No
programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo,
gravado após o Fórum Social Mundial de 2002, perguntaram
a Boaventura de Souza Santos se o Partido dos Trabalhadores
teria instrumentalizado o Fórum. O sociólogo português,
que tinha sido figura de relevo nesse evento, respondeu
dizendo que o PT é muito pequeno para isso. Tarso
Genro, prefeito de Porto Alegre, em entrevista dada
na mesma ocasião à Folha, afirmou que todos os partidos
de esquerda do mundo, unidos, não conseguiriam convocar
e realizar algo como o Fórum Social Mundial.
Ainda
que o consideremos somente em termos de números,
o Fórum foi um indiscutível sucesso. As afirmações
de Boaventura e Tarso partem dessa constatação,
mas também apontam para as razões desse sucesso.
Do
primeiro para o segundo os números saltaram. Quanto
aos participantes, por exemplo, dos 20.000 de 2001
passou-se a 50.000 em 2002, entre os quais 35.000
“ouvintes”, de Porto Alegre e de muitas partes do
Brasil e países vizinhos, que para lá acorreram
- enfrentando às vezes longas viagens de ônibus
- para ver e ouvir de perto pessoas que admiram
e viver o clima energizante desse grande encontro
mundial.
Mas
esse sucesso é mais significativo se considerarmos
o aumento do número de delegados, isto é, pessoas
inscritas no Fórum como representantes de entidades
e movimentos da sociedade civil: dos 4.000 de 2001
passou-se a 15.000 em 2002, representando 4.909
organizações de 131 países. Na verdade, o que de
fato atraiu tantos delegados foram as novidades
de que o Fórum era portador: seu caráter plural
e não diretivo, que unifica respeitando a diversidade;
sua abertura a todos que quisessem dele participar
- excetuando-se representantes de governos, partidos
enquanto tais e organizações armadas; e o fato de
ser uma iniciativa da sociedade civil para a sociedade
civil, que criou um novo espaço de encontro - o
primeiro e talvez o único desse tipo no nível mundial
- sem o controle de governos, movimentos, partidos
e outras instituições nacionais ou internacionais
que disputam poder político.
De
fato, para esses delegados o Fórum era realmente
o que seus organizadores pretendiam que fosse: um
espaço horizontal em que podiam, livremente, dar
visibilidade a suas propostas e lutas - sem que
nenhuma fosse considerada mais importante que a
outra e sem que ninguém pudesse impor suas idéias
ou seu ritmo aos demais -, intercambiar experiências,
aprender e realimentar-se pelo conhecimento de outras
lutas, esperanças e propostas, aprofundar suas análises
sobre as questões que se levantam em seus campos
de ação, articular-se nacionalmente e sobretudo
planetariamente. Ou seja, ganhar mais eficiência
e avançar em seu trabalho de transformação social.
Sem
que isso signifique descompromisso ou fuga de responsabilidades,
seguramente não haveria tanta disposição em participar
desse evento se fosse para nele receber diretivas
e palavras de ordem, ser "patrulhado"
em suas opções, ter que engajar-se disciplinadamente
em ações e mobilizações, aprovar declarações, moções,
tomadas coletivas de posição. Por isso mesmo os
organizadores do Fórum inscreveram em sua Carta
de Princípios que ele não se pronuncia enquanto
Fórum, ninguém pode falar em seu nome, em nenhum
de seus encontros se gastará tempo para discutir
e aprovar "documentos finais".
Essa
Carta estabelece, explicitamente, que o Fórum Social
Mundial de Porto Alegre não tem caráter deliberativo.
Isto é também o que acontece com o Fórum Econômico
Mundial, de Davos, ao qual o Fórum de Porto Alegre
se propõe como alternativa (é para realçar esse
caráter que se realiza exatamente nos mesmos dias).
Esses dias são, para seus participantes, somente
um momento mais forte e intenso de aprofundamento
de suas opções e articulações, no nível mundial,
numa ação que já existia antes deles e continuará
depois deles.
É
evidente que por detrás dessa semelhança existe
uma enorme diferença: os participantes de Davos
visam manter e aumentar a dominação do capital -
do qual eles são os controladores - sobre os seres
humanos em todo o mundo, bem como a expansão de
seus negócios privados. Os de Porto Alegre - alimentando-se
dos crescentes protestos que surgem em toda parte
contra uma globalização ditada pelos interesses
desse capital, querem avançar em propostas para
a construção de um outro mundo, centrado no ser
humano e respeitoso da natureza, que eles consideram
não somente possível como necessário e urgente,
e que, na verdade, já estão construindo em sua ação
prática.
