Macro
e microeconomia da diplomacia
(Série
“Cousas Diplomáticas” nº 4)
A
política externa possui a sua própria economia,
que poderia ser definida como a forma pela qual os diplomatas
organizam seus recursos escassos (talentos, discursos,
missões de representação, reuniões
bilaterais, participação em foros multilaterais,
enfim coqueteis e recepções), que poderiam
ter usos alternativos, na produção de determinados
"bens" diplomáticos (tratados, acordos,
convênios de cooperação), em função
de custos e benefícios percebidos no processo diplomático,
segundo uma alocação "ótima"
desses recursos. Esses bens ou "mercadorias"
serão depois distribuídos para o consumo
da sociedade que emprega esses diplomatas, sob a forma
de melhores oportunidades de exportação,
maior segurança externa, novas possibilidades de
usufruir e de conceder cooperação externa,
captura de talentos externos, fontes adicionais de financiamento,
bref, qualquer resultado suscetível de maximizar
o bem estar nacional.
Em
função dessa definição ampla,
pode-se ter uma macroeconomia da diplomacia - que trataria,
mais bem, do produto bruto diplomático, do pleno
emprego e da renda diplomática, sua distribuição
entre os próprios, bem como das questões
de concorrência entre diplomatas, ou do monopólio
que alguns exercem sobre determinadas atividades - ou
uma microeconomia, voltada, por exemplo, para a produtividade
marginal do diplomata (ou seus rendimentos decrescentes),
a economia de escala numa Secretaria de Estado, a especialização,
a divisão do trabalho e a interdependência
nas lides diplomáticas, bem como os fatores de
depreciação de um diplomata, que só
deveria normalmente intervir depois de uma análise
atuarial sobre sua função de lucros e perdas
(sem qualquer abuso contábil, entenda-se), embora
em alguns casos se recomende uma forte injeção
fiscal.
No
plano internacional igualmente, o que aliás é
o próprio da diplomacia, deve-se considerar as
vantagens comparativas dos diversos serviços diplomáticos,
os fluxos de capital diplomático de um país
a outro, os mecanismos de câmbio diplomático
(que podem implicar a desvalorização de
alguns e a valorização de outros), as assimetrias
existentes entre os diversos serviços, bem como
a atuação dos governos, que influenciam
o desempenho do produto diplomático ou seu posicionamento
no cenário internacional (através de subsídios
maciços, por exemplo). Nos tempos que correm, de
globalização das relações
exteriores e de neoliberalismo diplomático, já
não são mais operacionais as antigas doutrinas
socialistas da diplomacia, muito embora muitos ainda acreditem
no caráter de classe da política externa,
tanto que continuam a achar que os diplomatas são
todos uns "punhos de renda", que vivem de salto
alto pulando de uma recepção para outra.
Poucos se dão conta, entretanto, que com a depreciação
das línguas e o acesso disseminado a recursos externos
via Internet - afinal de contas, hoje em dia qualquer
um fala inglês e até cachorro de madame já
tem correio eletrônico -, o diplomata perdeu seu
antigo monopólio (e fonte de lucros?), tendo seus
salários tão depreciados que formou-se,
nos estratos inferiores ou iniciais da carreira, um verdadeiro
lumpesinato diplomático, verdadeiro exército
industrial de reserva diplomático que moureja em
condições pouco condizentes com sua antiga
aura de fama e brilho.
Os
exercícios que se seguem ostentam a preocupação
de determinar como os fatores de produção
da atividade diplomática têm seus preços
fixados no mercado, o que conformaria, idealmente, uma
teoria da distribuição diplomática.
Na prática, porém, as relações
de poder são tão ou mais importantes, na
vida diplomática, que as relações
de mercado, que são fortemente condicionadas pela
intervenção dos governos, os patronos por
excelência dos diplomatas, que não podem
assim exercer livremente seus talentos (tanto porque o
mercado para eles é imperfeito, com vários
monopólios "naturais"). Tentaremos, sem
embargo, examinar os modelos alternativos de distribuição
diplomática, sabendo que alguns elementos - vaidade,
compadrio, pistolões - terão de ser deixados
de lado, uma vez que dificilmente são mensuráveis
a ponto de permitir sua integração numa
equação matemática ou numa curva
de regressão. O autor espera contribuir mediante
este esforço para a conformação de
uma verdadeira teoria econômica da diplomacia, vertente
pouco explorada da ciência econômica que ainda
aguarda o seu Marx, o seu Keynes, o seu Hayek ou o seu
Friedman (muito embora ela tenha tido entre nós
essa figura híbrida que foi Roberto Campos). Essa
teoria da economia diplomática deveria compreender,
ademais das funções conhecidas em economia
- basicamente derivadas das leis da oferta e da procura
diplomática - uma teoria do crescimento diplomático,
que enfocaria também os problemas de desenvolvimento
dessa profissão hoje banalizada (com tratamento
de itens específicos como a pobreza a qualidade
de vida do diplomata, a discriminação de
gêneros nos padrões ocupacionais e, eventualmente,
no plano externo, a questão do tratamento preferencial
e mais favorável para os diplomatas de menor desenvolvimento
relativo).
Aqueles
que discordarem dos cálculos econométricos
do autor, podem contatá-lo no seguinte endereço:
pralmeida@mac.com. Para maiores esclarecimentos sobre
os fundamentos da teoria econômica aqui desenvolvida,
recomendo consultar os manuais disponíveis no mercado,
sendo que o "velho" livro introdutório
de Paul A. Samuelson permanece supreendentemente atual
(pelo menos para os padrões dos diplomatas), mas
ele poderia ser utilmente complementado pela teoria do
comércio diplomático estratégico
de Paul Krugman.