Segundo vários críticos do “capitalismo
realmente existente” no Brasil, o País estaria
vivendo, desde o início dos anos 90, sob um
regime “neoliberal”. Não partilho dessa opinião
mas, para todos os efeitos práticos, vamos admitir
que isso seja verdade. Em outros termos, teria
ocorrido, na história econômica brasileira recente,
um corte fundamental – epistemológico, diriam
velhos adeptos do althusserianismo – entre,
de um lado, o que vem sendo pregado, adotado
e realizado em termos de políticas econômicas
há aproximadamente uma década – ou seja, abertura
econômica, liberalização comercial, privatizações,
retirada do Estado de velhos monopólios (nem
tão velhos assim, pois que criados, em sua maior
parte, a partir dos anos 60), interdependência
financeira, negociação de acordos comerciais,
admissão de investimento estrangeiro em setores
anteriormente reservados unicamente ao capital
nacional etc. –, isto é, tudo o que se costuma
designar por “políticas neoliberais”, e, de
outro lado, o que se tinha e conhecia anteriormente
como políticas e práticas do regime “normal”
do capitalismo brasileiro no século XX: restrições
comerciais e protecionismo, lei do similar nacional,
lei de reserva do mercado para informática,
ausência de patenteamento para medicamentos
e biotecnologia de forma geral, impedimentos
constitucionais ao investimento direto estrangeiro
em vários setores, enfim, o que se conhece na
literatura corrente como “desenvolvimento econômico
com autonomia nacional e preservação da soberania”.
Pois
bem, ao ter de aceitar, a partir dos anos 90
e pelas mãos de seus dirigentes políticos, que
a interdependência econômica constitui uma organização
social dotada de maior racionalidade instrumental
do que a autonomia semi-autárquica até então
praticada, o Brasil passou a viver plenamente
a era neoliberal, ou pelo menos passou a ter
de suportar ou conviver com um regime neoliberal.
Em todo caso, é disso que os partidários do
modelo anterior, ou defensores da soberania
nacional, acusam os sucessivos governos desde
o início da presidência Collor. Admitamos, portanto,
que isso corresponda à verdade e que de fato
saímos do purgatório autonomista para o limbo
neoliberal, sem nunca ter alcançado o paraíso
do pleno desenvolvimento econômico e social.
Para
atender aos requisitos do subtítulo deste trabalho
– realizar uma avaliação econômica e política
da era neoliberal no Brasil – nós precisaremos
então colocar essa era neoliberal sob o teste
da realidade, isto é, aferir o desempenho relativo
e as realizações do neoliberalismo no Brasil,
para confirmar se e como tais políticas e práticas
se ajustam efetivamente ao cânone neoliberal.
Será necessário, pois, formular uma série de
perguntas e questões fundamentais que nos permitirão
comparar a era neoliberal com as políticas e
práticas de uma era anterior, assim como com
realizações similares em nossa própria era,
conformando portanto uma análise ao mesmo tempo
sincrônica e diacrônica. Caberia contudo lembrar,
desde o início, que o regime anterior sob o
qual o Brasil estava organizado economicamente
– seja durante o período militar, seja sob a
República de 1946 – não se caracterizava exatamente
pelo estruturalismo econômico – que seria, supostamente,
o oposto do neoliberalismo atual –, mas por
um sistema híbrido, que poderíamos caracterizar
como de “liberal-intervencionismo”, praticado
tanto sob os “czares econômicos da ditadura”
(Roberto Campos, Delfim Netto, Simonsen etc.),
como pelos ministros políticos da Fazenda na
“república populista” que a precedeu.
Questões metodológicas iniciais:
Trata-se de perguntas mais de caráter
metodológico, ou de interesse histórico-conceitual,
do que propriamente operacional, não sendo absolutamente
relevantes para a discussão que se vai seguir:
1.
Teria ocorrido, no início dos anos 90, uma espécie
de “complô neoliberal”, que tomou de assalto
um sistema econômico indefensável, erodido por
anos (décadas?) de fracasso inflacionário e
abandonado pelos patrocinadores do ancien régime
não-neoliberal, isto é, liberal-intervencionista?
Não é a opinião deste autor, que
acredita que o mais provável é que tenha ocorrido
uma transição natural e necessária do velho
protecionismo-estatismo a um conjunto de princípios
e práticas que começaram de fato a romper com
o déjà vu daquele antigo regime.
