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O
tempo das imagens
Quando
as duas torres caíram não havia nada lá
dentro. Por isso, sob os escombros, não encontraram
mortos sem rostos, braços sem donos, pés
sem parentes; não havia nenhuma cara, nenhuma imagem.
O que se viu foi somente a dor dos vivos que contaram
dos seus sonhos e de suas almas heroínas. A imprensa
não deu, o Governo não mostrou e a história
se indaga: existiram eles, os mortos? Havia realmente
cadáveres incompletos nos 5 mil caixões
que baixaram aos túmulos?
No
tempo das imagens - hoje, agora - é assim: imagens
são ícones e, portanto, devem ser selecionadas,
ideologizadas e sacralizadas. As imagens fazem parte do
show de entretenimento. Na Guerra do Afeganistão
o mundo é virtual simbolizado num tal Osama Bin
Laden, que ninguém viu, ninguém vê,
ninguém sabe onde está. Ele, tão
real para os de casa, mas ali, em sua casa, uma caverna
imaterial, platônica, não existe. Lá,
diz a TV nossa, a do bem, que é norte-americana,
existe a miséria, a fome, o mal. Tudo culpa desse
tal de Bin Laden. Felizmente os Estados Unidos invadem
este espaço etéreo: chega a salvação:
fiat lux! Nossos intrépidos jornalistas lêem
os releases do Departamento de Estado: agora eles, os
bárbaros, os afegãos, podem fazer a barba
e jogar futebol. Alá é substituído
por Deus. Jesus salva. A civilização chegou.
Tudo
isso é falso. A peça é de mau gosto.
O teatro é feito por atores canastrões.
No fundo todo mundo sabe que é mentira. Mas, é
o tempo das imagens e elas fazem sucesso. Aqui e acolá.
Os
ícones são construídos, forjados
ou recriados. O ídolo tem a lataria enferrujada?
Pois então que se alise o metal. A estátua
do santo está caindo aos pedaços? Pois,
que se coloque betume e se pinte de azul.
A
mentira é como um arquétipo que baixa em
todo canto. Imita-se aquilo que se é. Ao invés
da verdade a sua versão. Em todos os escaninhos
do cotidiano. Nas artes, por exemplo.
Você
liga a TV e Roberto Carlos, o cantor, faz um espetáculo
- imita Roberto Carlos há 30 anos. Ele não
é ele, ele é o que foi. É um ritual
canastrão. Uma caricatura do que foi. Os mesmos
cabelos, o mesmo figurino, as mesmas músicas, o
mesmo jeito de pegar o microfone, de cantar, dizer obrigado,
jogar flores. Pior, tenta mudar a história: corrige
o herege do passado: não cantem mais essa música
sacrílega, "que tudo mais vá pro inferno".
Ele precisa mostrar que nunca foi um rebelde; e que é
um homem santo, enquadrado, tão fiel à mulher
que morreu quanto ao que ele foi e morreu também.
É psicológico: a recusa da morte, a recusa
em aceitar a morte; é patologia; é recusa
do natural; anos de atraso; coisa do cristianismo. Jung
explica. Vide Freud, "Totem e tabu".
Roberto
Carlos não é mais uma pessoa, ele não
se considera mais uma pessoa, um ser humano comum. Ele
é o ritual. Roberto Carlos não existe. Quem
canta nos especiais de Natal, todos os anos, no mesmo
horário e canal, é apenas um clone daquele
que era bom e jovem nos anos 70. O que canta agora é
um canastrão, um imitador do antigo. É este
que assina contrato com a TV Globo proibindo-se de aparecer
em outro canal. Como ele é um objeto, um objeto
santo, mas um objeto, topa ser propriedade de uma empresa.
E canta como quem reza, como quem repete uma ladainha
da igreja que cultua, como um anúncio do novo detergente.
Sem emoção. Temos que respeita-lo: é
assim que ele tenta enganar o tempo e a morte.
Fossem
outros tempos, o que se esperaria de cantores é
que cantassem. Mas hoje não é assim. Não
é preciso saber cantar para ser cantor.
