*
O
grau de validade de uma crítica literária situa-se
entre o nexo histórico que capta a realidade
objetiva e a análise psicológica e literária
que constitui seu suporte subjetivo; da interação
desses elementos é que a criação literária recebe
sua configuração última, adquirindo autoconsciência
dos problemas que analisa e das medidas propostas.
A
criação intelectual, como toda criação, nasce
e se desenvolve num complexo cultural determinado,
onde os fatores objetivos – econômicos ou ideológicos
– são captados pelo intelecto em conexão com
seu suporte subjetivo – o psicológico.
Portanto,
impõe-se a análise do pensamento intelectual,
- o “espírito subjetivo” da inteligentsia
– dentro de um marco sócio-cultural, donde
ele emerge individualmente diferenciado.
1.
– A “INTELIGENTSIA”
Um
dos fatores mais significativos da criação intelectual
na atualidade, consiste em que esta, contrariamente
às civilizações anteriores, não é exercida por
uma casta fechada mas por uma camada, que em
sua gênese aparece desligada de qualquer classe.
Esse
fenômeno sociológico é que determina a universalidade
do pensamento que já se inicia com o humanismo
e cristaliza-se na “Ilustração”, na sua forma
leiga e mundana, oposta à “sacral”.
Criado
pela Revolução francesa, surge esse estrato
social destinado a salvaguardar a herança intelectual,
cumprindo o mesmo papel que as castas sacerdotais
no mundo antigo.
Enquanto
que os homens que tomam parte ativa na produção
social, provindos de diferentes classes, têm
um estilo de vida e pensamento correspondente
à sua “situação de classe”, os intelectuais,
além de trazerem o cunho de sua afinidade classista,
são também determinados pelo meio intelectual,
este contém em si todos os elementos contraditórios
da vida social, e fornece aos intelectuais os
elementos potenciais que os habilita a desenvolver
uma sensibilidade social, sintonizada com as
forças em conflito.
Duas
são as linhas de ação adotadas pelos intelectuais
para sair dessa posição intermediária: filiação
voluntária a uma das classes antagônicas ou
o exame de suas próprias raízes sociais que
os condicionam a defender a herança cultural
da sociedade em seu conjunto. Em relação à primeira
atitude, encontramo-los fornecendo teóricos
para os conservadores, que, devido a sua própria
posição social, dificilmente chegavam a autoconsciência
teórica de sua situação, e fornecendo teóricos
aos movimentos populares. Marx, Engels e Trotsky
são a materialização da inteligentsia “pequena-burguesia”
pelo estilo de vida, e por seu contacto com
o povo, que os habilitava à posição de porta-vozes
dos seus interesses mediatos e imediatos.
A
possibilidade de se aliar a classes que não
pertencem era dada originariamente aos intelectuais,
porque podiam adaptar-se a qualquer ponto de
vista e devido também a sua posição intermediária
entre as duas grandes classes sociais.
Essa
decisão voluntária tinha a virtude de unir os
intelectuais a essa classe durante a luta, mas
nem por isso eles se libertavam da desconfiança
dos membros dela originários.
Segundo
Karl Mannheim, tal desconfiança é um sintoma
de uma realidade social: a assimilação dos intelectuais
a uma classe estranha é limitada por suas características
sociais e psíquicas que lhes são próprias. Somente
à luz dessa desconfiança é que se entende o
fanatismo dos intelectuais radicados nos movimentos
totalitários, sejam fascistas ou estalinistas.
Esse fanatismo é uma compensação psicológica
pela falta de integração mais profunda numa
classe e pela necessidade de vencer a própria
insegurança e a desconfiança da mesma classe,
à qual pretende ele se ligar.
A
inteligentsia como parte orgânica de uma
estrutura social determinada, dela recebe sua
configuração específica – conservadora ou revolucionaria
– e a amplitude e limites lógicos de seus problemas.
Assim
a inteligentsia russa que trocou os diplomas
universitários por uma bomba, o estudo pela
ação conspirativa, representada por Netchaev,
Bakunine e Vera Figner, era fruto de uma estrutura
social feudal e do absolutismo político; somente
a industrialização e o aparecimento das Dumas
é que permitiu o surgimento dos Plekhanov
ou Jordânia.
