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Fórum
Social Mundial: novos
desafios, velhos dilemas
O
Fórum Social Mundial, realizado
em Porto Alegre-RS, nos dias 31 de janeiro a 05
de fevereiro, reuniu cerca de 50 mil pessoas vindas
de todas as partes do mundo. Foram cerca de 800
conferências, oficinas e seminários,
e duas passeatas - na abertura e no penúltimo
dia, contra a Alca - com a participação
de milhares de pessoas que caminharam pelas ruas
de Porto Alegre em clima de protesto, mas alegres
e tranquilos.
O
tom dissonante foi dado por um pequeno grupo que
entrou em atrito logo após o discurso do
presidente da UNE, vaiado por uma parcela do público.
Coisas da política estudantil. Mas este
episódio não teve o alcance que
a grande imprensa deu na cobertura do Fórum,
especialmente da passeata contra a Alca. Ficou
nítido como a imprensa desvirtua um acontecimento
enfatizando um dos seus aspectos conforme seus
interesses. A tão propalada imparcialidade
dos órgãos de imprensa mostrou-se,
mais uma vez, uma falácia. Quem acompanhou
toda esta movimentação apenas pela
imprensa correu sério risco de ser mal-informado.
Mesmo
quem estava presente no Fórum teve dificuldades
de construir uma visão de conjunto, a não
ser que fosse membro da sua organização
ou tivesse acesso aos bastidores. As conferências,
seminários, oficinas e testemunhos, ocorreram
em vários locais, dispersos por toda a
capital gaúcha. Só a posteriori,
analisando os informes e artigos sobre o Fórum,
das mais diversas procedências e matizes
políticas-ideológicas, é
que se tornará possível ter uma
visão global do real significado e importância
deste evento. Isto não impede que as pessoas
tenham opiniões divergentes sobre o Fórum
ou até mesmo que determinados profetas
tenham antecipado conclusões, antes mesmo
do seu início. Uns vaticinaram que um encontro
mundial deste tipo só poderia resultar
na reafirmação de teses jurássicas.
Outros,
que recusam veementemente o epíteto de
jurássicos, profetizaram que nada
de muito importante poderia resultar de tal evento
hegemonizado pelas teses reformistas e participacionistas,
simbolizadas por temas como o Orçamento
Participativo e a afirmação da cidadania.
Estes também não foram ao Fórum
- embora não tenham tido espaço
na grande imprensa, como os primeiros. O interessante
é que seus militantes distribuíam
uma carta explicando o porque da não participação
e arrolando suas críticas ao mesmo. Por
que perder tempo com algo que, a julgar por procedimentos
de uns e outros, nada mais era que um natimorto
e não se justificava?
A
realidade é mais complexa do que imaginam
os profetas de plantão. Os que foram ao
Fórum não constituem um todo homogêneo.
A imagem que melhor expressa a multiplicadade
de forças políticas que participaram
do Fórum talvez seja a de um caleidoscópio.
A grosso modo, o evento dividiu-se entre reformistas
e revolucionários, considerando-se, como
o caleidoscópio, a possibilidade de inúmeras
combinações que rompem as unilateralidades.
Numa das oficinas que participamos, por exemplo,
ouvimos falas contra os setores à esquerda
que enfatizam aspectos como o Orçamento
Participativo e a perspectiva eleitoral. Um dos
ouvintes lembrou que estávamos num Estado
e numa cidade governada pelo Partido dos Trabalhadores
e que este fator não podia ser desconsiderado
quanto às facilidades de organização
e mesmo da segurança do evento.
Um
outro mundo é possível!, eis
o lema do Fórum Social Mundial. Qual mundo?
Isto significa o aprofudamento da democracia e
da cidadania, um melhoramento das condições
de vida e de trabalho das populações
à maneira do Estado de bem-estar social?
Siginfica fortalecer e reafirmar as teses sociais-democratas,
as instituições do Estado e o caminho
eleitoral para transformações sociais
palpáveis?
Para
amplos setores da esquerda as respostas a estas
questões passa pela reafirmação
do socialismo. Para estes, um outro mundo não
só é possível, como é
preciso. Mas, Um outro mundo é possível
somente com socialismo! Não, não
é uma mera questão semântica,
um preciosismo teórico: trata-se de opções
políticas divergentes que determinam a
estratégia e a tática adotada para
se contrapor à globalização
capitaneada por interesses poderosos em todo o
mundo.
