Após
5 meses de greve nas universidade estaduais (UEM, UEL e
UNIOESTE), o Executivo do Estado do Paraná encaminhou no
dia 18.02.2001 a mensagem 004/02, contendo um anteprojeto
de lei que trata sobre a "autonomia" das universidades públicas
paranaenses. Pergunta-se: Quais os objetivos dessa "lei"?
Seria o retorno da "história do bode" ou estaríamos diante
de um novo modelo de universidade proposto pelo governo
Lerner?
Todos
conhecem o caso do sujeito que foi pedir conselhos para
o padre de sua paróquia. Relatando os problemas em sua casa,
disse que morava em uma pequena construção, reclamou que
os membros da família falavam demais, que os vizinhos faziam
muito barulho, que os filhos não o obedeciam prontamente,
sempre era necessário convencê-los de que a sua opinião
era a correta ... Assim foi ele desfiando um rosário de
lamentações. O padre, ardilosamente, sugeriu que o bom homem
introduzisse um bode em seu lar. Uma semana depois, o padre
encontrou o sujeito na rua e perguntou: "Como vai a vida?".
O filho de Deus respondeu: "Está horrível! Aquele bode está
fazendo sujeira em todo lugar, come tudo o que estiver a
sua frente e berra a todo momento, ...". O padre intervem:
"Bem! Então retire o bode". Pasmo com a resposta, o chefe
de família voltou a sua casa e retirou do seu interior o
"malin" caprino. O resultado final é conhecido por
todos. Um dia o padre se encontra com o antigo reclamante
e pergunta sobre as novidades e a resposta é imediata: "Agora
está tudo bem, tudo voltou ao normal".
O
anteprojeto de "autonomia" do governo Jaime Lerner pode
ser portador dessa bizarra lógica. Isto é, pode tratar-se
de uma chicana com o objetivo de pôr fim à greve e fazer
calar as demandas trabalhistas. Porém, nestes tempos de
extrema intolerância, pode ser que o bode de Curitiba tenha
vindo para ficar de vez nas terras vermelhas do Paraná.
Neste caso, se o anteprojeto de "autonomia" for aprovado
pelo egrégio colegiado de deputados, a mesma Casa legislativa
que autorizou o governador Lerner a negociar a COPEL, aparece
a questão: quais seriam as características do modelo lernista
de universidade?
De
pronto, deve-se perceber que na universidade de Lerner a
gratuidade deixa de ser garantida. O art. 5° do referido
anteprojeto permite que as universidades paranaenses passem
a cobrar pelo ensino (II. Busca de fontes alternativas
de financiamento; V. oferta e cobrança por serviços
prestados). Os cidadãos do interior paranaense devem
se preparar para mais esta "modernidade lernista". Pode
ser mais um exemplo do que foi a majoração das tarifas de
telefone, do IPVA, de água e de esgoto e da introdução do
pedágio nas estradas públicas (quantas são as barreiras
para se chegar à capital? Quanto o pedágio encarece o preço
da soja no trajeto até o Porto de Paranaguá? Como será possível
promover o turismo no interior do Estado com tantas tarifas
para o trânsito?)*1.
O
modelo lernista de universidade tem outra curiosa característica,
como na Reforma Gentile (Ministro da Educação na Itália
fascista de Mussolini), "o Reitor até então 'eleito por
seus colegas' é 'doravante nomeado pelo Ministro'" (TRINDADE,
1999, p. 175)*2. No Paraná, igualmente, os reitores
e vice-reitores deixam de ser eleitos em um pleito decidido
pela comunidade acadêmica e, conforme o art. 14 do anteprojeto
do Executivo, "serão previamente escolhidos dentre pessoas
com experiência administrativa em gestão universitária pelo
Conselho Universitário, para compor lista tríplice a ser
encaminhada ao Governador do Estado, para escolha e nomeação".
Mais
uma estranha mostra de intervencionismo na universidade
é a discriminação dos não-paranaenses no acesso à educação
superior. Com a justificativa de que a universidade pública
é financiada pelo contribuinte paranaense, o modelo universitário
lernista, de acordo com o que prevê o art. 25, exige que
"as universidades públicas deverão reservar 80% (oitenta
por cento) das vagas dos cursos e turnos (...) para estudantes
que tenham cursado as duas últimas séries do ensino médio,
em instituições públicas ou privadas do Sistema de Ensino
do Estado do Paraná". Esse tipo de segregacionismo é uma
afronta à história da população do interior paranaense,
em sua maioria, descendentes de migrantes paulistas, mineiros,
catarinenses, nordestinos, gaúchos e estrangeiros. Essa
discriminação não existe em lugar algum do Mundo. Ao contrário,
as melhores universidades no Brasil e no exterior procuram
promover suas imagens fora de suas sedes para atrair os
estudantes mais talentosos e brilhantes.
Será
que esse apartheid é para encobrir a falta de políticas
públicas inclusivas e o baixo nível de qualidade do ensino
paranaense, reformado com financiamento do Banco Mundial
pelo Governo Jaime Lerner? Dados do IBGE fornecem uma pista:
"De acordo com a pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o assunto, de 1999,
apenas 7,6% dos jovens em idade para começar um curso de
graduação estão na universidade. As taxas de escolarização
de todas as faixas etárias no Paraná estão abaixo da média
nacional demonstrada pela pesquisa" (Gazeta do Povo, de
24.02.2002).
Além
disso, essa apartação bairrista torna-se muito mais indecorosa
quando se sabe que grande parte (talvez mais de 80%) dos
doutores e mestres das universidades públicas paranaenses
é formada por universidades públicas federais e de outros
Estados da Nação (USP, Unicamp, Unesp, UFSCar, UFSC, UFRGS,
UFRJ, UFMG, etc). No mínimo, essa iniciativa do Executivo
quebra o pacto federativo e, em nível interno, só vem a
estimular um pernicioso e ultrapassado sentimento separatista.
Como a população dos outros Estados receberá este golpe?
Como reagirá a comunidade acadêmica nacional? Que ingratidão!
Que vergonha!
A
heteronomia, que significa exatamente o contrário de autonomia,
do governo Lerner vai além, porém, pela necessidade de concisão
em artigos de jornais, fica para uma outra oportunidade
a discussão sobre outros aspectos do modelo lernista como
o Contrato de Gestão, os recursos provenientes do ICMS para
o financiamento universitário, o fim do Plano de Cargos
e Salários, a criação do Conselho de Responsabilidade Social,
a nova composição do Conselho Universitário e a influência
do HEFCE (Higher Education Funding Council for England).