Enquanto
isso a inteligentsia ocidental, formada
na tradição parlamentar ingressava nas universidades
oficiais. No entanto, à medida que entrava em
contacto com as realidades fundadas pela revolução
industrial ela se ligava, sob a ação da propaganda
ou da vaidade, ao totalitarismo, seja nazista,
fascista ou estalinista, tendo um destino trágico.
Ela
é a parte da sociedade que reflete mais diretamente
sua ascensão ou decomposição. Sua deterioração,
seu aniquilamento físico, a perda de sua liberdade
de crítica, mostram o processo de decomposição
das elites dirigentes e do estalinismo.
O
nazismo e o fascismo sabiam bem o que faziam,
quando exterminaram a inteligentsia independente
de vinculações estamentais, suprimindo-a ou
transformando-a em simples parafuso de máquina
burocrática, estatal ou partidária.
No
entanto, a inteligentsia não pode flutuar
no ar: coloca-se o problema de orientá-la
num sentido positivo, pois ao ver-se privada
do apoio dos grupos progressistas da sociedade,
ela volta-se contra si mesma erigindo sua “torre
de marfim”.
Ela
deve procurar esse apoio nos grupos sociais
ascendentes, pois ela é a materialização do
espírito histórico da cultura, em oposição aos
grupos sociais decadentes que tomam e da cultura,
devido a uma “falsa consciência” de sua situação
específica – grupo decadente – identificando-a
com a situação da sociedade global.
2.
– FRANZ KAFKA.
Sua
obra constitui a materialização das tensões
sociais numa alma pequeno-burguesa, isso aparece
na sua dicotomia: profissionalmente é gerente
de uma companhia de seguros, e subjetivamente
é um intelectual, um artista.
O
vácuo existente entre esse “desdobramento” foi
preenchido pela crise. Essa antinomia marcou
sua existência, tornando-o um tipo introvertido.
Daí, seu estilo alegórico e o tema da “incomunicabilidade”
entre os homens, vivido por José K. no “O Processo”
e pelo agrimensor no “O Castelo”.
Justifica-se
essa atitude de reserva, pois ele, como intelectual,
é olhado com suspeita pelo seu próprio grupo
social e familiar, por esses burgueses rotineiros
que compensam suas frustrações quotidianas no
culto fetichista do cheque bancário que lhes
garante a segurança financeira, da religião,
que assegura um passe livre ao céu e do Estado,
supremo protetor de suas propriedades.
Franz
Kafka choca-se com uma organização social que
impõe como “anormal” toda atividade que não
vise um lucro, não propicie uma felicidade sonante,
como a do escritor que faz profissão do mental
e do “ocioso”, num mundo de valores pragmáticos
e contábeis.
O
drama de F. Kafka é o drama de um membro de
uma família pequeno-burguesa.
A
“incomunicabilidade” kafkiana não é uma categoria
abstrata de caráter extraterreno, ela pertence
à “contingência”, “ao quotidiano” da vida de
cada um.
Ela
é um “recurso” literário e artístico refinado
como conseqüência de sua oposição ao Pai. Segundo
seu próprio testemunho, toda sua obra advém
do conflito com seu pai. O pai, um tipo bonachão,
audacioso, de temperamento brutal e dominador,
o filho, o oposto: um “intelectual”, um contemplativo.
A
incomunicabilidade leva a oposição de caracteres;
daí advém uma luta surda e Kafka se sente como
um criminoso que espia um crime que não cometeu.
É
a mesma sensação de esmagamento que José K.
sente ao enfrentar o Tribunal, de um criminoso
sem culpa formada e formalizada, julgado sem
saber por quem e condenado sem saber como.
É
uma antevisão kafkiana da tragédia judaica no
processo da 2ª guerra mundial, - a de perseguidos
sem culpa, pela onda totalitária.
No
entanto, deve-se ressaltar que seu desligamento
de um grupo social ascendente impediu-o de levar
sua obra a uma espécie de uma tomada de consciência
de uma realidade universal e ao mesmo tempo
particular: a do homem do século XX, entre duas
guerras.