Os
sertanejos da moda - devidamente modernizados como country
- não cantam. É o de menos. Sandy e Júnior
se esgoelam, fazem parecer que cantam e dançam.
Dá certo, são produtos da moda, são
os símbolos de um tempo falso, antigo, vitoriano:
jovens e bonitos, ela virgem e casta à espera do
príncipe encantado; ele, garotão sarado,
pronto para comer todas. Nesse tempo de música
e divertimento padres-cantores dão três pulinhos
para frente e mais três para trás, em nome
de Jesus. Pulinhos com o devido respeito, pudicos. Depois
vem as bundas da Axé-músic rebolando com
a música bunda.
O
tempo das imagens é o do entretenimento. Mas nem
para hedonismo serve. Todas as emoções são
engarrafadas, tabeladas, é comer e jogar fora,
como diria Torquato Neto. Mas quem tem imagem tem tudo.
Por isso a TV Globo privatizou as alegrias nacionais:
o samba, o futebol e, por fim, a telenovela. Cultura tem
dono.
Nem
mesmo os bons profissionais do teatro existem mais. Antonio
Fagundes virou o mesmo personagem no cinema ou na TV -
é o garanhão, o homem maduro, o gostosão,
o fazendeirão. É praxe. É tudo igual
a eles mesmos: Fernanda Montenegro, Regina Casé,
José Wilker, Lima Duarte,... São atores
canastrões ou meras repetições deles
mesmos. Reduziram-se aquilo que o mercado queria; no que
a empresa contratante quer. Não atuam, não
criam; a diferença entre o personagem da novela
anterior e da nova que está no ar, que é
o mesmo no filme que vem aí, é o texto e
a cor do terno. São artistas?
Depois
que virou suco na Globo José Dumont só faz
papel de nordestino. A grande atriz Marcélia Cartaxo
não consegue trabalho porque é nordestina
e não tem a beleza de uma estrela global. A nova
atriz e o novo ator é outra coisa: caras e bundas,
curvas e jeitos. Não é preciso interpretar,
basta ser bonitinho ou bonitinha.
Houve
um tempo, em que se lia Stanislavski, Antonin Artaud,
Boal, Dario Fo, Ionesco, Becket, Grotovski,... Até
Sheakespeare se lia. E o ator se formava aprendendo sobre
voz, dicção, postura, dança, emoção,
conhecimento,... Claro, ainda existem escolas de teatro
ensinando tudo isso. Pena que, no tempo das imagens, se
a atriz não for bonita e gostosa e firmar um contrato
com a Globo, não será conhecida. A cultura
agora é outra: o povo vai ao teatro ou ao cinema
para ver ator de novela. O poder da TV cria o ícone.
O filme é ruim, a peça é um besteirol,
mas se tem lá um ator global a casa é cheia.
É uma mentira, os atores fazem de conta que são
atores e o público faz de conta que viu uma peça
de teatro. Além do mais a mentira é geográfica:
a gente fica achando que só existe ator e atriz
no Rio de Janeiro e São Paulo. Dizimaram os outros
estados e os artistas que não moram no eixo.
A
imagem televisiva invade o cinema criando modelos. Sobram
elogios para o "Auto da compadecida", o filme;
mas é um equívoco, porque ele é televisão
não é cinema. Aí se explica Xuxa.
Xuxa e o que ela é. Inclusive no cinema: onde o
elenco do seu "filme" mais recente é
formado por apresentadores de TV. O resultado é
medíocre: crianças da quarta série
do fazem algo melhor, mais criativo. Xuxa é o tempo
atual: a ignorância. É uma mulher que fala
como criança ou uma criança que fala no
corpo de mulher? Ou é somente uma máquina
registradora?
No
Fórum Social Mundial Noam Chomsky afirmou que a
futilidade democratizou-se. Ela está em toda parte.