2.
A implementação – alguns diriam a irrupção –
desses princípios e práticas neoliberais representou
uma espécie de importação clandestina ou sub-reptícia,
e de certa forma “forçada”, de “idéias fora
do lugar”, isto é, uma ideologia estranha e
intrusiva, talvez associada ao chamado “consenso
de Washington”, ou ainda um tipo de “gripe espanhola
ideológica”, que passou a contaminar irrevogavelmente
o conjunto dos tecnocratas e economistas públicos
do País?
Tampouco partilho desta opinião,
e creio mesmo que existiam, no estamento tecno-burocrático
brasileiro, como nas imensas coortes de economistas
acadêmicos e práticos, suficientes elementos
“neoliberais” (talvez embutidos, em outros casos
já de forma aberta), o que justamente explicaria
como o neoliberalismo tomou facilmente “de assalto”
os bastiões do poder político no Brasil. Em
outros termos, a antiga predominância ideológica
do “estruturalismo” e da industrialização cepalina
não teve de lutar nas trincheiras contra o inimigo
ideológico neoliberal, mas foi gradualmente
submergida a partir de dentro, por economistas
e políticos já “assumidos” e comprometidos com
os princípios essenciais do neoliberalismo.
O núcleo duro do neoliberalismo no Brasil e seu desempenho histórico:
3.
Qual foi o desempenho efetivo do neoliberalismo
nos anos 90?; cumpriu ele o que prometia, foi
eficiente no fornecimento de seus serviços econômicos,
políticos e sociais, enfim, correspondeu ao
que se esperava dele?
De modo geral, pode-se dizer que
sim, com algumas insuficiências localizadas,
talvez explicáveis pelo ambiente de crise financeira
externa e pela própria magnitude dos desafios
que o aguardavam desde o final dos anos 80.
Não ocorreram grandes desastres do neoliberalismo,
como podem ter ocorrido em países vizinhos ou
em regiões mais distantes, mas tampouco os resultados
foram espetaculares, pelo menos no julgamento
imediato. Talvez uma perspectiva histórica de
maior alcance nos permitirá, no futuro, aferir
a amplitude das transformações ocorridas nos
anos 90 – processo que já foi descrito, por
partidários e opositores dessa realidade, como
de “desmantelamento do Estado varguista” –,
mas caberia registrar, no momento, a modéstia
do crescimento ou a insuficiência aparente das
transformações estruturais.
Os resultados mais significativos
foram no terreno da luta anti-inflacionária
e da recuperação do poder da moeda como elemento
de referência e reserva de valor, com os pequenos
sobressaltos eventuais que seriam normais de
se esperar de um país tradicionalmente acostumado
(e drogado) a mecanismos indexadores e a uma
certa permissividade emissionista. Mas, no campo
regulatório as mudanças foram igualmente importantes,
com diversas emendas constitucionais desmantelando
décadas de uma cultura estatal enraizada na
consciência coletiva (a ponto de grandes líderes
políticos defenderem ferrenhamente a preservação
do monopólio estatal na área de telecomunicações
ou a manutenção de companhia estatal de minério
de ferro como sendo de “alto caráter estratégico”
para o País). No terreno da reforma administrativa
e previdenciária, as mudanças foram menos completas
ou definitivas, mas ainda assim os progressos
do “neoliberalismo” foram sensíveis.
4.
O neoliberalismo trouxe crescimento e desenvolvimento
tecnológico ao Brasil?
Os avanços tecnológicos e os aumentos
de produtividade foram inegáveis, mas em termos
de crescimento, a resposta tem de ser mais matizada.
Vejamos: a taxa de crescimento não correspondeu
ao que se poderia esperar de um “país emergente”
como o Brasil, que tinha crescido na era militar
e mesmo antes dela a taxas anuais que eram notoriamente
superiores às do aumento anual da população.
Caberia descontar os vários processos de ajuste
conhecidos nos anos 90, resultantes dos programas
de estabilização tentados em seu início e em
meados da década, assim como os choques externos
(a partir do México em 94-95) que impactaram
bastante o fluxo normal das atividades econômicas
nessa década.