Essa
unilateralidade sociológica é compensada por
qualidades pessoais: o sentido kafkiano da arte
como atividade vital e sua sensibilidade em
captar o que há de trágico e agrotesco no quotidiano
do homem moderno.
Se
O Processo é o retrato da desintegração
da personalidade humana ante um Estado totalitário
e impessoal, América é uma critica severa
a uma civilização que erige como ideais de vida,
a televisão, a geladeira ou o automóvel.
3.
– O TEMA DO “ABSURDO” NO SEU DESENVOLVIMENTO
HISTÓRICO. (De
Dostoievski a Kafka)
Na
preparação do caminho para a interpretação do
“absurdo” na vida humana situa-se o homem “dostoievskeano”,
que aparece como negação de um racionalismo
de perfumaria, de um Botroux ou de um Alain.
No
homem “dostoievskeano” a alma é puro caos. Encontramos
ébrios por desejo de pureza (Marmeladov), homens
que violam virgens por respeito à inocência.
O amor e o ódio, a volúpia e a fraqueza confundem-se
em “transposições” ininterruptas.
Svidrigailov,
Fedor Karamazov e Raskolnikov são dissolutos,
no entanto estão separados por um abismo dialético.
A volúpia de Svidrigailov e a depravação “fria”
de Karamazov representam “a alegria de viver”.
Raskolnikov encarna a maldade intelectual unida
à perversão.
Dostoievski
decompõe a volúpia e remonta às suas raízes,
às suas composições mais misteriosas, insistindo
na antinomia entre o “mundo” e o “eu”, o aniquilamento
do homem em favor de forças invisíveis.
É
o profundo sentido do “absurdo da vida”, que
tem suas raízes em Dostoievski, ramificando-se
em Albert Camus com La Peste num sentido
“imanentista” e assumindo “traços transcendentais”
em Franz Kafka.
O
“absurdo” atinge sua máxima expressão em Dostoievski,
na lenda do Grande Inquisidor nos Irmãos
Karamazov e no suicídio de Kirilov n’Os
Possessos.
Na
legenda do Grande Inquisidor, Cristo desce à
terra na época da inquisição espanhola. O Grande
Inquisidor justifica sua missão terrena mostrando
a Cristo que ele dando liberdade ao homem –
“a verdade vos tornará livres” – “eu sou a verdade”
– deu-lhe um fardo pesado para suas costas fracas
e o Grande Inquisidor “tirando-lhe a liberdade
em troca da segurança” revelou-se seu amigo,
ao mesmo tempo em que transferia toda responsabilidade
dos atos humanos na terra para si, deixando
para o homem o pão terrestre. Em nome do homem
e do cristianismo o Grande Inquisidor poderia
atirar Cristo à fogueira.
Nessa
legenda, além de Dostoievski mostrar todo o
processo de burocratização da Igreja Romana
a quem ele odiava por ser ortodoxo, ele nos
mostra que toda idéia religiosa ou social desenvolve-se
sob o signo do absurdo.
Em
sua fonte original a idéia é limpa e pura: o
cristianismo na pessoa do Cristo. Quando porém
ela se institucionaliza – Igreja, dogma e clero
-, ela se nega a si própria. Daí o cristianismo
poder findar em Inquisição, como o culto à “deusa
razão” terminou no “despotismo da liberdade”,
contra a tirania, de Robespierre.
Se
Deus não existe, tudo é permitido, então eu
gozo de uma liberdade ilimitada. O máximo de
liberdade consiste na prova de meu aniquilamento.
Eu me mato para provar a minha liberdade e ao
mesmo tempo que Deus não existe.
Esse
é o “absurdo” do homem que vai da liberdade
ilimitada ao auto-aniquilamento.
Em
La Peste de Albert Camus esse absurdo
tem um aspecto imanentista: é a morte; uma multidão
de ratos invade uma cidade, espalhando-a tornando-a
quotidiana. A coabitação com a morte tira dela
qualquer aspecto “trágico”. É o inumano bordejando
o humano: ele é imanente à própria existência.