É para todo mundo. E a imagem é a embalagem
do fútil. Por isso tantos canastrões. Nos
esportes, por exemplo:
Ronaldinho,
o jogador, não joga futebol há mais de século
e, no entanto, ele fala de si como se fosse o que foi
um dia. Mesmo quando estava parado, cuidando do joelho
quebrado, cuidando da esposa loirinha, resolveram batizá-lo
de "o fenômeno". Mas ele não é.
Ele agora é só uma peça publicitária.
Ele fala de um outro, porque ele não é.
Ronaldinho não existe. Se existe está numa
caverna. Bin Laden é mais real que ele.
Talvez
o povo queira isso: esse show de mentiras. Esse espetáculo
com canastrões em tudo que é canto. Inclusive,
e principalmente, na política. Talvez goste de
Raul Jungmann, com seu ar de autoridade, seu jeito de
autoridade, sua cara de gente de respeito anunciando os
números mentirosos da sua reforma agrária
virtual - imitando ele próprio. Talvez o povo queira
Fernando Henrique Cardoso porque ele imita um estadista,
um professor, um cara de respeito, um sujeito que quando
abre a boca só sai coisas inteligentes - imita
um FHC que não existe. Mais importante que o fato
é a imagem. Por isso quando no início de
fevereiro de 2002 o publicitário Washington Olivetto
foi resgatado de um seqüestro que durou quase 60
dias, seu primeiro ato público foi um ato publicitário,
uma imagem, soltar a pomba da paz.
O
que acontece ao país, ao mundo, é um show,
mas é falso. Nem show é. É uma farsa
ruim. Mas, com o aparato da publicidade e a contribuição
da TV, parece até legal.
Na
falsidade das imagens o SBT junta um grupo de artistas
numa jaula e deixa o mundo vigiando-os. E então
se inicia o espetáculo: eles fingem que estão
agindo com naturalidade e nós fingimos que eles
estão agindo naturalmente. Mas eles não
são macacos. São seres humanos e figuras
dos tempos modernos. Isto é, são competentes
no uso das imagens. A mentira é esta: eles não
são eles: são personagens: representam o
que eles fariam se estivessem confinados numa casa. Então
se inverte o contexto: não são eles que
estão presos, somos nós que estamos presos
a eles. Não conseguimos fugir de suas imagens.
A gente gosta dessa falsa ficção. A gente
espera surpresas que não acontecem, trepadas que
não aparecem, brigas e futricas que acontecem quando
eles querem.
O
"Big Brother Brasil" da Globo repete a fórmula.
Com mais glamour. Muito mais. Os que estão lá
também representam. Mas o negócio não
anda. Então a emissora alimenta brigas entre eles.
Então a Globo, que demorou dez meses na seleção
dos concorrentes, "descobre" que um deles está
ilegal no Brasil e pode ser deportado. E a Polícia
Federal, que não é boa para capturar seqüestrador,
traficante ou assassino de prefeito, mas é boa
para fechar rádio comunitária, entra em
cena e anuncia que o franco-angolano-brasileiro-chinês
deve sair do Brasil. Isso dá publicidade (imagem)
para todo mundo. A TV Globo acha ótimo, a PF aparece
como eficiente, e o telespectador vai conferir nesse "Big
Brother" quem é esse cara que passa por ser
o que é e não é.
O
tempo constrói templos. E bota o olho do grande
irmão para nos observar dentro deles. Quem estiver
fora da linha, quem não rezar a cartilha deve ser
enquadrado. Quem não gostar de Coca-cola ou Galvão
Bueno deve ser eliminado. Não temos tempo, eles
dizem, com a cara transgênica que Deus lhes deu.
- Fast food!, bradam na língua alienígena
deles.
Mas
a verdade é que temos tempo. Precisamos de um tempo
- para refletir, pensar, descartar este espetáculo
ruim que nos obrigam a assistir e consumir. Tempo para
negar o lixo, o fútil, a farsa, a mentira embrulhada
em papel brilhante que oculta as realidades. Talvez tenhamos
que começar do zero mais uma vez. Assim: no caminho
tem uma pedra, tem uma pedra, uma pedra,... Ou então,
fazer a educação pela pedra. Isso já
é mais da metade do caminho.
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