O que os críticos costumam chamar
de “fracasso do neoliberalismo” no Brasil refere-se
portanto a essas taxas modestas, ou medíocres,
de crescimento econômico, quando o País teria
necessidade do dobro, ou do triplo, para absorver
o exército industrial de reserva e acomodar
todos os novos entrantes na população economicamente
ativa. Em defesa do neoliberalismo se poderia
argumentar que ele está mais preocupado com
a estabilização macroeconômica do que com o
atendimento de indicadores positivos no grau
de ocupação da força de trabalho, mas essa não
é a questão real. Se pensarmos na magnitude
da obra de desmantelamento dos comportamentos
indexacionistas e na da própria cultura inflacionária
no Brasil, teremos idéia do quanto foi realizado
na segunda metade dos anos 90: pela primeira
vez em muitas décadas, talvez até historicamente
na República, a moeda correspondeu a uma expressão
de valor visível, aferida contabilmente, quem
sabe até desfrutando da confiança dos brasileiros.
Isso não é pouco como realização “neoliberal”
e o desempenho do crescimento econômico precisa
portanto ser medido segundo o critério da estabilidade,
novo valor fundamental da política econômica
governamental.
5.
O neoliberalismo conseguiu reduzir as imensas
desigualdades regionais e sociais existentes
historicamente no Brasil?
A resposta deveria ser não, mas ainda
aqui seria preciso considerar, em primeiro lugar,
que não correspondia à “missão histórica” do
neoliberalismo a implementação de vastos programas
de correção de desigualdades econômicas e sociais.
Sua “agenda de trabalho”, digamos assim, estava
concentrada no esforço, bem sucedido, como vimos,
de estabilização macroeconômica e de estabelecimento
das condições mínimas para a retomada do crescimento
(este foi perturbado pela ocorrência de choques
financeiros externos, como também constatamos).
A correção das desigualdades sociais e regionais
deve integrar uma vasta panóplia de políticas
setoriais e estruturais, com componentes institucionais,
fiscais, tributários, distributivos, compensatórios
(enfim, várias outras medidas e políticas de
caráter “intervencionista”), que superam em
muito a modesta racionalidade instrumental do
neoliberalismo.
De toda forma, a redução ou eliminação
do imposto inflacionário já correspondeu a um
passo inicial na correção das desigualdades
sociais no Brasil, uma vez que os índices inaceitáveis
de concentração de renda estão em parte associados
a esse “imposto”, ainda que outros fatores tenham
de ser igualmente levados em conta (práticas
altamente regressivas na área social e na alocação
de dotações públicas, por exemplo). No campo
das políticas regionais, por sua vez, a era
neoliberal assistiu a um dos mais vigorosos
processos de descentralização industrial e de
redistribuição espacial de atividades econômicas
já registradas em toda a história do País, equivalentes,
talvez, ao ciclo do ouro, à expansão da economia
cafeeira ou, de modo negativo, à própria centralização
industrial no Sudeste nas primeiras décadas
da era republicana. Trata-se aqui, como em outros
campos, de algo que apenas poderá ser apreciado
devidamente com o recuo suficiente do tempo.
6.
As políticas neoliberais melhoraram a qualidade
da gestão macroeconômica no Brasil?
Otimisticamente, e talvez mesmo inequivocamente,
sim. Nunca, em qualquer época, a despeito do
aparente e alegado “desmantelamento do Estado”,
a gestão macroeconômica dispôs de condições
tão favoráveis para o exercício daquela que
talvez seja a função básica do governante: conceber,
aprovar, implementar e monitorar a execução
de um orçamento público, dotado dos requisitos
normalmente associados a esse conceito. A importância
dessa realização não é suficientemente apreciada
mesmo entre a classe política, acostumada a
décadas de orçamento fictício (quando não contribuía
ela mesma para a erosão desse conceito essencial
da administração pública), e menos ainda na
oposição, bem mais permissiva em matéria de
“investimentos sociais” ou mesmo partidária
de se lograr um trade-off
“aceitável” entre inflação e crescimento. O
Brasil, pela primeira vez em muitas décadas,
começa a medir a magnitude real dos recursos
públicos, e portanto os limites ao exercício
da “vontade geral” embutida na administração
pública. A Lei de Responsabilidade Fiscal, peça
central do “neoliberalismo”, desempenha papel
importante nessa correção de rumos.
7.
O neoliberalismo aperfeiçoou o desempenho geral
do sistema econômico brasileiro?
Certamente.