Em
Franz Kafka o “absurdo” é transcendental; reside
na incomunicabilidade do homem com o homem,
formando uma trama de relações pessoais “sem”
sentido, impostas por circunstancias alheias
ao homem. O agrimensor n’O Castelo não
se comunica com a autoridade suprema, Klamm.
O personagem de O Processo José K., não
se comunica com uma justiça, que permanece eternamente
na penumbra, assim como Kafka não se comunica
com Deus.
O
fenômeno mais significativo no pensamento de
F. Kafka consiste na desierarquização espiritual
que coloca seres, objetos e situações em nível
de idêntica força causal.
Nele
tudo assume a forma de uma categoria capaz de
transcendência; o fato mais insignificante converte-se
em símbolo, em sonho. Assim, o sobrenatural
pertence também a esse mundo quotidiano. Sua
irônica dialética a respeito do conhecimento
além do real, encontra sua expressão nessa sentença
típica: “o conhecimento é a etapa que leva à
vida eterna e o obstáculo colocado diante dela”.
4.
– O PROCESSO
Essa
obra de F. Kafka é a previsão das maiores farsas
judiciais dos tempos modernos, como os Processos
de Moscou e Budapeste. É o supremo protesto
contra a volta aos aspectos mais negativos da
Renascença, materializados no culto à “razão
de Estado”, sob os regimes totalitários.
Essa
antevisão aparece no destino trágico e absurdo
de José K., escravo e joguete de forças estranhas
e invisíveis, tão impessoais como a burocracia
que o condena.
Nessa
obra aparece com maior clareza o traço original
que liga a vida à obra de F. Kafka.
O
personagem principal de O Processo coloca-se
diante de um problema de caráter finalista:
“da direção e sentido de sua existência, de
seu destino inexorável que culmina com a morte”.
Pelo
fato de viver “para” esse destino é que o homem
kafkiano se converter num condenado permanente
sem outro consolo que suas meditações sobre
uma culpa inexplicável, projetada em sua vida
por uma autoridade impessoal e invisível como
ela própria. Essa luta contra o absurdo finalismo
de nossa existência adquire aspectos patéticos
no homem kafkiano.
Ela
é expressa por Kafka quando no seu Diário
escreve:
“Eu
luto mais que os outros. A maior parte luta
com sonhos como quando se agita a mão para desviar
minhas forças com reflexão e minúcia”.
O
personagem verdadeiro de O Processo é
a culpa. Uma culpa surda e invisível ligada
organicamente ao ser, à existência.
José
K., não enfrenta a luta, limita-se a padecê-la
como um doente experimental que sofresse sozinho
os efeitos da culpa. Esse herói é um tipo comum
de funcionário bancário que enfrenta a Autoridade,
“sofrendo” uma culpa cuja origem e razão ele
próprio desconhece.
Com
essa passividade de José K., diante da culpa
e da Autoridade invisível, Franz Kafka esforça-se
em mostrar que o que existe “fora” de nós, consiste
simplesmente no aniquilamento e no “absurdo”.
O inumano sempre bordeja o humano. E todas as
consolações edificantes expressas em sistemas
filosóficos nada mais são do que “racionalizações”
desse absurdo, que só é apreendido pelo processo
novelesco. Daí, a opção de Kafka pelo gênero
conto ou romance.
O
“absurdo” em F. Kafka rejeita todas as formas
de “alienação”, seja a família, profissão, dinheiro,
sistemas filosóficos, religião e o patriotismo.
Elas nada podem contra o “escândalo” que
consiste no simples existir.
O
herói kafkiano rejeita a santidade como o desespero:
sua atitude é de imobilidade ante o absurdo.
José
K., faz a prova da liberdade, permanecendo imóvel
ante a Autoridade e atraindo sobre si “livremente”
todas as conseqüências de sua atitude.
No
decorrer do processo, José K., comporta-se-á
como culpado do principio ao fim; em vez de
inquirir “porque” o acusam interessa-lhe saber
mais “quem” o acusa, tentando manter-se lúcido,
a única arma que lhe resta. Sua tristeza é ter
que se ir, sem conhecer nem saber que juiz o
condena.
