Nos
últimos meses, a imprensa vem noticiando a participação
de importantes lideranças empresariais em articulações
de candidatos presidenciais da oposição. Ciro Gomes,
Luís Inácio Lula da Silva e Itamar Franco seriam os
beneficiários dessas articulações, desenhando uma
participação do empresariado nas eleições muito diferente
daquela de 1994, quando 97%,, de acordo com pesquisa
realizada pela revista Exame (31 ago. 1994),
fechou com o então candidato Fernando Henrique Cardoso.
Os
movimentos de aproximação da pré-candidatura de Luís
Inácio Lula da Silva, são, sem dúvida, os que mais
chamam a atenção. Em encontros a portas nem sempre
abertas, lideranças empresariais têm manifestado que
uma vitória eleitoral petista nas eleições presidenciais
de 2002 já não assusta mais e não provocará a fuga
em massa que anunciou, em 1989, Mário Amato, então
presidente da Federação das Indústria do Estado de
São Paulo (Fiesp).
A
aproximação de alguns destacados líderes empresariais
à pré-candidatura de Lula já é pública. Além do senador
e presidente da Coteminas José Alencar (PL-MG), cotado
para ser o vice do candidato petista, chamam a atenção
as declarações de Sergio Haberfeld, da Dixie-Toga
e da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens
Plásticas, e de um surpreendente Emílio Odebrecht,
presidente do grupo Odebrecht. De maneira apressada,
tal aproximação tem sido interpretada por alguns articulistas
da imprensa como uma ruptura do empresariado com o
governo de Fernando Henrique Cardoso e uma súbita
conversão às teses oposicionistas. Vejamos o tema
de maneira mais detalhada para apontarmos, posteriormente,
os possíveis desdobramentos.
De
um modo geral, a imprensa tem reproduzido erro corrente
nos estudos sobre o empresariado, identificando-o
com sua fração industrial e, conseqüentemente, tratando-o
como um todo homogêneo. Ao fazer isso, apaga as diferenças
projetuais existentes nas várias frações da burguesia,
bem como os conflitos existentes entre estas e suas
formas estatais. Uma análise mais atenta do comportamento
empresarial identificará uma grande identidade entre
a burguesia financeira e o governo, bem como áreas
de conflito mais nítidas entre este e o empresariado
industrial. A novidade não reside nisso, é claro,
mas nos acenos que o empresariado industrial tem feito
à oposição.
Tais
acenos coincidem com um aumento dos choques entre
os industriais paulistas e a equipe econômica de Fernando
Henrique Cardoso. A partir de junho quatro temas se
constituíram em pontos de atritos com o governo federal:
A
proposta governamental de repassar parte as empresas
dos custos referentes ao pagamento dos expurgos do
FGTS. O episódio motivou uma carta da Fiesp a seus
associados onde a equipe econômica era chamada de
“talebans da ortodoxia financeira que mandam em
Brasília” (Folha de S. Paulo, 13 jul. 2001).
As
negociações com a Argentina para a redução da Tarifa
Externa Comum (TEC) para produtos eletroeletrônicos,
que provocou um desentendimento público entre os primos
Horácio Lafer Piva, presidente da Fiesp, e o ministro
das Relações Exteriores, Celso Lafer.
A
elevação dos juros anunciadas pelo Comitê de Política
Monetária em junho, rejeitada tanto pela Fiesp como
pela CNI, preocupadas com o impacto de taxas de 18,5%
ao ano sobre a produção industrial.
E,
por último, a mini-reforma tributária proposta pelo
governo: a prorrogação da CPMF até 2004 e a incidência
do PIS/Cofins sobre as importações. Na ocasião, foi
lançado, na sede da Fiesp, um manifesto empresarial
contra a proposta do governo. Além da Fiesp e da CNI,
participaram do lançamento representantes da Confederação
Nacional do Comércio (CNC), Confederação Nacional
do Transporte (CNT) e da Confederação Nacional da
Agricultura (CNA), além de um grande número de associações
e sindicatos patronais.
O
tom do discurso empresarial foi sendo elevado a cada
choque, chegando ao ápice por ocasião da proposta
da mini-reforma tributária. Na mesma semana que era
lançado o manifesto empresarial contra a reforma,
o presidente em exercício da Confederação Nacional
da Indústria (CNI), o paulista Carlos Eduardo Moreira
Ferreira, disparava contra uma possível candidatura
de Pedro Malan à presidência: “não gostaria sequer
de imaginar esse governo” (Jornal do Brasil,
10 ago. 2001).
As
críticas à política econômica do governo foram acompanhadas
por uma crescente politização do discurso dos industriais,
que incorporaram a sucessão presidencial a sua agenda.
Intensificaram-se, então, os contatos com os candidatos
da oposição. Na Fiesp, Roberto Nicolau Jeha, que em
março já havia mostrado sua simpatia pela candidatura
de Itamar Franco, criticou a ausência de um posicionamento
do empresariado no debate sucessório. Eugenio Staub,
da Gradiente, Paulo Villares, da Villares e Jacques
Rabinovitch, do grupo Vicunha, todos do prestigiado
Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial
(Iedi), organizaram reunião com Lula, para este apresentar
seu programa. E Ciro Gomes, por sua vez, participou
de jantar com a presença de cerca de 20 dirigentes
empresariais, entre os quais os presidentes da Fiesp,
Horácio Lafer Piva, e da Federação Brasileira das
Associações de Bancos (Febraban), Gabriel Jorge Ferreira.
