A
mensagem literária dirige-se hoje para
um homem que vive numa época de especialização,
que exige o culto às ciências naturais como
o único digno de si. Partindo dessa premissa,
uma evidência nos aponta: encontramos médicos,
engenheiros e advogados, mas não o “homem”
inserido nessas profissões. Essa especialização
diferencia-os do resto da humanidade. Submergidos
em suas atividades estes não têm oportunidade
para serem no meio dos homens, “iguais entre
iguais”.
A
especialização é o signo de nossa época. O
gigantesco desenvolvimento do conhecimento
nas ciências naturais, a centralização de
esforços dos Institutos Universitários em
torno das pesquisas físicas longe de prescindirem
de um sentido humano à sua atividade, colocam-no
com mais dramaticidade.
É
o espantoso desenvolvimento das ciências naturais
que revela o fato do homem achar-se num período
de transição. Os velhos valores fenecem e
os novos não foram ainda encontrados. Esse
vácuo é preenchido pela incerteza do homem
quanto ao seu destino
Numa
época de especialização ,
a literatura define os ideais de um período
de crise e transição. Daí toda grande obra
literária ser de um período de transição (veja-se
a importância da mensagem de Dante, Dostoievski
ou Kafka).
Pois
é nesses períodos que se põe dramaticamente
ao homem essa interrogação: qual o sentido
de sua vida, qual a significação do mundo
que o cerca?
O
médico, engenheiro, advogado, encarnam especializações
necessárias ao exercício de suas atividades,
mas têm em comum, um atributo, o de serem
humanos e o de enfrentarem idênticos problemas
numa sociedade em transição.
Somos
filhos de uma sociedade individualista e liberal
e caminhamos para um outro tipo de sociedade
planificada. Como dar-se-á tal mudança? Quais
os agentes desse processo? Não o sabemos.
O que sabemos é que assistimos a um espetáculo
de crise, de transição, onde os velhos quadros
sociais desaparecem e os novos ainda não se
estruturaram.
A
literatura é uma forma de resposta a essa
interrogação. Ela, pelos escritos de Homero
transmitia-nos uma mensagem corporificando
um tipo de homem: o cavaleiro e o nobre; pela
pena de Hesíodo, transmitia-nos uma ética
do trabalho e sua dignificação como sentido
da vida .
Os escritos de Joyce, Kafka e Faulkner, constituem
uma mensagem adequada aos tempos novos: as
formas clássicas do romance estão fenecendo;
cabe ao homem descobrir uma nova linguagem
para exprimir novas experiências de uma nova
vida .
De
todas as formas de arte a literatura é a mais
próxima da vida e a mais sintética, pois reúne
a arquitetura, quando no processo de composição
do romance, a música, na estrutura melódica
da frase, a pintura, no traçar o caráter dos
personagens, a filosofia, ao definir seus
ideais de vida. Daí sua importância para a
cultura.
Sendo
ela acessível aos diferentes especialistas,
poderá formular novas formas de ação ética
e padrões morais. Como um sismógrafo poderá
ela captar o sentido interno da mudança que
se opera no mundo. Para tal, conta com a intuição
artística, que faz com que as mudanças sejam
pressentidas antes pelos seus possuidores,
passando depois aos campos sistemáticos do
conhecimento.
A
transição do século XIX e XX foi assinalada,
em primeiro lugar, pelos impressionistas,
pelo naturalismo literário e posteriormente
pelos teóricos de política, economia e filosofia.
A
literatura pertencendo a um dos campos assistemáticos
do conhecimento tem esse poder. Pode auscultar
as mudanças que se operam no mundo e pela
imaginação de seus grandes nomes, definir
ao homem comum, novos caminhos.
Se
não conseguir formulá-los com nitidez, pelo
menos servirá como testemunho de uma época.
A época que produz Camus, Kafka e Faulkner
,
já escolheu seu destino: eles testemunham
por ela.
Na
época moderna à literatura cabe um papel integrador.
O papel de superar o abismo existente entre
a arte e a vida, arte e ciência, na medida
em que ela mesma é concebida como uma forma
de conhecimento dessa totalidade, que é o
homem.
Cabe
ao escritor viver plenamente sua época, pois
só atinge a grandeza, aquele que sentiu seu
próprio tempo. Este é o segredo da universalidade
de um Goethe, Balzac ou Cervantes.
Nessa
tentativa de traçar com lucidez os quadros
do mundo, onde se desenrola o drama humano,
num período de transição, é que a literatura
deixará de ser o “sorriso da sociedade”, para
ser testemunho de uma época, uma mensagem
acessível a todos, que permitia ao homem independente
de sua especialidade sentir-se junto ao seu
semelhante, como “igual entre iguais”, cumprindo
um sábio preceito chinês.
Se
as profissões diferenciam o homem, cabe à
arte uní-lo em torno de ideais comuns. Isso
ela pode fazê-lo, pois sua linguagem é universal
e a condição humana idêntica em toda a face
da terra.