"A
TV precisa de um contrapoder"
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Jornal do Brasil, caderno Idéias, 11/9/00)
"Pierre
Bourdieu, titular da cátedra de Sociologia do Collège
de France, é um dos mais lidos e citados sociólogos
do mundo. Com seu livro Sobre a televisão (Jorge
Zahar Editor), ele abriu uma nova e polêmica frente
de discussão ao estudar a cultura mediática
e fazer uma crítica definitiva ao meio de comunicação
mais controvertido da atualidade. Para ele, a tela da
televisão tornou-se hoje uma espécie
de espelho de Narciso, um lugar de exibição
narcísica no qual querem se mirar os intelectuais
(filósofos e escritores) mediáticos,
do qual fogem os eruditos e pensadores, evitando uma mídia
extremamente superficial, própria a fast thinkers.
Bourdieu acha que pouca coisa pode ser dita num veículo
que impõe o assunto, o tempo irrisório e
que tem interesses econômicos invisíveis
e, muitas vezes, inconfessáveis. Tudo isso faz
da televisão, segundo Bourdieu, um formidável
instrumento de manutenção da ordem simbólica.
Há
imensos obstáculos... Penso que já seria
importante que os intelectuais tomem consciência
de que, em sua relação com a televisão,
o que está em jogo não é apenas seu
ego, sua notoriedade atual ou potencial, mas algo infinitamente
mais importante politicamente: a possibilidade de instituir
um contra-poder crítico eficaz, capaz de se exprimir
em nome do maior número de pessoas, as conquistas
mais sofisticadas e mais avançadas da pesquisa
científica e artística ou, mais simplesmente,
a possibilidade de oferecer a todos os homens e mulheres
de todos os países um acesso mínimo aos
produtos mais raros e mais nobres da reflexão humana.
Segundo Bourdieu, a construção deste contra-poder
só pode ser feita com a cumplicidade e a participação
ativa da fração mais esclarecida e mais
independente dos jornalistas. Suas idéias foram
criticadas tanto na França como em todo o mundo
onde o livro foi publicado. Por isso, Bourdieu escreveu
uma espécie de réplica, não por acaso
intilulada Contra-fogos. Como a discussão está
longe de acabar, no mês em que a TV brasileira comemora
seus 50 anos, o Idéias voltou a Bourdieu para discutir
seu tema mais polêmico: a mídia televisiva.
O
jornalismo é importante demais para ser deixado
nas mãos de jornalistas?
Pierre
Bourdieu Se eu disse alguma coisa assim, em algum
lugar, foi unicamente pelo prazer de fazer uma boutade.
E é preciso evitar fazer tiradas sobre assuntos
sérios: e o jornalismo é um assunto sério,
muito sério mesmo. Porque o jornalismo, hoje, é
efetivamente muito importante. O que eu quis dizer é
que não se pode deixar unicamente aos jornalistas
a total e inteira responsabilidade do trabalho jornalístico.
Era o que queriam alguns jornalistas que pensam que são
suficientemente grandes para se controlar e se criticar
e têm sempre à mão, pelo menos na
França, a referência à deontologia.
O jornalismo que se pensa como um quarto
poder, mas crítico é sem dúvida
alguma um poder, que, pelo fato das pressões de
todas as ordens que pesam sobre a atividade jornalística,
sobre os jornalistas, portanto, não tem mais muita
coisa de crítico e contribui muito para reforçar
as forças mais conservadoras da economia e da política.
O
senhor pode dar um exemplo?
Bourdieu
Os jornalistas econômicos, que na sua maioria
estão longe de serem grandes economistas, e os
grandes editorialistas não cessam de retomar e
orquestrar os argumentos mais deformados da vulgata neoliberal
sem submetê-los à crítica mais elementar.
Por acaso eles se perguntam, por exemplo, o que significam
as taxas de emprego dos Estados Unidos e da Inglaterra
e se a relação, freqüentemente lançada
contra os defensores do Welfare State, entre a proteção
social e o desemprego não repousa sobre um jogo
com as definições, tanto da proteção
social, quanto do desemprego e do emprego etc.? Os jornalistas
influentes gostam de dizer que são escutados, temos
de lhes dar razão. Quando se trata de economia,
eles falam todos praticamente a mesma língua.
O
jornalismo da TV é pior do que o da imprensa escrita
dita séria?