Isso foi feito mediante as privatizações, desmonopolizações,
criação de um novo ambiente regulatório em áreas
tão diversas quanto a indústria siderúrgica,
os serviços e telecomunicações, portuário e
outras, o que por sua vez permitiu incrementar
as atividades nas indústrias e serviços de informações
e de tecnologias da comunicação. Ou seja, mediante
uma série de ações ousadas nos campos da desestatização
e da desregulação ‑ medidas que se situam
no coração mesmo daquilo que os detratores ideológicos
condenam no neoliberalismo ‑, este conseguiu
elevar os padrões de qualidade de setores inteiros
do sistema econômico brasileiro. A ameaça da
“desnacionalização”, a alegada “cessão de soberania”,
a “redução tarifária unilateral” e outras práticas
consideradas nefastas pelos adversários ideológicos
do neoliberalismo não foram consideradas tão
“letais” a ponto de induzir a população brasileira
a rejeitar de modo decisivo o “neoliberalismo”,
que terminou amplamente vitorioso em 1994 e
em 1998. Visto nessa perspectiva dos detratores,
o neoliberalismo conduziu o mais formidável
“assalto” ao Estado intervencionista que se
realizou no Brasil praticamente desde a assunção
da autonomia política em 1822. Em nenhuma outra
época (no passado, obviamente) os agentes econômicos
puderam realizar tão bem aquilo que constitui
sua missão histórica indiscutível em qualquer
regime capitalista digno desse nome: investir,
recolher os frutos desse investimento inicial,
reinvestir, expandir atividades.
As muitas frustrações registradas
no processo (até aqui parcial) de aperfeiçoamento
do sistema econômico brasileiro não devem ser
creditadas ao neoliberalismo, e sim ao seu contrário,
ou seja: a excessiva intervenção remanescente
do Estado na vida econômica, sob a forma de
regulações e em especial mediante uma tributação
tão extorsiva quanto irracional, pois que penalizando
a cadeia produtiva e a atividade exportadora.
O neoliberalismo precisa avançar nessas áreas,
para que sua “missão liberadora” possa ser concretizada
também nessas frentes.
8.
O neoliberalismo fez piorar as condições gerais
do panorama social brasileiro?
Não exatamente, talvez até mesmo
o contrário. O “neoliberalismo” (mas, de fato,
este aspecto também faz parte do Estado intervencionista)
melhorou o desempenho do orçamento público e
continuou os investimentos sociais necessários
à minimização do tremendo grau de iniquidade
social que ainda caracteriza o Brasil. Com isso,
os indicadores sociais apresentaram, na grande
maioria dos casos, melhorias visíveis e mesmo
rápidas, inclusive no que se refere ao consumo
de bens correntes e duráveis. Na verdade, a
eliminação do imposto inflacionário – que foi
o fator singular mais importante na melhoria
desses condições sociais – não deveria ser vista
como fazendo parte de uma agenda exclusivamente
neoliberal, mas deveria ser suscetível de integrar
qualquer programa de ação das principais forças
políticas e ideológicas do País. O fato é que,
na nossa história política, a esquerda tem sido
extremamente leniente e tolerante no que se
refere à derrapagem inflacionária e ao deslize
emissionista, mais em todo caso do que os neoliberais
contemporâneos.
O
desemprego, que é a conseqüência do não crescimento
sustentado nos últimos anos, tem sido apontado
como o mais evidente fracasso do neoliberalismo
no Brasil, ao lado da mais tradicional concentração
de renda. O aumento da criminalidade nos grandes
centros urbanos também poderia indicar uma deterioração
geral das condições de vida, e portanto refletiria
mais um dos fracassos do neoliberalismo posto
em prática. Entretanto, um neoliberal convicto
poderia responder que a elevação da taxa de
desemprego se deve, precisamente, à não aplicação
do receituário neoliberal, que no caso recomendaria
a flexibilização da regras vigentes no mercado
de trabalho, manifestamente regulamentado e
onerado em demasia no Brasil. A criminalidade
se explicaria, por outro lado, mais pelo não
equipamento e organização das polícias – áreas
as quais o neoliberal nunca apontou como carentes
de desregulação ou “desestatização” – do que
pelas condições de pobreza das camadas subalternas
urbanas.
Questões de sustentabilidade interna e externa do neoliberalismo no Brasil:
9.