Essa
diferença de objetivos e conteúdos determina também
uma diferença de métodos: a principal atividade
desenvolvida em Davos é a de conferências, palestras
e debates sobre temas previamente definidos, para
as quais seus organizadores convidam os grandes
expoentes intelectuais do "pensamento único"
neo-liberal, os dirigentes políticos das nações
mais poderosas e os donos ou executivos das grandes
multinacionais. No Fórum de Porto Alegre há também
um grande espaço aberto para conferências, palestras
e debates, assim como para testemunhos de pessoas
com experiências ou reflexões marcantes. Para isso,
como em Davos, são convidadas pessoas que vêm refletindo
ou agindo em torno dos temas escolhidos - sendo
que no Fórum de Porto Alegre de 2002 as conferências
foram confiadas não mais a pessoas isoladas mas
a grandes redes mundiais. Mas a atividade mais rica
do Fórum Social Mundial é a que se dá em torno das
oficinas e seminários propostos livremente pelos
seus próprios participantes e por eles organizados:
400 em 2001 e 750 em 2002. Na verdade é o burburinho
alegre que se forma em torno dessas oficinas e seminários
que cria o ambiente entusiasmado em que o Fórum
Social Mundial se desenvolve, com cores e barulhos
variados, protestos bem-humorados e divulgação de
ações e propostas, assim como performances e acontecimentos
inesperados, nas salas, corredores e jardins do
espaço em que se realiza - totalmente ao contrário
do que acontece no cinza bem comportado de Davos.
Estas
opções organizativas do Fórum Social Mundial evidentemente
não se concretizam sem incompreensões, tensões,
desvios, e mesmo tentativas de recuperação do Fórum
como um todo. Sua magnitude acende apetites, e seu
caráter não piramidal incomoda a quem tem pressa
de ver as coisas mudarem e foi formado dentro dos
paradigmas tradicionais da ação política.
Grande
parte dos jornalistas, por exemplo - e isto se reflete
na cobertura dada ao Fórum - acostumados a entrevistar
líderes e gurús, ou realçar lutas pelo poder, não
conseguem entender porque não há um "documento
final", ou "propostas concretas".
Não pedem o mesmo a Davos, mas querem que a alternativa
a Davos as apresente. Têm dificuldade em compreender
que o Fórum Social Mundial não é uma cúpula, mas
uma das bases de um movimento social que para se
desenvolver não pode ter cúpulas nem donos. "Sínteses
finais" de cinco dias de trabalho, com 15.000
ou 50.000 pessoas, além de serem necessariamente
empobrecedoras, só poderiam ser por elas aprovadas
através de algum tipo de manipulação. E todos saem
seguramente mais felizes do que se tivessem tido
que lutar para incluir ao menos uma linha de suas
propostas no documento final...
Na
verdade surgem no Fórum centenas de propostas concretas,
inclusive de mobilizações específicas, como neste
ano contra a ALCA. Ou novas reflexões, como a que
neste ano emergiu, sobre a mudança interior dos
que lutam pela mudança do mundo. Tratado em muitas
oficinas e seminários, esse tema foi objeto de uma
conferência que atraiu mais de 2.000 pessoas. Mas
nenhuma dessas propostas e reflexões é do Fórum
enquanto tal. São de responsabilidade de quem as
assumiu. E a elas se associarão todos aqueles que
optarem por isso, como sujeitos de suas decisões.
Naturalmente
também surgem tensões até entre os que organizam
o Fórum, ou deles se aproximam para ajudar. Há por
exemplo os que gostariam de ver o Conselho Consultivo
Internacional do Fórum se transformar em um novo
comando mundial da luta contra o neo-liberalismo,
controlando e direcionando esse processo. As perspectivas
de continuidade assumidas pelos organizadores parecem
apontar para outro sentido, com a consolidação do
método orientado pela Carta de Princípios do Fórum.
Firma-se o conceito de que o Fórum é um processo,
e não um evento e nem uma nova organização internacional
dirigida pelos líderes de um "pensamento único"
substitutivo, o que lhe seria fatal. É preciso também
cuidar, por exemplo, para que as conferências não
terminem com "sínteses orientadoras",
votadas pelo respectivo "plenário", ou
para que não prevaleçam sobre as oficinas. Ao mesmo
tempo, as decisões tomadas até agora pelos organizadores
apontam para que o poder convocatório do Fórum produza
em mais países do mundo a mesma mobilização que
ocorre no Brasil. O Fórum de 2003 começará com provavelmente
uma dezena de Fóruns regionais ou temáticos nas
diferentes áreas geopolíticas do mundo, de setembro
a dezembro de 2002, até chegar a um novo Fórum centralizado
de novo em Porto Alegre. O mesmo processo recomeçaria
em setembro de 2003, podendo desembocar, em 2004,
em um encontro mundial na Índia.
Na
verdade, o grande desafio para os organizadores
do Fórum Social Mundial não é o de definir novos
e melhores conteúdos que levem a propostas cada
vez mais concretas, mas sim o de assegurar a continuidade
da forma dada ao Fórum - um caso em que o meio é
determinante para os fins a alcançar. Os conteúdos
surgirão naturalmente do processo assim lançado,
dentro da própria luta da humanidade por um outro
mundo, e serão necessariamente canalizados para
as várias edições do Fórum, com questões comuns
a todas e com as especificidades de cada região
do mundo em que se realizar. O que importa é garantir
que esse novo paradigma de ação política transformadora,
criado pelo Fórum Social Mundial, não seja engolido
para dentro de "odres velhos".