A
impessoalidade da burocracia judicial transparece
claramente no encontro entre José K. e o pintor:
-
Os grandes advogados quem são? Como podem ser
vistos? – pergunta José K.
-
Você nunca ouviu falar deles? – responde o pintor.
Não há nenhum acusado que não sonhou com eles
durante algum tempo. Não se deixe dominar por
essa debilidade. Quem são? Não sei. Quanto a
conhecê-los, impossível.
Vemos
o tema da autoridade unido estreitamente à culpa.
José k., não pode viver sem se justificar. Então,
tende a procurar a Autoridade. E se tal Autoridade
não existisse, pensa ele, para que então essas
idas e vindas, todo esse sofrimento, todo esse
absurdo? Ela existe mas não é acessível a José
K. Estamos diante da “incomunicabilidade”. A
Autoridade, o Conselho Judicial de um lado,
o homem do outro.
É
a presença hofmaniana dessa máquina judicial,
de uma justiça invisível que deixa no ar o gesto
cego e impensado de uma acusação e uma sentença
que parecem agitar-se no vácuo, funcionando
mecanicamente que acaba reduzindo o individuo
a condição promíscua de sub-homem.
Na
prisão de José K. revela-se novamente a incomunicabilidade.
Os funcionários que o prenderam nada podem dizer.
Estão aí para prendê-lo, para cumprir
ordens. “Tudo existe, mas nada se comunica”.
A desconformidade do movimento parcial é a lei.
Cada fenômeno move-se em seu próprio circulo
hermeticamente fechado, sem ligação com o general.
O
espanto de José K. ante sua detenção não tem
limites. Nascido sob o agasalho de uma Constituição
que garantia os direitos individuais, não concebe
essa invasão em sua vida e ainda desconcertado
pergunta:
-
De que falam? A que serviço pertencem? Ninguém
lhe responde.
Essa
experiência do pacato cidadão diante da Autoridade
é uma visão antecipadora do processo de sujeição
do homem ao totalitarismo vivido na experiência
do fascismo, nazismo e estalinismo.
José
K. sente a força do destino em sua vida: este
está traçado. Se o deixassem em liberdade condicional
o pacato José K. seguiria sua existência normal:
ir ao Banco, visitar semanalmente Elsa, passear
com o chefe. Tenta iludir-se pensando que sua
detenção nada pode ter de terrível.
José
K. achega-se ao guarda principal e os outros
se achegam por sua vez, formando um grupo cerrado.
Por um processo de abstração ele se imagina
tomando parte no grupo que o persegue, o “acusado
livre” comenta o seu próprio “caso” com outrem,
como se outro fosse. No entanto ele, nem sempre
pode levar-se pelos vôos da imaginação e manter-se
calmo.
Há
momentos em que o desespero se apodera dele.
Então, é quando sente a necessidade de conversar
despreocupadamente, justificar-se perante os
outros. José K. procura contacto com a vida,
com os bens terrestres, coisa que Kafka aspirará
encontrar em sua vida, mais inutilmente.
Angustiado
José K. procura comunicar-se; sente uma incoercível
necessidade de falar sobre o “caso” com a Senhora
Grubach, travar com ela relações mais amigáveis,
quotidianas.
O
que importa n’O Processo é o culpado
mais do que a justificação ou não da causa,
que é pouco menos que secundaria, porque a justiça
é inacessível, permanecendo incomunicável com
o homem. Essa máquina permanece só, sem gestos,
nem aparatos, como uma presença insólita no
drama do humano.
Nesse
singular processo pouco interessa o dia do julgamento:
ele se efetua num “domingo”. O lugar onde funciona
o tribunal pouco importa, num “local abandonado”.
Pouco importa o “nome” do acusador; José K.
é confundido com um pintor de paredes. Uma promiscuidade
horrível reina em seu redor e tudo se processa
numa marcha “mecânica” e “indiferente”. Pressente-se
que o desfecho inevitável do drama, que se passa
num ambiente opressor, junto às lavadeiras inexplicáveis,
é a “morte”. Isso todos sabem porque todos estão
envolvidos. A intervenção inexplicável do tio
do acusado no processo representa “simbolicamente”
um chamado à vida familiar, de cujo circulo
Franz Kafka permaneceu inteiramente afastado.
