Por LIZIA HELENA NAGEL
Professora Titular da UEM. Doutorado em Filosofia da Educação. (PUC/SP) Mestrado em Educação/ Ensino (UFRGS/RS) . Graduação em Filosofia e História (FFCL de Bagé/RS)


 

A peste negra no Paraná ou uma ovação para os argentinos

 

A Peste Negra (bubônica e pneumônica) na Idade Média matou, entre 1347  e 1350, um terço da população, e estendeu-se, na Europa, por surtos, até o século XVII. Essa calamidade epidêmica, que atingiu inúmeras e diferentes regiões, exigia uma profunda reflexão. No entanto, essa reflexão foi substituída por uma mera opinião que, divulgada e reproduzida exaustivamente, fundamentava-se em razões falsas, insuficientes ou sem possibilidade de comprovação. Tal tragédia, que abalou pobres e ricos, velhos e moços, sem preferência, teve uma explicação ou uma justificativa simplista: os judeus, os hereges eram os responsáveis pela mortalidade em massa! Bastaria, portanto, eliminar esse “bode expiatório” para salvar a sociedade da pestilência medieval!  

Tal “verdade”, infelizmente, foi generalizada e muito bem explorada por governantes (leigos ou religiosos) desse período.  Interessados em manter o poder político e econômico, mobilizaram a opinião popular contra judeus e hereges, escolhidos como responsáveis pela enfermidade (causada, de fato, pelo bacilo Pausterella Pestis e alastrada pela falta de higiene). Perseguidos, desmoralizados, massacrados, assassinados, queimados, os judeus foram paulatinamente afugentados de Portugal e da Espanha e encontraram guarida em Amsterdão, Hamburgo, Franckfurt, Antuerpia, desenvolvendo, mais tarde, nesses locais, o comércio, enquanto as regiões do sul, amargavam uma crescente decadência econômica. Outras figuras sociais, como mulheres e pensadores, também desapareceram nas fogueiras ou em masmorras em nome da preservação da fé, do Estado Religioso e da “saúde da população”, medidas que, entre outras, apenas garantiram, nesse período histórico, o enfraquecimento ou empobrecimento paulatino dos países ibéricos!  

O povo, nas cidades e nos campos, através do púlpito, tanto das Catedrais como das pequenas Capelas, foi mobilizado, em uma cruzada, para desqualificar qualquer manifestação humana que não aquela orientada diretamente pela autoridade constituída. A ignorância, escondida pela fé proclamada, devia ser preservada pois a busca de conhecimento contrário ao estabelecido pelo sistema medievo era pressentido como uma grande ameaça à ordem vigente. A Deus, ou aos governantes, deveria ser atribuída a verdade das explicações dadas sobre o fenômeno; aos atos encaminhados pelo poder constituído deveria ser dada legitimidade! No entanto, somente  aos “pecadores” era imputado a culpabilização pelo flagelo da mortalidade em massa. Em resumo, toda a verdade aos “príncipes”, toda mentira aos “pecadores (identificados como pecadores pelo próprios príncipes).

Com o passar dos séculos, esses pecadores foram absolvidos e até a Igreja pediu desculpas ao mundo por atos insanos cometidos. Giordano Bruno, Galileu Galilei, entre outros pensadores, calados indevidamente como contraventores, recuperaram respeitabilidade e foram reintegrados à cultura, entendida como responsável pelo desenvolvimento mundial. A HISTÓRIA ENSINA, MAS, INFELIZMENTE, NÃO A TODOS !

Como em uma comédia de quinta categoria, no início do século XXI, o Estado do Paraná toma assento na História comportando-se de modo similar à demência religiosa da Idade Média insuflada por seus governantes. Grande parte da sociedade adere à midia que concede o maior e mais extenso espaço, para divulgar e estimular a fé em uma administração de oito anos que já recebeu a alcunha de “o buraco pago”!

Independentemente de a) uma rede viária destruída; b) de um sistema bancário (sempre lucrativo) entregue a particulares; c) dos esforços para livrar-se do gerenciamento de firmas estatais com saúde financeira; d) do favorecimento relativo à isenção de impostos a grandes empresas estrangeiras; e) da concretização de um sistema previdenciário apenas no papel (embora com retenção efetiva de parte do salário dos funcionários públicos); f) de uma segurança pública destruída e descrente em sua própria imagem e valorização; g ) de um sistema de saúde alquebrado, (apenas citado para registrar os problemas dos hospitais-escola ou dos hospitais-universitários); h) da destruição do sistema de ensino do Paraná de 10, 20 e de 30  Graus (quer por sua orientação teórico-metodológico, quer pelo trabalho sistemático de desprezo ou desrespeito da força de trabalho ainda em exercício); independentemente dos fatores múltiplos dessa PESTE NEGRA em curso no Paraná, o poder instituído aciona, através de meios variados e pagos pelo contribuinte, a fé da população nas mentiras a respeito das universidades, de seu corpo docente, deformando as legítimas reivindicações da comunidade acadêmica que não se limitam à recuperação constitucional de seus salários.

Reduzindo a comunidade acadêmica ao Sindicato (que considera petista, por isso mesmo pecador) rejeita todas suas reflexões, análises e ponderações. Rejeita, sob a batuta de um poder psicótico, todos os apelos feitos e justificados por quem, exercitando a sua profissão, não permaneceu nos limites da própria graduação. Em Cruzada política e ideológica, o Governo esconde dados, embaralha informações para os já desinformados parlamentares e estimula a cobiça dos empresários que se pensam capazes de interferir ou administrar uma complexa e multivariada entidade científica. Conclama os pais a se rebelarem contra a greve e deixa de contar à comunidade porque obedece, com tanta rapidez ou facilidade, às regras internacionais, do FMI,  de desmonte do ensino público. A administração vigente, não revelando causas reais da Peste Negra, não identificando os bacilos que informam a destruição do tecido orgânico do sistema de ensino do Estado, manipula os paranaenses pela fé e/ou pela adesão ao que é dito ou divulgado pelo palácio.

O Poder constituído do Paraná (governante, secretários, assessores ou membros da base governista) esconde o mandamento básico do Banco Mundial que determina, para países pobres ou em desenvolvimento, empréstimos sempre atrelados à compra de conhecimentos ou de tecnologia estrangeira. Esconde, por exemplo, que a obediência a esse mandamento implica:

q       na realização de uma campanha de difamação dos quadro dos profissionais vinculados ao terceiro grau; 

q       em ações que garantam a sensação de irrelevância dessa escola;

q       na destruição da seriedade científica, instrumental e técnica das escolas;

q       no favorecimento do ensino pago;

q       na emulação ao ensino à distância, de preferência através dos canais da Rede Globo;

q       em mostrar os amigos da escola como excelentes substitutivos de docentes, formados, graduados, especializados ou pós-graduados.

Nesse quadro, analisando a comunidade que ainda não tomou a si essas verdades, que vive o ufanismo paranaense de forma pequena e, por isso mesmo, contribui para um futuro incerto e pobre das próximas gerações, cumprimento o povo argentino que rejeita sua destruição, unindo todas as classes sociais em panelaços contra os desmandos responsáveis pela verdadeira decadência ou morte  da sociedade.

Acreditando na luta contra a atual ideologia simplista, contra a política oportunista destruidora do conhecimento científico, da  escola, da universidade e do professor responsável, me uno a todos aqueles que não se propõem a pedir desculpas, no futuro, porque os erros foram apontados, hoje, no momento certo.

 

LIZIA HELENA NAGEL

     

 


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