Diáspora
de talentos no país do futuro
Desde
criança, costumava ouvir as pessoas dizerem: o
Brasil é o país do futuro. Tornei-me adolescente
ouvindo esse adágio. Hoje, adulto, continuo ainda
ouvir a mesma coisa. Quando tal futuro vai chegar? (se
é que algum dia isto vai acontecer?!). Note que
esta visão não é pessimista, mas
sim, realista.
Recentemente,
tomei conhecimento de alguns dados estatísticos
que me fizeram lembrar o país do futuro. Um número
impressionante de pessoas de países emergentes
têm emigrado para os Estados Unidos. Apenas, na
década de 90, este número chegou próximo
a 650.000 profissionais qualificados (segundo dados da
Mckinsey divulgados em "Brains Abroad", The
McKinsey Quaterly, No. 4, 2001). Dentro desses 650.000,
temos inúmeros talentos brasileiros. Não
disponho do número de brasileiros que compõem
esses 650 mil (pois o relatório não divulgou
tal dado, apenas a existência de brasileiros), mas
perdemos e continuamos a perder talentos.
Apenas
para acrescentar mais um dado estatístico, cerca
de 20% dos trabalhadores do setor de tecnologia da informação
nos Estados Unidos é oriundo de países emergentes,
tais como China, India, Cingapura e também o nosso
Brasil. Outro dado alarmante é que aproximadamente
um terço de todos os profissionais atuando em pesquisa
e desenvolvimento nos países em desenvolvimento
têm deixado seus países em busca de melhores
oportunidades nos Estados Unidos, Japão e países
membro na União Européia.
A
busca por talentos tem sido tão tamanha, que tem
levado os Estados Unidos a dobrarem o número de
vistos de trabalho para profissionais estrangeiros qualificados.
Além disso, previsões apontam que o Japão
necessitará importar pelo menos 30 mil trabalhadores
qualificados para o setor de alta tecnologia até
o ano de 2005.
Percebam
que o fluxo de talentos tem se dado, na maioria dos casos,
de países emergentes para países desenvolvidos.
Estes últimos têm notadamente a percepção
acurada da necessidade de investimento continuado em tecnologia.
Qualquer país que almeje tornar-se desenvolvido
ou manter-se como tal tem como um de seus requisitos possuir
pessoal qualificado no setor de tecnologia bem como fazer
investimentos no setor de ciência e tecnologia (C&T).
Segundo
dados do Ministério de Ciência e Tecnologia
(MCT), o Brasil investiu cerca de 13 bilhões de
reais em C&T no ano 1999, correspondendo a aproximadamente
1.3% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Percentuais
próximos a este se sucederam nos anos de 2000 e
2001.
Há, segundo MCT, a intenção do governo
brasileiro em aumentar os investimentos no setor de C&T
de modo a chegar nos 2% em 2005. Embora possa parecer
arrojado este esforço por parte do Brasil, ainda
é muito pouco se compararmos a números dos
Estados Unidos que têm investimento superando a
barreira dos 100 bilhões de dólares ao ano
no setor de C&T.
Então,
surge novamente aquela pergunta: O Brasil é o país
do futuro? Tornar-se-á o Brasil num país
desenvolvido algum dia? Ou estaremos destinados a sermos
eternos exportadores de banana e importadores de tecnologia?
Podemos
tentar desenhar um cenário para esse país
do futuro. Consideremos como aspectos positivos a criatividade
do profissional brasileiro, sua capacidade de adaptar-se
a novas tecnologias e demandas, a diversidade de riquezas
que o país dispõe, a existência de
boas universidades e institutos (desenvolvendo pesquisas
em ciências básicas e ciências aplicadas)
e uma significativa base de capital humano com formação
variada.
Contudo,
há aspectos negativos, que parecem prevalecer sobre
os positivos. A despeito do capital humano existente,
o governo tem dado sinais de verdadeiro abandono às
universidades públicas. Na esfera federal, recentemente,
tivemos uma longa greve com 107 dias de duração
na qual docentes reivindicavam reposição
salarial bem como melhores condições de
trabalho. Já na esfera estadual, destaca-se a greve
dos docentes das universidades estaduais do Paraná
que hoje totaliza 120 dias de duração, um
recorde histórico no Brasil. Se adicionarmos à
indisposição política por parte dos
governos, o pouco senão pífio investimento
que setor privado tem destinado a pesquisas, não
será difícil vislumbrar que o Brasil continuará
sendo o país do futuro.
Se
os fatores negativos de fato prevalecerem sobre os positivos,
como parecer apontar os sintomas, um número cada
vez maior de brasileiros elevarão os números
de profissionais qualificados emigrando para países
desenvolvidos. Em países do primeiro mundo, eles
podem dispor de melhor renda, qualidade de vida, educação
e sistema de saúde. Aliado a isto, existe uma consciência
tanto dos governos quanto do setor privado daqueles países
da necessidade de investimento continuado em pesquisas
nas ciências básicas e aplicada.
Parece
até haver uma força invisível atuando
sobre o país de modo a mantê-lo eterno dependente
da tecnologia desenvolvida nos países do primeiro
mundo. Se não houver disposição política
por parte dos governos (até agora um tanto inepto)
e a consciência do setor privado, ao Brasil restará
a languidez, com seu povo, deitado eternamente em berço
esplêndido, sonhando ser a nação do
futuro.
Apesar
desse futuro parecer distante, encontramos ainda docentes
na maioria das universidades públicas brasileiras
que lutam contra essa força invisível, buscando
evitar a diáspora de talentos do país do
futuro. Se esta tentativa funcionará, o tempo dirá.
Essas cabeças, além de possuir caráter
investigador peculiar de todo cientista, também
são persistentes e, porque não, muito sonhadoras.