O
advogado sob cuja tutela o herói permanecerá
durante o transcorrer do processo, representa
a transição com a corrupção, a cujos sinistros
mecanismos é mister submeter-se e a cuja autoridade
é impossível atingir. Essa é a significação
exata da presença de Titorelli, pintor medíocre,
amigo, tal como o advogado, de juizes subalterno
se servis que muito pouco farão por José K.
lhe diz:
-
Pertences à Justiça? Para que me queres?
-
A Justiça nada quer de ti. Toma-te quando vens
e deixa-te quando vais.
Certa
noite a Justiça vestida de negro aparece diante
de José K. Levam-no a um local afastado e com
três facadas no coração liquidam-no. Onde estava
o juiz? Onde estava a Alta Corte que o condenou?
Continuam sendo entidades abstratas e incomunicáveis
com o humano, com José K. transformado em símbolo.
5.
– O CASTELO
A
vontade de possuir uma casa, ter uma segurança
mínima é o que alenta o incansável agrimensor
de O Castelo.
“As
primeiras experiências do agrimensor K., desenvolve-se
na trama sutil armada pelo absurdo que acolhe
o homem em suas malhas”.
O
agrimensor K. choca-se com o sentimento de impotência,
com as casas semi-destruídas, que aglutinadas
entre si formam um bloco compacto representando
o inacessível, que o homem tenta atingir, mas
não consegue.
O
agrimensor esmagado pela incomensurabilidade
do Castelo, chega a duvidar de si próprio, perguntando-se:
“quem sou eu pois?”. No entanto, uma carta da
Alta Autoridade do castelo chama-se para lá;
ela é assinada por um chefe poderoso, Klamm.
Logo se anuncia o equívoco havido. Após
sua conversa com o alcaide, K., começa a duvidar
da própria existência de tal chamado.
É
informado que O Castelo prescinde de
seus serviços, que tudo se encontra medido.
Inicia-se aqui a luta violenta com o “inimigo”.
Apesar de tudo, o agrimensor obstina-se em ser
admitido. Sua esperança é entrar em contacto
com Klamm, ser admitido, ouvir de seus lábios
a palavra decisiva; essa é a aspiração constante
que o domina.
Não
consegue realizar seu desejo, sua vontade é
consumida num continuo rodeio, fica sempre detido
nas imediações, nas medidas preliminares; outro
aspecto da “incomunicabilidade” kafkiana.
Busca
ele apoio para se ligar, entrar em contacto
com a autoridade inacessível: Klamm. Liga-se
a Frieda, à hoteleira e a Barnabé. A hoteleira
torna-se amiga de Klamm, o chefe poderoso.
Sem
ser poderosa aspira a sê-lo e admira secretamente
os que estão nas altas posições da escala social.
Essa burguesia média despreza o idealista que
sai de suas próprias fileiras, tendo maior consideração
pelos tipos vazios que freqüentam o “Hotel dos
Senhores”. Em outro plano, a hoteleira representa
uma liberdade submissa à autoridade (Klamm).
O
principio do mundanismo é claramente refletido
pela hoteleira, princípio que quer salvar
pela sua oposição ao matrimonio de K., com Frieda.
A hoteleira teme por seu mundo. Receia no fundo
qualquer contacto entre K. e Klamm.
“Isso
mostra que a Autoridade está seqüestrada pelos
submissos. E a submissão que tem medo de modificações,
dos que querem ‘continuar’ que confere a ela
sua força inaudita”.
A
hoteleira pressente que o encontro entre K.
e Klamm dissolve o princípio da Autoridade
da qual ela depende.
Quão
comovente é a descrição do episódio em que o
agrimensor desesperado se decide a falar diretamente
com a Autoridade, Klamm, de quem depende diretamente
seu destino. A espera inútil, o ambiente no
“Hotel dos Senhores”, a descrição desse ambiente,
que parece não conter em si outra vida, senão
de forjar a “vivencia” do herói, é de uma força
digna de um Dostoievski.
