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Por RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas
Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br
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A
Economia Política da Argentina
Várias
análises sobre a crise da Argentina insistem em creditar
aos erros na condução técnica da economia
para justificar o caos que se instalou em nosso vizinho. Amartya
Sen, Prêmio Nobel de Economia, nos ensina que a economia
é uma derivação da ética e não
uma mera técnica de administração das
intenções humanas. Mas autores "realistas"
continuam desconhecendo os ensinamentos de Amartya. Têm
seus motivos. É estarrecedor para um economista formado
na escola técnica dos anos oitenta ler nas manchetes
dos jornais que é possível faltar farinha na
Argentina. No início do século XX, a Argentina
era considerada a "panificadora do mundo". A famosa
Escola de Frankfurt, de Habermans, Adorno e Horkheimer foi
sustentada, no seu início, pelos negócios com
trigo que um dos pais dos jovens pesquisadores sociais realizava
na Argentina. Beatriz Sarlo, professora de Literatura na Universidade
de Buenos Aires, relata a pujança da metrópole
argentina nos anos 30: "a cidade vivia uma velocidade
sem precedentes. Era uma cidade cosmopolita. Em meados de
1930, em Buenos Aires, os analfabetos nativos somam apenas
2,3% de um total de 6,6%". Absurdamente distinta da Buenos
Aires deste início de século XXI.
O
tecnicismo econômico sente dificuldades para entender
como um país com tal tradição chega à
um índice de desemprego de 20%, onde o mercado informal
envolve 40% da PEA. Não há certezas para os
economistas-técnicos mesmo com a fatal desvalorização
da ordem de 50% do peso ou a adoção do duplo
câmbio. O fim da paridade do peso com o dólar
atingirá duramente a economia argentina. No Brasil,
a desvalorização do real significou um aumento
da dívida pública de 34% do PIB para 50%.
O
grande problema da Argentina é político. O regime
militar desmontou as redes de organização partidária
daquele país e aniquilou com as preparadas e tradicionais
lideranças políticas. Com Perón, a participação
de capital e trabalho na renda nacional era de 49% para trabalho
e 51% para capital. Com Menem a relação se alterou
profundamente: 23% para trabalho e 77% para capital. Mas não
foi apenas a política neoliberal que desarticulou a
economia argentina, mas a crise de lideranças políticas.
Os partidos tradicionais, União Cívica Radical
e Justicialista, demonstram claramente suas dificuldades para
acomodar caciques de mera expressão regional ou elaborar
projetos de desenvolvimento para o país. A oposição,
que havia criado uma tênue alternativa com a FREPASO
(Frente País Solidário), desmantelou-se em vários
outros agrupamentos, como ARI (Alternativa para uma República
de Iguais) e Pólo Social (liderado por Padre Farinello,
ao lado de ex-frepasistas e ex-peronistas). A Argentina não
consegue se governar e vive uma profunda crise de identidade.
Nas
várias listas de discussão na Internet que foram
criadas no final do ano passado e início deste, onde
argentinos procuravam trocar impressões sobre a crise
e relatar as manifestações regionais, foi possível
perceber um país procurando se encontrar, mas profundamente
desconfiado de suas lideranças políticas. Concluo
este artigo reproduzindo uma mensagem enviada em uma das listas
de discussão. Em minha opinião, é um
texto emblemático, relatando as reuniões diárias
que envolveram vizinhos em praças públicas,
em cada bairro das grandes cidades. O excerto que reproduzo
a seguir refere-se a uma mensagem que partiu da cidade de
Rosário e foi enviado em 03 de janeiro último:
"Às
19 horas começou a chegar muita gente no Anfiteatro
Municipal de Rosário. Às 19h30 já era
evidente que a convocatória teria sucesso. Mais de
600 pessoas, a maior parte moradores da zona central da
cidade. Havia gente de todas as idades, sobretudo jovens.
Desde o início as pessoas diziam que deveríamos
manter este espaço. Um espaço aberto a todos
moradores ou cidadãos. Falaram na importância
de se criar um meio de difusão, uma página
na internet. Muitos gritavam: Fora a Corte! Que seja expulsa
toda a Corte Suprema! Uma mulher propôs que deixássemos
de pagar impostos e disse que os prestadores de serviços
privatizados eram usurpadores. Um produtor agropecuário
de Arroyo Seco foi muito aplaudido. Calculou que a produção
de grãos corresponde a toneladas anuais por habitante
e, por este motivo, não entendia porque existe fome
na Argentina. Denunciou que 70% da produção
da região sul de Santa Fé é exportada."
É
da política econômica, da reconstrução
de laços de confiança entre governantes e governados
e da criação de uma nova estrutura de gestão
pública, radicalmente democrática, que surgirá
a solução para a crise. É necessário
canalizar as frustrações de tantos cidadãos
argentinos que, como o que escreveu a mensagem acima, estão
perplexos com os rumos de seu país. Que o Brasil aprenda
com nosso vizinho: a técnica é um mero instrumento
da política.
RUDÁ
RICCI
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