A
peste negra no Paraná ou uma ovação para
os argentinos
A
Peste Negra (bubônica e pneumônica) na Idade Média matou, entre 1347
e 1350, um terço da população, e estendeu-se, na Europa,
por surtos, até o século XVII. Essa calamidade epidêmica, que
atingiu inúmeras e diferentes regiões, exigia uma profunda reflexão.
No entanto, essa reflexão foi substituída por uma mera opinião
que, divulgada e reproduzida exaustivamente, fundamentava-se
em razões falsas, insuficientes ou sem possibilidade de comprovação.
Tal tragédia, que abalou pobres e ricos, velhos e moços, sem
preferência, teve uma explicação ou uma justificativa simplista:
os judeus, os hereges eram os responsáveis pela mortalidade
em massa! Bastaria, portanto, eliminar esse “bode expiatório”
para salvar a sociedade da pestilência medieval!
Tal
“verdade”, infelizmente, foi generalizada e muito
bem explorada por governantes (leigos ou religiosos) desse período. Interessados em manter o poder político e econômico, mobilizaram
a opinião popular contra judeus e hereges, escolhidos como responsáveis
pela enfermidade (causada, de fato, pelo bacilo Pausterella
Pestis e alastrada pela falta de higiene). Perseguidos,
desmoralizados, massacrados, assassinados, queimados, os judeus
foram paulatinamente afugentados de Portugal e da Espanha e
encontraram guarida em Amsterdão, Hamburgo, Franckfurt, Antuerpia,
desenvolvendo, mais tarde, nesses locais, o comércio, enquanto
as regiões do sul, amargavam uma crescente decadência econômica.
Outras figuras sociais, como mulheres e pensadores, também desapareceram
nas fogueiras ou em masmorras em nome da preservação da fé,
do Estado Religioso e da “saúde da população”, medidas que,
entre outras, apenas garantiram, nesse período histórico, o
enfraquecimento ou empobrecimento paulatino dos países ibéricos!
O
povo, nas cidades e nos campos, através do púlpito, tanto das
Catedrais como das pequenas Capelas, foi mobilizado, em uma
cruzada, para desqualificar qualquer manifestação humana que
não aquela orientada diretamente pela autoridade constituída.
A ignorância, escondida pela fé proclamada, devia ser preservada
pois a busca de conhecimento contrário ao estabelecido pelo
sistema medievo era pressentido como uma grande ameaça à ordem
vigente. A Deus, ou aos governantes, deveria
ser atribuída a verdade das explicações dadas
sobre o fenômeno; aos atos encaminhados pelo poder
constituído deveria ser dada legitimidade! No entanto, somente
aos “pecadores” era imputado a culpabilização
pelo flagelo da mortalidade em massa. Em resumo, toda
a verdade aos “príncipes”, toda mentira aos “pecadores”
(identificados como pecadores pelo próprios príncipes).
Com
o passar dos séculos, esses pecadores foram absolvidos
e até a Igreja pediu desculpas ao mundo por atos insanos cometidos.
Giordano Bruno, Galileu Galilei, entre outros pensadores, calados
indevidamente como contraventores, recuperaram respeitabilidade
e foram reintegrados à cultura, entendida como responsável pelo
desenvolvimento mundial. A HISTÓRIA ENSINA, MAS, INFELIZMENTE,
NÃO A TODOS !
Como
em uma comédia de quinta categoria, no início do século XXI,
o Estado do Paraná toma assento na História comportando-se de
modo similar à demência religiosa da Idade Média insuflada por
seus governantes. Grande parte da sociedade adere à midia
que concede o maior e mais extenso espaço, para divulgar e estimular
a fé em uma administração de oito anos que já recebeu a alcunha
de “o buraco pago”!
Independentemente
de a) uma rede viária destruída; b) de um sistema bancário (sempre
lucrativo) entregue a particulares; c) dos esforços para livrar-se
do gerenciamento de firmas estatais com saúde financeira; d)
do favorecimento relativo à isenção de impostos a grandes empresas
estrangeiras; e) da concretização de um sistema previdenciário
apenas no papel (embora com retenção efetiva de parte do salário
dos funcionários públicos); f) de uma segurança pública destruída
e descrente em sua própria imagem e valorização; g ) de um sistema
de saúde alquebrado, (apenas citado para registrar os problemas
dos hospitais-escola ou dos hospitais-universitários); h) da
destruição do sistema de ensino do Paraná de 10,
20 e de 30
Graus (quer por sua orientação teórico-metodológico,
quer pelo trabalho sistemático de desprezo ou desrespeito da
força de trabalho ainda em exercício); independentemente dos
fatores múltiplos dessa PESTE NEGRA em curso no Paraná, o poder
instituído aciona, através de meios variados e pagos pelo contribuinte,
a fé da população nas mentiras a respeito das universidades,
de seu corpo docente, deformando as legítimas reivindicações
da comunidade acadêmica que não se limitam à recuperação constitucional
de seus salários.
Reduzindo
a comunidade acadêmica ao Sindicato (que considera petista,
por isso mesmo pecador) rejeita todas suas reflexões, análises
e ponderações. Rejeita, sob a batuta de um poder psicótico,
todos os apelos feitos e justificados por quem, exercitando
a sua profissão, não permaneceu nos limites da própria graduação.
Em Cruzada política e ideológica, o Governo esconde dados, embaralha
informações para os já desinformados parlamentares e estimula
a cobiça dos empresários que se pensam capazes de interferir
ou administrar uma complexa e multivariada entidade científica.
Conclama os pais a se rebelarem contra a greve e deixa de contar
à comunidade porque obedece, com tanta rapidez ou facilidade,
às regras internacionais, do FMI,
de desmonte do ensino público. A administração vigente,
não revelando causas reais da Peste Negra, não identificando
os bacilos que informam a destruição do tecido orgânico do sistema
de ensino do Estado, manipula os paranaenses pela fé e/ou pela
adesão ao que é dito ou divulgado pelo palácio.
O
Poder constituído do Paraná (governante, secretários, assessores
ou membros da base governista) esconde o mandamento básico do
Banco Mundial que determina, para países pobres ou em desenvolvimento,
empréstimos sempre atrelados à compra de conhecimentos ou
de tecnologia estrangeira. Esconde, por exemplo, que a obediência
a esse mandamento implica:
q
na realização de uma campanha de difamação dos quadro dos profissionais
vinculados ao terceiro grau;
q
em ações que garantam a sensação de irrelevância dessa escola;
q
na destruição da seriedade científica, instrumental e técnica das escolas;
q
no favorecimento do ensino pago;
q
na emulação ao ensino à distância, de preferência através dos canais
da Rede Globo;
q
em mostrar os amigos da escola como excelentes substitutivos
de docentes, formados, graduados, especializados ou pós-graduados.
Nesse
quadro,
analisando a comunidade que ainda não tomou a si essas verdades,
que vive o ufanismo paranaense de forma pequena e, por isso
mesmo, contribui para um futuro incerto e pobre das próximas
gerações, cumprimento o povo argentino que rejeita sua destruição,
unindo todas as classes sociais em panelaços contra os desmandos
responsáveis pela verdadeira decadência ou morte
da sociedade.
Acreditando
na luta contra a atual ideologia simplista, contra a política
oportunista destruidora do conhecimento científico, da
escola, da universidade e do professor responsável, me
uno a todos aqueles que não se propõem a pedir desculpas, no
futuro, porque os erros foram apontados, hoje, no momento certo.
LIZIA
HELENA NAGEL