Fazem
três anos que Maurício Tragtenberg faleceu.
Foi uma morte precoce. Contudo, ele permanece
vivo em nossa memória. Maurício nos faz refletir
sobre a vida e a morte; mas também sobre os
desafios e dilemas que vivemos. Suas palavras
ainda estão vivas em nosso pensamento, em seus
livros e artigos e em seu compromisso com a
luta dos trabalhadores.
Maurício
expressa uma lição de humildade intelectual.
Ele nos faz pensar sobre os que agem como se
fossem imortais. Que será dos arrogantes, dos
que se imaginam acima de tudo e que se iludem
diante da finitude? Que pensar dos que se apegam
às picuinhas do cotidiano, às mesquinharias
da luta pelo poder? Como dizia um famoso economista,
a médio e longo prazo, todos estaremos mortos.
Esta é a única certeza absoluta que temos.
Mas,
como escreveu o poeta, morremos duas vezes:
a morte física e a morte pelo esquecimento.
De fato, as pessoas choram a nossa morte, mas,
precisam continuar vivendo. Logo, a rotina do
cotidiano e as necessidades ditadas pela vida
obscurece os sentimentos e a nitidez da memória.
Contudo,
há os que mantém uma atitude humilde diante
da vida e da morte. Em geral, são os que tem
mais consciência da própria finitude. Há ainda
os que superam a segunda morte. Estes, são poucos.
Maurício é um deles.
Se
o lembramos não é por acaso. Suas palavras ainda
soam em nossos ouvidos, alegram os nossos corações
quando as lemos e nos levam à reflexão. A saudade
é um sentimento especial reservado às pessoas
especiais.
Perdoe
o leitor o sentimentalismo. Muitos compreenderão
os motivos. Não queremos ser apologéticos ou
representar o papel do discípulo embasbacado
com o mestre. Isto não seria honroso à memória
de Tragtenberg - este nunca teve a pretensão
de deixar seguidores. Mas, somos humanos não
apenas pela razão, mas também pelo sentir. Que
seja compreensível, portanto, declarar o que
pensamos e o que sentimos.
Uma
das formas de expressar este pensar e
sentir é resgatar sua obra e preservar
sua memória. Não, não se trata de cultuar sua
imagem. O culto à personalidade, essa praga
que contamina os que seguem cegamente os líderes,
não é própria aos que, como Tragtenberg, estimularam
o pensamento crítico, a heterodoxia. Quem aprendeu
suas lições não cometerá este equivoco.
Se
resgatamos sua obra é porque esta resiste ao
tempo. Infelizmente, sua crítica mordaz à delinqüência
acadêmica permanece atual. Muros caíram,
conquistamos a democracia - ainda que cambaleante
- e suas palavras, escritas há mais de 20 anos
e proferidas no I Seminário de Educação Brasileira
ainda nos desafiam:
"No
século passado, período do capitalismo liberal,
ela (a universidade) procurava formar um tipo
de "homem" que se caracterizava por
um comportamento autônomo, exigido por suas
funções sociais: era a universidade liberal
humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a
mão-de-obra destinada a manter nas fábricas
o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa,
cria aqueles que deformam dados econômicos
em detrimento dos assalariados; nas escolas
de direito forma os aplicadores de legislação
de exceção; nas escolas de medicinas, aqueles
que irão convertê-la numa medicina o capital
ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados
do sistema. Em suma, trata-se de um "complô
de belas almas" recheadas de títulos acadêmicos,
de doutorismo substituindo o bacharelismo, de
uma nova pedantocracia, da produção de um saber
a serviço do poder, seja ele de que espécie
for."
Estas
palavras podem chocar muitos dos nossos pares
- em especial, aqueles que se iludem com o caráter
público da universidade, como se esta, por si,
reinasse acima das contradições sociais. Acaso
o caráter estatal das universidades tira-lhes
o conteúdo classista? O saber diplomado e titulado
é neutro? A quem servem as universidades?
Parece
claro que as universidades expressam as contradições
presentes na sociedade. Seu caráter público
(estatal) ou privado não isentam-nas de servir
a determinados interesses econômicos e políticos.
Mas, isto ocorre de forma dialética: a universidade
gera o seu oposto, a sua crítica radical.
Não
nos iludamos: os críticos somos poucos e nossa
margem de manobra é mínima. Rejeitamos o jogo
do poder, mas não estamos a salvo da sua sanha.
Dizem que somos ingênuos; para outros,
malditos. Persistimos sufocados entre
a burocracia departamental e a pequenez dos
que utilizam todos os meios para, em nome da
luta antiburocrática, abocanhar parcelas de
poder na estrutura burocrática.
Não
sejamos ingênuos diante da retórica esquerdizante:
na luta pela posse dos recursos, status e poder,
nossos radicalóides utilizam meios que
superam os meios dos que afirmam combater. Há
alguma coerência entre a retórica e a prática
destes pequenos ditadores travestidos de democratas
e de moralistas, defensores da 'coisa pública',
coisa pública esta que disputam com imensurável
gana?
A
análise de Tragtenberg sobre a universidade
atinge a essência daquilo que a retórica esquerdista
dos que se devoram e se consomem para conquistar
o poder: seus meios e seus objetivos não-declarados
ou disfarçados sob o discurso da defesa do público.
De fato, defendem interesses particularistas,
posições na estrutura, fatias do manjar que
alimenta os espíritos insaciáveis pelo poder.
As
"boas almas" rendem-se às exigências
da luta pelo poder. Criticam os que estão no
poder para melhor articular sua ascensão ao
poder; elevados a pequenos potentados, tudo
fazem para manter o status alcançado. Negociam
cargos e 'almas'.
Tragtenberg
nos mostra como a política das "panelas"
acadêmicas de corredor universitário e a publicação
a qualquer preço de um texto qualquer se constituía
no metro para medir o sucesso universitário.
Hoje é diferente? Ontem, a maioria dos congressos
acadêmicos servia de "mercado humano",
onde entravam "em contato pessoas e cargos
acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos
encontros entre gerentes de hotel, em que se
trocam informações sobre inovações técnicas,
revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos
comerciais".Essa realidade mudou?
Hoje,
como ontem, nos seminários, colóquios etc.,
financiados com o dinheiro público ou não, paga-se
para apresentar trabalhos a si mesmos ou aos
amigos, que se revezam entre falantes e ouvintes.
Da mesma forma, o imperativo da quantidade:
não interessa o conteúdo e a qualidade do que
se publica, mas sim quantos pontos vale; também
não importa se alguém lerá o artigo; de preferência
que seja publicado em algum país vizinho, pois
as revistas internacionais garantem uma pontuação
maior. Transformemos aulas em palestras! Nos
insinuemos aos nossos amigos para que nos convidem
a proferir palestras! Façamos acordos de corredores!
É preciso fazer currículo a qualquer custo!
Como
escrevemos em outro momento**:
Eis a "delinqüência
acadêmica" revitalizada!