O
problema dos exilados na França tem aumentado a cada
ano: 70% deles é composta por mulheres (em geral viúvas)
e filhos com menos de três anos. A maioria vem da África
e dos países do Leste. Quando chegam em Paris, procuram
a Coordenação de acolhida às famílias
que pedem asilo, se eles não podem acolhê-las
se dirigem ao Service d'Aide Médicale Urgente (Samu
social) de Paris que aloja atualmente uma centena de famílias,
ou seja, em torno de 600 pessoas.
Existem
outras entidades e associações dispostas a lutar
e ajudar os exilados, mas como a procura é muito grande,
esses organismos vêm tornado-se insignificantes. O Socorro
Católico e a Cruz Vermelha dão apoio com roupas,
dinheiro, etc., e os chamados Restaurantes do Coração
(Resto du Cœur), criados pelo saudoso Coluche, distribuem
refeições gratuitas. A Associação
Paris Pequeninos conta com a ajuda de voluntários e
distribui todas as sextas-feiras leite e sopa para essas famílias.
No entanto, ela afirma que, a maior parte delas não
tem mais direito a nada, pois, desde há vários
anos foram recusadas de acordo com o Estatuto de Refugiado
Político pelo Oficio Francês de Proteção
aos Refugiados e Apatriados (Ofpra). Essa recusa deve-se,
além de outros, ao fato de que não existirem
apenas os refugiados que são ameaçados politicamente,
mas os que saem dos países em guerra por não
terem opção de trabalho e sobrevivência.
Para esses, todos os caminhos são fechados e são
conhecidos como nem-nem, visto que não podem nem serem
expulsos por causa das crianças menores, nem regularizados,
porque, segundo a Ofpra, não preenchem os requisitos
exigidos pela convenção de Genebra.
Essas
pessoas dizem sentir-se "girando em círculos",
e eu diria que todo esse problema é um círculo
vicioso que não se sabe quando terá fim. No
dia-a-dia, o clima é tenso: os franceses de um lado
sentindo-se invadidos e ameaçados, com medo da violência
causada por essa situação; os refugiados, de
outro, sem opção de vida decente e armados contra
o racismo.
Eles
não têm documentos, trabalho, moradia, estão
preocupados com o futuro de seus filhos, acabam pedindo esmolas,
prostituindo-se ou tornando-se delinqüentes. São
ricas de lembranças dolorosas, torturas, mortes dos
entes queridos, medo de voltar ao país unido à
desilusão de continuar na França, choque cultural,
enfim, tudo o que afeta o bom andamento físico, psicológico,
emotivo, etc., do ser. O que será delas amanhã?
O que será dessa geração criada pelas
ruas? O que são eles hoje? Se todos estão nesse
círculo, quem fará algo para tentar sair dele?
Ainda são perguntas sem respostas. Alguns crêem
que o seu deus vira salvá-los, outros nem crença,
nem esperança… foram esvaziados por completo, reivindicam
dignidade e recebem desprezo, vivendo nas trevas pelas ruas
da Cidade Luz.