Bourdieu
Eu não colocaria a questão nesses
termos. É verdade, para simplificar, que o jornalismo
da TV (sobretudo nas grandes redes, de grandes espetáculos
e grande público) está submetido a pressões
(a da urgência, principalmente, ligada ao medo de
entediar, isto é, de perder telespectador), uma
coisa da qual o jornalismo escrito, o dos grandes jornais
ditos sérios, está livre. Mas,
de fato, a concorrência no campo jornalístico
incluídas todas as mídias
faz com que as pressões e interesses que pesam
sobre a televisão pesem também, por intermédio
da televisão, sobre a totalidade dos jornais, mesmo
sobre aqueles mais preocupados com sua autonomia. Patrick
Champagne fez essa análise, num dos últimos
números da revista Atos da pesquisa em ciências
sociais, sobre a evolução da retórica
jornalística do jornal Le Monde: os títulos
da primeira página, por exemplo, estão sendo
cada vez mais dedicados à política nacional
e aos aspectos mais anedóticos dessa política
por exemplo as relações de coabitação
entre o presidente da República e o primeiro-ministro.
E tudo o que os americanos chamam de agenda
os assuntos sobre os quais é preciso falar,
os temas que devem ser debatidos é imposto,
cada vez mais, pela televisão. Ou, então,
os grandes jornalistas se empenham em ter um programa
de TV ou em aparecer num, o que é bom para eles
próprios, para sua notoriedade e seu ego, mas também
para seu jornal e para as vendas. E isto tem como efeito
contribuir para a unificação da problemática
em curso no campo jornalístico e, ao mesmo tempo,
ao fechamento deste campo sobre ele mesmo, totalmente
centrado nos pequenos problemas de um pequeno número
de pessoas que, do debate televisivo ao coquetel de imprensa,
não cessam de se encontrar e de trocar suas pequenas
idéias.
Em
seu livro Sobre a televisão, o senhor
diz que a crítica da TV pelo discurso não
é senão um último recurso, menos
eficaz do que seria a crítica da imagem pela imagem.
Pela reação da mídia, o senhor acha
que se enganou?
Bourdieu
Sim e não. É verdade que o discurso
que eu desenvolvi para a televisão teve bem menos
efeito do que a transcrição publicada sob
forma de livro. Mas trata-se de uma crítica pelo
discurso (e que foi ao ar em horas de audiência
muito baixa, à noite) e não de uma crítica
pela imagem como eu poderia ter feito com a ajuda de profissionais
de cinema como Pierre Charles, autor de um filme
intitulado Pas vu à la télé (Não
passou na TV), que teve um enorme sucesso onde foi exibido
-, ou simplesmente se eu tivesse podido mostrar na TV
as imagens que eu comentava no meu discurso, ou construir
todo um filme com exemplos de coisas vistas na televisão.
Seria, pois, preciso servir-se dos recursos da televisão
(e mesmo de todo o talento que certos publicitários
desenvolvem a serviço da venda de produtos) para
desmontar e criticar os abusos do poder cometidos a cada
dia na televisão, não necessariamente de
maneira intencional ou perversa, mas, mais freqüentemente,
por ignorância ou por inadvertência. Você
me dirá que, na televisão mesmo (não
sei se vocês têm isso no Brasil), há
programas que fazem isso. De fato, é uma falsa
crítica, que não toca em nada de sério
a prova é o fato de que o filme de Pierre
Charles, que questionava a integridade dos grandes responsáveis
da televisão e sobretudo suas conivências
com os políticos, foi proibido na TV. Este simulacro
inofensivo de crítica é destinado, uma vez
mais, a criar audiência dando satisfação
a uma demanda confusamente sentida pelo público.
O
senhor escreveu que a TV é um lugar de exibição
narcísica. Os intelectuais mediáticos não
são bem vistos por seus pares? Os eruditos e ensaístas
devem fugir da telinha? O senhor participa de programas
de televisão?