Os
acenos à oposição não indicam uma adesão do empresariado
a Lula, Ciro Gomes ou Itamar Franco, como chegaram,
de maneira apressada, a ser interpretados. Evidentemente
o nível de conflitos do empresariado industrial com
o governo e superior àquele existente entre este e
a burguesia financeira. Os acenos à oposição ocorrem,
como era de se esperar, com maior intensidade entre
os empresários industriais. Tomado em seu conjunto,
o empresariado apareceria como mais governista do
que suporia a ênfase nos industriais. É o que indica
pesquisa realizada pelo instituto Datafolha junto
a executivos que assistiram, em julho, palestra do
ex-presidente norte-americano, Bill Clinton. Na pesquisa
de intenção de voto estimulada, 45% afirmaram preferir
José Serra; 22%, Ciro Gomes; 12% votariam em Lula;
3% em Anthony Garotinho; e 2% em Itamar Franco (Folha
de S. Paulo, 12 jul. 2001).
Em
pesquisa mais abrangente, realizada pela empresa de
consultoria Boucinhas e Campos, apenas 21% não se
identificavam com nenhum dos possíveis candidatos
governistas, enquanto 44% consideravam que os candidatos
da oposição não tinham estofo para ocupar a presidência
(Valor Econômico, 10 ago. 2001).
Mesmo
entre os industriais, o setor empresarial mais afastado
do governo, é possível identificar apenas uma minoria
alinhada com a candidatura de Lula, como aponta Horácio
Lafer Piva: “não conheço muita gente que vote no Lula”
(Folha de S. Paulo, 19 ago. 2001).
Como
interpretar, então, a crescente aproximação do empresariado,
particularmente o industrial, da oposição? Três dimensões,
precisam ser aqui analisada para responder a esta
questão.
Em
primeiro lugar, tal aproximação pode ser interpretada
como um complexo jogo de forças com o objetivo de
abrir negociações com o governo em torno dos quatro
pontos de atrito já mencionados. Todos estes pontos
apontavam, de acordo com o empresariado, para uma
política econômica na qual a indústria continuaria
a ocupar um lugar de segunda ou terceira ordem. A
artilharia empresarial começou a surtiu efeito e,
a partir de agosto, o tema da política industrial
entrou na agenda governamental depois de estar ausente
durante toda a era FHC.
Em
segundo lugar, o objetivo de tal aproximação era,
também, enfraquecer a pré-candidatura de Pedro Malan
e fortalecer, por sua vez, outras opções no bloco
governista. A rejeição do nome de Malan no empresariado
industrial é conhecida de longa data e aparece tanto
nas declarações de Moreira Ferreira, como também nas
de destacados membros do Iedi, entre os quais seu
ex-presidente Eugenio Staub. No bloco governista José
Serra e Tasso Jereissati dividem as preferências do
empresariado industrial.
Em
terceiro lugar, o grau de conflitividade, do
empresariado com as candidaturas da oposição e, principalmente,
com Lula é substancialmente menor do que nas eleições
anteriores. A pesquisa Datafolha divulgada
em julho, indicava que dentre os entrevistados, 59%
consideravam Lula uma candidato “mais aceitável” do
que nas eleições anteriores e apenas 18% consideravam
que seu programa era péssimo.
A
reduzida conflitividade não está, entretanto, apoiada
em uma agenda de fomento à industria materializada
na candidatura Lula. A rigor, Lula foi portador de
tal agenda em 1994 e 1998 sem conseguir, entretanto,
estabelecer pontos de contato muito sólidos com o
empresariado. Para a elevação do índice de aceitação
da candidatura de Lula é chave a percepção que o empresariado
tem da crescente moderação do discurso dos dirigentes
petistas e de Lula. Tal moderação é interpretada como
um “amadurecimento” do PT e de seu candidato, como
explicita Horácio Lafer Piva, em recente entrevista:
“Houve um processo de amadurecimento do empresário
e houve um processo de amadurecimento do Lula. As
pessoas reconhecem hoje o partido mais disposto a
negociar” (Folha de S. Paulo, 19 ago. 2001)
O
baixo grau de conflitividade do empresariado com a
candidatura de Lula representa a confiança
de que sua eleição não significará uma ameaça à propriedade
privada nacional e estrangeira, por um lado, e, por
outro, não produzirá uma descontinuidade radical da
política econômica. Mas o empresariado sabe, e tem
afirmado isso recorrentemente na imprensa, que uma
coisa é a moderação de Lula e de expoentes da direção
petista e outra, bem diferente, são os movimentos
sociais identificados com a história do partido. Este
é o limite de difícil transposição. A adesão do empresariado
à candidatura de Lula não é impossível, mas teria
um custo muito elevado: um afastamento definitivo,
deste e do PT, dos os movimentos sociais. É um custo
elevado, mas vale lembrar que muitos partidos já se
dispuseram a pagá-lo.