Embora
a conjuntura seja outra e os desafios a enfrentar
não sejam os mesmos com os quais a esquerda
se defrontou em seus primórdios, os dilemas
são tão antigos quanto o socialismo.
Em poucas palavras, trata-se do velho paradigma
que contrapõe, na maioria das vezes de
forma unilateral, reforma ou revolução.
No século XIX os revolucionários
tiveram que optar entre a participação
nas instituições burguesas - por
exemplo disputando o parlamento - e a abstenção
eleitoral.
Os
que optaram pela disputa da hegemonia com o capital,
através da participação nas
instituições da democracia liberal
representativa, construíram grandes organizações
partidárias e sindicais e tiveram um crescimento
gigantesco, a ponto de muitos revolucionários
da época se tornarem otimistas quanto às
perspectivas de transformação da
sociedade pela via parlamentar. A social-democracia
alemã é um dos melhores exemplos.
O grande dilema dessa estratégia diz respeito
aos meios e fins: com a evolução
da sua força eleitoral a organização
social-democrata passa a ter interesses próprios
não necessariamente coincidentes com o
fim almejado; logo, o objetivo almejado, o socialismo,
é substituído pela necessidade de
manter a organização e os privilégios
decorrentes do seu funionamento.
Por
outro lado, como participar das instituições
burguesas e evitar a cooptação?
O capitalismo mostrou uma capacidade incrível
de auto-reforma, incorporando não apenas
as demandas da esquerda, mas também suas
organizações e dirigentes. Os sociais-democratas
não apenas legitimaram as instituições
capitalistas, como passaram a defendê-las.
A
Revulução Russa de 1917 acrescentou
novos elementos ao paradigma reforma ou revoluçao.
Também esta degenerou-se, instituindo o
regime do Grande Irmão e aniquilou
a liberdade. Instituiu-se uma falsa questão:
socialismo versus democracia, entendida como liberdades
e direitos burgueses. A esquerda tradiconal terminou
por negligenciar as liberdades democráticas
e a instrumentalizá-las. Infelizmente,
foi preciso anos de regimes ditatoriais para uma
nova revalorização da democracia
- observe-se que esta revalorização
também teve o efeito colateral de alimentar
ilusões a respeito da democracia em sua
forma atual, deixando-se de lado seus limites
e o necessário aprofundamento desta. Muitos
só acordaram e se libertaram do pesadelo
stalinista com a queda do muro no leste europeu
e a derrocada do império soviético.
Mais de uma década depois ainda há
recalcitrantes.
Reforma
ou revolução? Colocada nestes
termos, parece não haver outra alternativa.
Tanto a social-democracia quanto os revolucionários,
que beberam em fontes ideológicas autoritárias
criticadas por Orwell em livros como 1984
e A revolução dos bichos,
fracassaram. Hoje, como no passado, optar entre
reforma ou revolução pode encobrir
raciocínios unilaterais. No século
XIX, Rosa Luxemburgo já percebia este equívoco:
Reforma
social ou revolução? Pode, portanto,
a social democracia opor-se às reformas
sociais? Ou pode impor a revolução
social, a subversão da ordem estabelecida,
que é seu objetivo social último?
Evidentemente que não. Para a social-democracia
lutar dia-a-dia, no interior do próprio
sistema existente, pelas reformas, pela melhoria
da situação dos trabalhadores,
pelas instituições democráticas,
é o único processo de iniciar
a luta da classe proletária e de se orientar
para o seu objetivo final, quer dizer: trabalhar
para conquistar o poder político e abolir
o sistema salarial. Entre a reforma social e
a revolução, a social-democracia
vê um elo indissolúvel: a luta
pela reforma social é o meio, a revolução
social o fim.
(Reforma Social ou Revolução?
São Paulo, Global, 1986, p. 23)
Parece
que paramos no tempo. Estamos no século
XXI e muitos ainda agem como se suas cabeças
estivessem deslocadas no tempo, como se estivessem
em pleno século XIX. Aprender com as idéias
do passado não significa transportá-las
mecanicamente para o nosso tempo.
O
desafio dos que se posicionaram no Fórum
Social Mundial por um outro mundo socialista não
é optar entre uma ou outra via, mas em
descobrir estratégias políticas
que afirmem as reformas, mas que, por outro lado,
não se restrinja à conquista das
mesmas como o fim último a ser alcançado.
É difícil. Porém, este dilema
não será superado pela fraseologia
esquerdista e a repetição dos cânones
retirados das obras dos pensadores do passado.
Quem sabe tal estratégia não se
resuma apenas ao objetivo de conquistar novos
convertidos?
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