O neoliberalismo agravou a concentração de renda
e as desigualdades sociais?
De forma alguma, no máximo ele foi
neutro em relação a esses dois aspectos mais
gritantes das iniquidades sociais extremamente
graves do Brasil. O coeficiente de Gini tem
sido teimosamente estável no Brasil, como a
indicar que ele depende mais de fatores estruturais
e de políticas setoriais e redistributivas,
do que propriamente de políticas de ajuste fiscal
ou de estabilização macroeconômica. De fato,
ocorreu uma pequena melhora na primeira fase
de implementação do Plano Real, mas depois o
índice de Gini foi mais o menos o mesmo a que
estamos acostumados há quase três décadas: em
torno de 61 ou 62.
Pode-se, portanto, condenar o neoliberalismo
por não ter transformado o índice que revela
todas as nossas mazelas “africanas”, mas não
por agravar o panorama social do ponto de vista
redistributivo. Poderia ele fazer mais e melhor
numa área que costuma ser marcada por políticas
ativas por parte dos poderes públicos? Certamente,
mas aí temos de considerar não apenas a ação
exclusiva do executivo federal, como também
a nefasta mobilização dos mesmos privilegiados
de sempre na defesa de sua parte na torta das
despesas federais: categorias sociais, profissionais
e corporativas entranhadas no aparelho de estado,
assalto constante de grupos de interesse em
programas de “apoio” a determinadas atividades
econômicas, velhos conhecidos do estado cartorial
quatrocentão que defendem como podem a parte
que lhes cabe desse latifúndio imenso que é
o Brasil. Na verdade, uma política mais ativa
de redistribuição de renda em favor das camadas
subalternas certamente passaria por uma “extração”
mais penosa de recursos da classe média, a única
em condições de ser ordenhada com relativa facilidade
pelo poder público, o que coloca de imediato
a questão da legitimidade e da sustentabilidade
política desse tipo de “extorsão” sobre os mesmos
pagantes de sempre, em condições de plafonnement
da capacidade tributável da população incluída
na base fiscal da Receita.
O neoliberalismo recomendaria, ao
contrário, um alívio no grau de extorsão, mas
é verdade que ele tem se revelado menos eficiente
no redirecionamento dos canais redistributivos.
Talvez essa correção das desigualdades devesse
passar, então, pelo aumento extraordinário dos
investimentos em educação e capacitação profissional,
os únicos capazes de alterar verdadeiramente
o perfil da distribuição da renda no Brasil,
mas essa opção tem o inconveniente de ser irritantemente
longa para os padrões conhecidos de impaciência
com a “questão social”.
10.
O neoliberalismo agravou a fragilidade externa
do Brasil?
Talvez, mas as respostas aqui não
são conclusivas, uma vez que se deve separar
fatores contingentes das políticas implementadas,
fatores estruturais da características brasileira
de desenvolvimento econômico e fatores conjunturais
das crises financeiras dos anos 90. O fato é
que, a partir da implementação do Plano Real
em 1994, e da relativa valorização do real nos
quatro primeiros anos do processo de estabilização,
a balança comercial apresentou sensível deterioração,
não sendo mais capaz de compensar, o que antes
ocorria, o tradicional déficit dos serviços
e rendas do capital em que incorre o Brasil
desde que nos conhecemos como nação. Em conseqüência,
o saldo negativo das transações correntes tornou-se
enorme, e teve de ser compensado por entradas
maciças de capitais externos, muitas vezes de
curto prazo, mas também com muita ênfase em
fluxos de risco, o geralmente mais bem vindo
(não para a esquerda econômica) investimento
estrangeiro direto. A dependência financeira
externa tornou-se portanto maior e com ela o
recurso aos juros altos para atrair ou reter
capital volátil: os anos 90 foram, sem dúvida,
os anos de déficits externos e de malabarismos
cambiais, com o recurso eventual ao FMI para
compensar os riscos de insolvência externa.
Deve-se contudo observar que não
há nada de intrinsecamente neoliberal (ou de
keynesiano) na acumulação de déficits externos.
