
da direita de um projeto alternativo da
esquerda, devemos responder, sem medo de
sermos taxados de reducionistas e simplistas,
que o objetivo primordial é a tomada do
poder ou, a conquista da sociedade civil!
Correndo
o perigo de épater les bourgeois
(assustar os burgueses) acrescentaremos
que essa tomada de poder será democrática,
pelo voto, à condição que as regras de jogo
sejam efetivamente obedecidas e a influência
da mídia e do dinheiro devidamente controlada
pelo poder judiciário. A conquista do poder,
dentro do sistema, é um processo em construção,
hoje representado por dezenas de municípios
abrigando milhões de cidadãos que optaram
livremente por um sistema administrativo–político
baseado nos princípios da democracia participativa.
Não nos iludamos. Será uma longa caminhada.
A nossa estrutura social e política está
viciada por padrões de organização e relacionamento
rígidos, centralizados e autoritários.
É fundamental
transformar a crescente insatisfação e pressão
popular por políticas alternativas em mudanças
estruturais, a partir de novas posições
de poder. Os movimentos sociais têm logrado
mobilizar milhões de pessoas, conquistando
mudanças significativas em âmbito local,
enquanto contribuíram para uma elevação
do nível de consciência social manifesta
nas reivindicações crescentes por reformas
políticas, com repercussões em nível local
e nacional.
Imprimir
características e formas de ação inovadoras
aos movimentos sociais constitui um desafio
histórico para suas lideranças. Configura-se
assim um processo de educação política que
permita a convergência das diferentes idéias
e aspirações, em direção a uma linha de
propostas programáticas, base das campanhas
de mobilização e motivação da população.
O desafio será conciliar interesses e motivações
setoriais e regionais, sem reprimir os anseios
legítimos por um amplo grau de autonomia
cultural e administrativa e, ao mesmo tempo,
imprimir aos movimentos sociais conteúdo
e rumos que os capacitem para enfrentar
as pressões avassaladoras do Estado e de
seus aliados – as corporações transnacionais,
as instituições financeiras, a mídia e a
própria tecnocracia.
A maioria
dos movimentos sociais e das ONGs tem desenvolvido
práticas de negociação e de busca de apoio,
tanto de entidades da administração pública
quanto de fundações de direito privado,
nacionais e estrangeiros, do chamado Terceiro
Setor. Neste sentido, correm o perigo de
serem cooptados pelo sistema e reduzidos
a uma situação de dependência e subordinação,
em detrimento do objetivo último que é a
transformação dos movimentos em fonte de
poder alternativo.
Politicamente,
isto requer a construção de um programa
de transição adequado às necessidades e
aspirações imediatas da população – emprego,
moradia, educação, saúde, segurança – que
concorra também ao fortalecimento da luta
pela mudança do sistema político em uma
alternativa socialmente mais justa e eticamente
mais condizente com um novo paradigma civilizatório.
Na prática
política, isto significa reivindicar para
que as decisões relevantes ao bem estar
coletivo sejam submetidas à consulta ou
referendo popular. (Os países europeus têm
uma longa e rica experiência nesta área).
Mas, a
tarefa central é conquistar posições de
poder no xadrez político – vereadores, prefeitos,
deputados estaduais e federais, senadores
e governadores - apostando numa mudança
de comportamento eleitoral da classe média.
A pressão
popular pela efetivação de políticas públicas
será acompanhada por um amplo e permanente
processo de educação política visando o
amadurecimento da consciência para opor-se
ao Estado quando este agir em detrimento
dos interesses da população, com atitudes
bastante diferentes do comportamento do
Terceiro Setor, facilmente cooptado.
O objetivo
ou a alternativa aos desmandos atuais é
assegurar a ascensão da sociedade civil
à gestão da causa pública, mediante a democracia
participativa: o orçamento participativo,
praticado atualmente em dezenas de municípios,
é também um instrumento de educação popular
que deve ser completado por conselhos comunitários
e consultas permanentes nas áreas de saúde,
educação, meio ambiente, segurança, transporte
e atividades de lazer e culturais.
A plataforma
de reivindicações deve ser ampla e aberta
à participação de outros movimentos sociais,
ONGs, sindicatos e partidos, à condição
que subscrevam o programa básico de políticas
alternativas.
Pode-se
então prever um longo período de transição,
com um poder dual, dividido entre o Estado
e a sociedade civil, enquanto esta adquira
o grau de consciência e se organize para
substituir o Estado, constituindo-se em
poder único.
Para não
resvalar outra vez no erro da concentração
do poder nas mãos de poucos, será necessário
tecer redes de alianças e parcerias a fim
de assegurar a mais ampla participação democrática.
Aos
céticos e opositores que tentem minimizar
ou desprezar os esforços em busca de alternativas,
respondemos que sim, a utopia será o resultado
final do processo. O que importa é manter
a coerência entre os meios e os fins, ou
seja, a construção de uma sociedade sustentável
democrática, com a mais ampla autonomia
e direito à auto-gestão das unidades constituintes,
ligadas por laços de interdependência, cooperação
e solidariedade.
Com
essas e outras idéias propositivas, o Fórum
Social Mundial resgata o legado histórico
dos movimentos socialistas e democráticos
e estabeleceu-se como o espaço inquestionável
de debate dos problemas sobre o futuro da
sociedade planetária.
Quem
disse que a esquerda não têm alternativas?