O
recente movimento social de professores, estudantes
universitários e funcionários técnico-administativos,
de mais de três meses, teve o mérito de
mostrar, mais
uma vez, e para toda a sociedade, a crise que marca
a universidade pública brasileira: instalações carentes,
corpo docente insatisfeito, truculência e falta de diálogo
por parte de autoridades políticas e administrativas.
Entretanto,
e ao mesmo tempo, as greves prolongadas (a deste ano
e a do ano passado), a forma como foram conduzidas,
e as concepções políticas e sindicais que as orientaram,
evidenciaram um distanciamento crescente entre
as direções sindicais e a comunidade de docentes. Mesmo
entre docentes mais politizados, a legitimidade de um
certo sistema sindical começa a ser contestada.
Entre as muitas divergências, duas são particularmente
importantes: as restrições à validade da insistência
na escolha de uma certa forma de luta: a greve por tempo
indeterminado. E os questionamentos a certas formas
precisas de organização: as assembléias centralizadas
cujas orientações e ritmos são ditados pelos chamados
“comandos”.
Cresce,
cada vez mais, a consciência de que as greves por tempo
indeterminado, quase sempre muito prolongadas, são tão
nocivas à universidade pública quanto as medidas autoritárias
e erráticas do governo. Quebrando o ritmo do semestre
letivo, dispersando e atomizando professores e estudantes,
desmobilizando a instituição, fragmentando o trabalho
acadêmico, seus eventuais ganhos políticos e sindicais
não estariam compensando as perdas e os estragos que
vêm causando ao ensino e à pesquisa de qualidade que,
como se sabe, são basicamente efetuados nas universidades
públicas.
É
verdade: muitos professores identificam-se como “trabalhadores
da educação”, recriam a universidade como se fora uma
fábrica, e imaginam ser possível recorrer
à greve, uma forma de luta clássica dos operários fabris. O mimetismo,
porém, não se sustenta porque, entre muitas outras,
há três diferenças óbvias: primo, a universidade
pública, como diz o nome,
presta um serviço público – não produz lucros
privados; secundo, e em consequência, o principal
prejudicado com elas não são patrões privados, mas o distinto público, no caso, os alunos
da graduação e, por extensão, os próprios professores,
embora estes não sejam os mais penalizados, porque continuam
suas pesquisas, e a preparação de artigos e livros,
além de continuar recebendo os salários, o que é, ou
deveria ser, no mínimo, constrangedor. Tertio,
e finalmente, cumpre dizer que o prejuízo causado pelas
greves nas universidades é irrecuperável, pois as “reposições
de aulas”, ao contrário de um produto que deixou de
ser fabricado durante uma greve operária, nunca chegam
a “repor” as que deixaram de ser dadas. Aulas não são
produtos materiais, como, por exemplo, automóveis,
ou pregos, como
sabem professores, estudantes e qualquer pessoa comum.
A “reposição”de um curso quebrado ao meio não é mais
do que um remendo, ou um
arremedo.
Sempre
se argumenta que a greve chama a atenção das
pessoas para
a “crise da universidade”. Embora isto às vezes ocorra,
como no caso da última greve, é de se indagar se outras
formas de luta – como manifestos e
manifestações, em recinto fechado e, no limite,
nas ruas – não seriam muito mais eficazes para a sensibilização
da sociedade e até como pressão sobre o governo e o
poder legislativo.
O
grave, no entanto, é que no “vácuo” destas greves
prolongadas, e a palavra é apropriada porque as universidades
ficam praticamente “vazias” durante as mesmas, dominam
a cena assembléias centralizadas, reunindo algumas dezenas
de professores que passam a “falar” e a “decidir” pela
comunidade acadêmica. Em reuniões que se estendem por
horas a fio, não precedidas por nenhum tipo de instância
de base ( departamentos e institutos), sem nenhum controle,
as assembléias só dividem o seu “reinado” com uma outra
instituição, ainda mais singular – os “comandos”.
Franqueados
a professores não eleitos por quem quer que seja, frequentemente
nem mesmo pelas assembléias, os “comandos”, e aqui a
linguagem militar não é casual,
substituem-se aos órgãos legítimos e legais da
universidade (do conselho universitário às chefias departamentais)
que, de forma mais ou menos automática, lamentavelmente
se curvam frente a estas “entidades” que
passam a “comandar” a vida acadêmica, “autorizando”
ou “interditando” qualquer tipo de atividade. O maravilhoso
é que sem o “certificado” de “atividade de greve”, que
só o “comando” pode emitir, nada se pode fazer nas universidades,
a não ser à custa de sofrer acusações que podem ir das
mais “gentis” (capitulacionista e neo-liberal), até
verdadeiras agressões
verbais (traidor, covarde e fura-greve).
Frente
a estes estranhos fenômenos, a comunidade acadêmica
precisa insurgir-se. Recuperando, pelas suas bases reais
– os departamentos e os institutos –, o controle da
situação. Limitando o “poder” das assembléias centralizadas.
Não reconhecendo e não se submetendo a estes “comandos”
auto-nomeados, mais próprios para casernas do que para
universidades, e elegendo, democraticamente, conselhos
ou coordenações para conduzir suas lutas sindicais e
políticas.
Assim
fazendo, a comunidade acadêmica estará emancipando-se
de tradições autoritárias e
construindo uma outra legitimidade.