Trata-se de elemento “estrutural” ou “conjuntural”,
segundo as épocas, regimes de câmbio e controles
sobre movimentos de capitais: diferentes economias
podem acumular saldos negativos nas contas comerciais,
de serviços ou de capitais, independentemente
de sua interação com o mundo ou de seu coeficiente
de abertura externa. Assim, pode ser lembrado
que a mesma fragilidade financeira externa já
tinha ocorrido no Brasil em outras épocas –
durante a crise da dívida dos anos 80, ou na
crise do petróleo dos 70, por exemplo – em condições
de saldo comercial relativamente alto, o que
não foi impedimento, contudo, para moratórias
de fato. Não se pode assim imputar às políticas
neoliberais dos anos 90 a responsabilidade por
um quadro de desequilíbrios externos e de fragilidade
financeira que já tinha ocorrido em épocas de
“liberal-intervencionismo” ou de “estruturalismo
claudicante”.
Em resumo, nem todas as mazelas sociais
e os problemas econômicos acumulados no Brasil
“neoliberal” podem ou devem ser atribuídos ao
neoliberalismo, em particular a pobreza generalizada,
a corrupção, os baixos níveis educacionais,
o não funcionamento da justiça, a esclerose
administrativa, a insuficiência dos serviços
de saúde e previdenciários, a criminalidade
rampante, os surtos de dengue ou a decadência
do futebol. Existem problemas seculares, outros
criados ao longo de um regime republicano pouco
propenso a estimular as virtudes cívicas dos
cidadãos, alguns derivados da ditadura e vários
outros criados nos anos de populismo constitucional-democrático,
a maior parte deles “made in Brazil”, e não
importados pela onda globalizante que conviveu
com o neoliberalismo nos tormentosos anos 90.
O funcionamento deficiente do nosso legislativo,
a inoperância gritante da justiça, os absurdos
do mercado laboral são males que, como diria
Nelson Rodrigues, não se improvisam, mas resultam
do acúmulo de anos e anos – que digo?, décadas
– de erros gerenciais e de incapacidade das
lideranças políticas em corrigi-los.
Em resumo, qualquer neoliberal de
boa cepa concordaria em que os mercados não
podem tudo, e que um Estado eficiente e dispensador
de bens públicos é essencial para o bom funcionamento
desses mesmos mercados, sobretudo em seus aspectos
regulatórios e concorrenciais. O tamanho do
governo importa menos ao neoliberal do que seu
modo de funcionamento e sua eficácia relativa,
o que se choca em geral com a cultura de esquerda,
que costuma ver em qualquer reforma administrativa
e gerencial um ataque frontal contra direitos
adquiridos, em especial o sacrossanto direito
à estabilidade e a uma pensão mais generosa
do que os salários de contribuição.
Enfim, a verdade é que o liberalismo,
velho ou novo, ainda não fez suas provas no
Brasil, pela simples razão de que ele quase
nunca foi aplicado de forma consistente e persistente
ao longo de nossa história. De fato, os verdadeiros
desafios do neoliberalismo no Brasil ainda estão
por vir e seu horizonte de aplicação deve ser
visto mais em direção do futuro do que num retrospecto
do passado recente.
À
guisa de conclusão: a insustentável leveza teórica
do neoliberalismo no Brasil
11. As idéias neoliberais tornaram-se dominantes na sociedade e na cultura
brasileira?
Ainda não, e de toda forma de modo
nenhum nas universidades, que – com as honrosas
exceções de sempre, em especial nas áreas técnicas
(e em algumas faculdades de economia) – continuam
a ostentar as mesmas idéias exibidas em meus
tempos de curso universitário (final dos anos
60, início dos 70). Essas idéias se caracterizam
por uma mistura curiosa de marxismo confusionista,
nacionalismo instintivo, anti-imperialismo (ou
melhor, anti-americanismo) evidente e uma natural
propensão a atribuir ao Estado (de fato ao governo
em vigor, invariavelmente descrito como neoliberal,
independentemente das épocas) a origem de todas
as mazelas que marcam nossa sociedade.
Assim, a despeito de todos os furiosos
ataques contra o neoliberalismo (como se ele
de fato ocupasse o poder no Brasil), nossa ação
pública, nas diversas vertentes do espectro
político, continua a ostentar os mesmos vícios
intervencionistas e dirigistas que caracterizaram
o País desde sua constituição independente e
de fato a própria nação desde seu nascimento
no bojo do cartorialismo português. Não é certo,
portanto, que as idéias do neoliberalismo tenham
algum futuro brilhante pela frente, mas parece
evidente que elas não têm nenhum passado no
Brasil.