Bourdieu
É preciso esclarecer tudo isto. Infelizmente,
o julgamento dos pares (falo dos eruditos sobre os eruditos,
dos escritores sobre os escritores etc.) está cada
vez mais ocultado e confundido pela interferência
do julgamento dos ignorantes que são chamados a
opinar, e estão em situação de expor
julgamentos dotados de visibilidade e, daí, de
uma certa autoridade sobre os profanos. Por exemplo, a
gente verá vários jornalistas franceses
apressarem-se em elogiar tal livro sobre jornalismo, que
balança entre o banal e o medíocre e que
tem como principal virtude, a seus olhos, dizer do jornalismo
aquilo que os jornalistas eles próprios, ou ao
menos os mais conformistas e os mais satisfeitos entre
eles, diriam. Isto com a esperança de barrar (num
sentido de censurar) todas as tentativas para falar cientificamente
desse universo.
Seria
preciso, por esse motivo, intervir na mídia?
Bourdieu
É uma questão muito difícil.
Os editores, mesmo os mais rigorosos, avançam com
toda sua força, e nós podemos compreendê-los.
Recusar a televisão não é apenas
comprometer o sucesso de obras que mececem atingir um
público maior; é também deixar espaço
aos intelectuais mediáticos, que contribuem para
a mistura da qual eu falava há pouco propondo obras
do kitsch cultural (e penso no Sartre de Bernard-Henri
Lévy) e que não podem se defender contra
os questionamentos de que são objeto (apesar da
extraordinária solidariedade de todos os intelectuais
beneficiários), atacando, muitas vezes da maneira
mais sórdida, os que resistem a seu domínio
sobre a imprensa e a edição.
Explique
melhor esses personagens.
Bourdieu
Não sei se vocês têm como nós
na França personagens que dominam, ao mesmo tempo,
grandes órgãos de imprensa, como Grasset
ou Gallimard, jornais (como o Magazine Littéraire,
L'Express ou L'Événement du Jeudi) que são
capazes de desencadear verdadeiras campanhas de publicidade
em defesa de seus produtos ou dos de seus amigos; e, também,
em casos mais excepcionais, campanhas de difamação
contra os que se recusam a entrar no jogo ou que, mais
simplesmente, têm a insolência de descrevê-lo.
Volto à sua pergunta. É preciso fugir da
telinha? Penso que seria preciso que artistas, escritores,
eruditos e pensadores lutem individualmente e sobretudo
coletivamente para conquistar a possibilidade de ter acesso
à TV em boas condições, isto é,
quando eles têm algo a dizer que merece atingir
uma audiência maior e quando se lhes oferecem a
oportunidade e o tempo necessário para dizê-lo.
Creio que seria possível inventar novas formas
de ação pela televisão que sejam
capazes de envolver públicos mais vastos em torno
de assuntos mais difíceis e mais importantes (como
o futuro da economia mundial), mas sob a condição
de mobilizar verdadeiramente todas as capacidades inventivas
dos escritores, dos eruditos e, sobretudo, dos artistas,
e especialmente dos cineastas. É este o tipo de
tarefa na qual deveria se empenhar o intelectual coletivo
tal qual o imagino.
Hoje,
o que não aparece na TV corre o risco de não
atingir a sociedade, tanto no bom quanto no mau sentido?
Bourdieu
Efetivamente, é por isso que todos os que
desejam agir sobre o mundo, ao menos o suficiente para
contrabalançar ou combater a ação
dos que o dominam, devem se questionar seriamente sobre
a questão do bom uso das mídias. Não
é o caso de recusar as mídias, mas de se
perguntar como utilizá-las sem se deixar usar por
elas. É preciso os pesquisadores irem à
televisão, mas dentro de suas conveniências
e suas condições. Há imensos obstáculos,
que não enumerarei para não desencorajar
ou desesperar os que tentam lutar. Penso que já
seria importante que os intelectuais tomem consciência
de que, em sua relação com a televisão,
e mais genericamente, o que está em jogo não
é apenas seu ego, sua notoriedade atual ou potencial,
mas algo infinitamente mais importante politicamente:
a possibilidade de instituir um contrapoder crítico
eficaz, capaz de se exprimir em nome do maior número
de pessoas, as conquistas mais sofisticadas e mais avançadas
da pesquisa científica e artística ou, mais
simplesmente, a possibilidade de oferecer a todos os homens
e a todas as mulheres de todos os países um acesso
mínimo aos produtos mais raros e mais nobres da
reflexão humana. A construção deste
contrapoder só pode ser feita, evidentemente, com
a cumplicidade ou mesmo a participação ativa
da fração mais esclarecida e mais independente
dos jornalistas."
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