A
chamada televisão
aberta vem colocando o ganho pela audiência acima
de qualquer princípio ético-moral e estético. Já sabemos
ser ela um veículo narcísico, isto é, a tv vive do
espetáculo visual. A história ou a notícia tem papéis
secundários. Na telinha o que é visto não é necessariamente
o que deveria ser mostrado. Nela, a parte o sistema
capitalista na qual se fundamenta, há uma sobre ideologia
que domina: o belo, o exagero, o grotesco, a manipulação
maniqueista do Bem contra o Mal e o descartável.
Na
televisão brasileira, o que falta de interesse em
elevar a cultura do povo sobra em preocupação estética
(onde o belo pode ser belo, mas também pode ser grotesco). Ninguém duvida que fazemos as
melhores teledramaturgias do mundo. Mas, seu foco
principal de preocupação é saber como proporcionar
mais entretenimento, isto é, "o circo".
Onde não há pão que pelo menos tenham circo. A entrevista
de Silvio Santos à revista Veja, anos atrás, revela
qual ideologia que norteia a tv brasileira, diferente
daquela realizada na Inglaterra e demais países europeus.
Com
o atual modismo do "realismo show" (reality
show) dos programas, No
Limite, Casa dos Artistas, Big Brother, etc. a
televisão aboliu de vez o tênue limite entre o real e o virtual. Em No
limite, a sobrevivência era algo racionalizado
ou calculado para os participante, o fundo ecológico
exótico ajudava na gratificação visual do espectador.
No Casa dos Artistas, chamou a atenção o fato dos voluntários reclusos
conviverem numa casa com tudo - menos uma biblioteca.
Já no Big Brother, para compensar a falta de uma biblioteca
na casa, os participantes podem levar um livro.
O
que há de comum nesse tipo de programa é que todos
os candidatos abrem mão de sua privacidade e é autorizada
transgredir a privacidade alheia. Os espaços físicos
e psicológicos são invadidos a todo o momento. Um
exemplo mais forte do Big Brother que causou constrangimento
entre os participantes e na audiência, foi quando
o grupo entrou no carro para testar a resistência
física e psíquica para ganhar o carro, o que só foi
conseguido após 14 horas de permanência dentro do
veículo. Tudo isso quando somada a uma hollywoodização
de cenário, dando a ilusão ao telespectador estar
tendo acesso ao "mundo real" dos outros
como se fosse o "mundo verdadeiro". Qualquer
ingênuo sabe que há algo de teatralismo histérico
e exibicionismo dos participantes,
já que todos sabem que estão sendo filmados,
mas um quantum
de gozo é obtido em ver. O voyerismo banal e compulsivo
do telespectador certamente é maior (76%) que qualquer
interesse científico ancorado na Psicologia Social,
Antropologia ou Sociologia, até porque os personagens
são uniformes(do meio artístico, logo mesma linguagem,
mesma banalidade, etc) não tem história diferente
pra contar e muito pouco podem oferecer de lição de
vida.
Alguém
levantou uma hipótese que diz que o reality
show está se apropriando das pulsões perversas
voyeristas do público que assiste tais programas.
Há uma outra que vê na televisão em geral um
poder extraordinário de mudar hábitos podendo
até mesmo criar uma nova moral. O panóptico televisivo
do "realismo show" mistura-se ao suspense
hitchoquiano; o banal vira uma expectativa de novidade,
as cenas explícitas de pré cópula entre participantes
que se afinam são mais interessantes que a cópula
em si. Enfim,
o que interessa para a inteligência que conduz o programa
é a audiência, prender a atenção do telespectador,
consumir as imagens, potencializá-las em produtos
de venda. No fundo, só existe esse tipo de televisão
porque há um público faminto de intimidades alheias.
É um time de solitários que goza em exercer seu voyerismo.
Com a "tv realidade", o voyerismo saiu do
universo vergonhoso (ou ser vergonha?); saiu da psicopatologia
social e ganhou um espaço industrializado, publicamente
aceitável e lucrativo.
Suspeito
que os programas de realismo show teriam se inspirado
nos experimentos de Psicólogo Social, décadas atrás
por P. Zimbardo, filmados primeiro em laboratório
e agora reprojetado em uma casa montada, filmado a
maior parte das situações e depois levada pela tv
com a autorização dos participantes. Aqui passou no
GNT, em 3 partes, com o nome de Zoológico
Humano, onde o interesse parecia ser mais científico
que comercial. Tanto nos programas comerciais como
naquele cuja finalidade é a pesquisa científica sobre
o homem x sociedade, o fator determinante é o olhar do espectador; se este for treinado, ou se tiver interesse
teórico-reflexivo ou em fazer um leitura de como o
ser humano lida com as situações de/em grupo, quem
é feito líder, quem é feito "carneirinho"
que apenas obedece, etc, vale a pena acompanhar e
discutir.
Também
o filme, Ed Tv,
conta a primeira experiência, nos EUA, do "realismo
show " na televisão. Executivos ávidos por audiência
a qualquer preço contratam um rapaz extrovertido para
ser seguido por câmeras, que, ao vivo, transmite para
o público sua aventura no cotidiano, suas relações
familiares, enfim, uma pessoa comum e as situações
banais da vida, ganham estatus e visibilidade televisiva.
Mas, o que no início era só necessidade de ganhar
um dinheirinho e curtição da juventude, em pouco tempo
a vida de Ed torna-se um inferno. O "Ed pessoa"
se confunde com o "Ed protagonista" da televisão.
Num primeiro momento "Ed pessoa"
não se importa de promover sua privacidade - a evasão
de privacidade. Após
ter passado esse momento de euforia narcísica,
Ed começa a ser sentir tragado pelo protagonista;
ele nunca havia se preparado psicologicamente para
fazer sumir sua identidade pessoal como um fato social
marcado pelo desejo dos outros (digo, dos executivos
da tv e do público que o acompanha com entusiasmo).
Gradativamente a sensação de esvaziamento de sua própria
identidade e a sensação de estar 24 horas sendo perseguido
pelo olhar persecutório do público e da câmera como
sua sombra, leva-lhe a um estado crítico de pré-psicose.
Mchullan havia previsto esse fenômeno ao dizer que
todos querem ter o seu segundo de fama. Mas, como
ele não era psicanalista e nem psiquiatra, não previu
as conseqüências psicopatológicas dessa exposição
full time de
quem não tem vocação nem foi preparado para suportar
tal exposição.
Ora,
o ser humano precisa tanto de uma certa dose de exposição
social como também de privacidade, que é a condição
de sua própria sobrevivência psíquica. Sem a privacidade,
qualquer sujeito pode ficar louco. Aliás, é um mínimo
de privacidade que nos garante a nossa condição de
sujeito. O contrário é o eu (ego). Em psicanálise,
o sujeito é "o sujeito do desejo" que Freud
descobriu no inconsciente. Enquanto que o eu (ego)
se situa em um eixo imaginário em oposição a sua própria
imagem (o pequeno outro, de Lacan), "o sujeito
ex-siste na linguagem". Ou a fórmula de Freud,
pensando um processo de psicanálise: "Onde está
o império do instinto animal, o sujeito humano deverá
advir".