Crônica
sobre o Fórum Social Mundial
O
Fórum Social Mundial foi criticado
pelo lado festivo e alegre que uma agregação
deste tipo promove. E quem disse que esquerda
é sinônimo de sisudez? É
verdade que a militância de esquerda é
comumente identificada com comportamentos caracterizados
pela seriedade além da conta e mesmo por
uma disciplina militarista. Mas, a bem da verdade,
chatos e mal-humorados existem em toda parte:
não é uma particularidade que defina
a esquerda, nem é patrimônio nosso.
Como em todos os campos das atividades humanas,
há quem se comporte de uma maneira que
justifique tais críticas. São os
cavaleiros do apocalipse, cuja austeridade se
assemelha à fé puritana. Exigem
uma devoção à causa nem sempre
coerentes com os comportamentos individuais. Suas
conversas beiram a chatice própria dos
monólogos sobre teorias tidas como verdades
absolutas a priori. Com discursos prontos,
fazem de conta que dialogam. Leitores de um só
autor, têm horror a tudo que expresse dúvida.
Suas certezas são como uma tábua
de salvação.
Nem
tudo é tão grave quanto os salvadores
da humanidade imaginam. O Fórum Social
Mundial também teve o seu lado exótico
e pitoresco. Afinal, é do humano que se
trata. Uns chamavam a atenção, até
mesmo dos fotógrafos, pela fantasia que
usavam. Foi o caso de um senhor que representou
o mosquito da dengue e fez uma crítica
bem-humorada ao presidenciável José
Serra.
Numa
das oficinas, com a sala completamente lotada,
mas com muita gente querendo entrar, chegou-se
ao seguinte impasse: manter a porta aberta ou
fechada? Fechá-la, logo decidiu um desses
militantes aguerridos que, sem contrangimento,
assumiu o papel de porteiro. Ouviram-se
algumas vozes descontentes, mas corajosas, que
ousavam desafiar o nosso porteiro. Quase
que se instaurou uma polêmica. Sem delongas,
ele informou que era preciso que assim fosse para
que a sala tivesse o mínimo de conforto,
já que o ar condicionado funcionaria a
contento. E assim ficou...
As
atenções voltaram-se para os palestrantes.
Contudo, talvez porque o calor persistisse - a
despeito da porta fechada e do ar condicionado
-, talvez pela superlotação da sala,
talvez porque descobrissem que temas e oradores
não correspondiam às expectativas,
vez ou outra alguém levantava e com dificuldade,
quase que pisando nas pessoas estendidas no chão,
se dirigiam à porta para sair. Lá,
encontravam nosso inflexível companheiro
que informava à pessoa que ela não
poderia sair naquele momento, que esperasse mais
um pouco. Se a pessoa retrucava, ele argumentava
que tudo aquilo era pelo bom desenvolvimento dos
trabalhos, que se abrisse a porta muitos dos que
estavam fora iriam querer adentrar e que estes
movimentos de entra e sai atrapalhavam os trabalhos.
Uma senhora não ousou retrucar e esperou
até que o porteiro permitisse a sua saída
(apenas quando terminou a intervenção
de um dos membros da mesa). Alguém pediu
ao companheiro que deixasse a porta livre. Ele
se manteve impassível.
Logo
outro ouvinte levantou-se e dirigiu-se à
porta. Foi barrado! Os mesmos argumentos foram
repetidos. Dessa vez, o nosso porteiro teve bom
senso e permitiu a saída. É bem
provável que a estatura do seu oponente
tenha contribuído para tal decisão:
o homem parecia ter saído daqueles filmes
de gladiadores.
Aquilo
já estava constrangendo algumas pessoas
da platéia. De repente, um dos organizadores
da oficina caminhou até a porta, sempre
com cuidado para não pisar nos que estavam
sentados no chão. Alguns devem ter imaginado
que ele iria convencer o nosso porteiro a desistir
de tal função. Não, ele foi
ajudá-lo: a porta permaneceu fechada e,
agora, com dois porteiros, um do lado de fora
e outro dentro. Ironicamente o tema discutido
era a democracia!
Noutra
oficina, após as longas falações
dos diversos membros da mesa, abriu-se - finalmente!
- a inscrição para a platéia.
Um jovem pediu a palavra e teceu vários
comentários sobre o papel revolucionário
da juventude e inquiria os participantes da mesa
a se pronunciarem. Quando a palavra retornou aos
oradores, alguém respeitosamente tocou
no tema levantado pelo jovem. Este estava literalmente
roncando. Alguém brincou: eis a revolução
adormecida!
De
outra feita, após ouvir cerca de dez pessoas,
falando em média 15 minutos cada, alguns
extrapolando o tempo, a coordenação
dos trabalhos abriu a palavra ao público
e informou que a intervenção dos
inscritos deveria respeitar o tempo de um a três
minutos. Gerou-se uma polêmica sobre o tempo
a ser usado por cada orador. Um ouvinte perspicaz
explicou que estipular o tempo entre um e três
minutos não significava que a pessoa era
obrigada a usar os três minutos. E, em tom
de brincadeira, complementou: "Quem usar
menos de três minutos ganhará uma
revista de brinde" (a publicação
foi divulgada durante o evento e, evidentemente,
era literatura de esquerda). Ao ouvir essa proposta,
um jovem sentado à frente, sem que o seu
interlocutor o ouvisse, jocosamente afirmou: "É
melhor ultrapassar os três minutos!"
Nesta
mesma atividade, um dos presentes fez uma intervenção
dirigindo-se a um membro específico dos
participantes da mesa. Quando os palestrantes
retomaram a palavra, um dos oradores considerou
que era pertinente comentar a questão levantada,
já que tratava de temas análogos.
O companheiro interrompeu-o bruscamente e informou
que a pergunta não era para o mesmo, mas
para fulano. O constrangimento criado não
anula o lado pitoresco do episódio.
Outros
episódios engraçados ocorreram.
Talvez fosse o caso de registrá-los a partir
dos depoimentos de outras pessoas que participaram
do Fórum. Você se candidata a fazê-lo?
Escreva-nos...
Da
nossa parte, é importante esclarecer que
nosso objetivo não foi ofender quem quer
que seja, mas apenas mostrar um pouco o lado hilariante
do Fórum. Se você protagonizou um
desses episódios quixotescos, por favor,
não se irrite. Rir também é
um ato revolucionário.