K.
permanece distraído e cansado no interior de
um trenó esperando a chegada de Klamm. Um homem
vem ao seu encontro: não é Klamm. Informa-lhe
que este não virá. Há um instante em que o recém-chegado,
o cocheiro e o trenó se retiram. Então K. sente
que se “cortou” toda união, que goza de uma
terrível liberdade, ninguém teria o direito
de jogá-lo, tocá-lo ou falar-lhe.
Nada tão desprovido de sentido e aterrador como
essa intangibilidade do herói.
Enquanto
K. sonha chegar ao Castelo, Frieda sente a nostalgia
da quietude olhando com sugestiva simpatia esses
seres despreocupados que lhe são afins. Ainda
que bobos ou inconscientes, Jeremias e Artur
representam a “segurança”, o não-compromisso.
K. vê-se obrigado a compactar com eles. Sujeita-se
a viver na mesma habitação, na escola.
Essa
curiosa residência e a promiscuidade reinante,
simbolizam com maestria a transação, o compromisso
a que nos obrigam com desgraça freqüência as
circunstâncias da vida.
O
fracasso configura toda a existência de K.,
pois as aspirações realizam-se de um modo “absurdo”,
a realidade as deforma.
Frieda
e K. têm plena consciência que sua união é impossível:
apesar da vontade subjetiva de unir-se, o destino
de cada um é diferente. O destino de Frieda
diferencia-se profundamente do destino trágico
de K. Ela não é um tipo para abandonar sua família,
seu estilo de vida tecido de fins imediatos.
Ela representa o quotidiano, o comum, o banal.
Essa
passagem está impregnada do drama pessoal de
Franz Kafka, o biográfico, o psicológico e o
literário se confundem.
Numa
carta memorável destinada ao pai F. Kafka expõe
os motivos que o levam a renunciar a uma união
conjugal. Em primeiro lugar, ela se opõe à sua
vocação literária. Tudo que não é literatura,
para ele é penoso e insuportável. Outro motivo,
sua constituição débil e enfermiça, seu caráter
nervoso e insatisfeito. F. B. sua noiva é o
oposto, “um ser tão natural e robusto”.
Apesar
de todos os protestos da noiva ele sabe que
o matrimônio a desgraçaria. Desprovido de todo
o sentido de família a união contribuiria para
afetivá-lo.
A
hoteleira n’O Castelo não vê com bons
olhos a união de Frieda com K.
Ela
é a imagem de uma sensatez doentia, que consiste
em compor as partículas em que se dividem as
circunstâncias com o mundo. Ela considera K.
um insensato e uma loucura, sua pretensão de
entrar em contacto com Klamm, expoente do único
poder que ela reconhece e respeita.
As
dificuldades com que tropeça K., não se erguem
só em seu caminho ao Castelo, elas aparecem
insistentemente no mais humilde acesso a um
oposto, por pequeno que seja, na comunidade.
Esta
sociedade não é digna do herói. Nela as coisas
estão organizadas no sentido de uma submissão
hipócrita, de uma “convivência” com a Autoridade
que K. não aceita, pois, aspira a se realizar
no seu ofício de agrimensor. Mas, o meio sugere-lhe
outra solução. Klamm, Frieda incitam-se a manter-se
longe de seus desejos íntimos, conformando-se
com as “mediações”. K. não aceita o meio termo
que as circunstâncias lhe impõem, assim como
F. Kafka – é um rebelde, um insubordinável.
Franz
Kafka havia explicado ao seu amigo Max Brod
como terminava essa novela, truncada, como o
fora a vida de seu autor. O agrimensor finalmente
consegue obter uma parca satisfação. Mantêm-se
firme, não se dobrando. Mas morre de esgotamento.
Em redor de seu leito mortuário a comunidade
se reúne e nesse instante chega do Castelo uma
decisão que declara não ter K. realmente direito
à cidadania no lugar, mas, não obstante, tem
autorização para viver e trabalhar na localidade.
Há
algo mais simbólico que esse final? Não é visível
que o herói como o seu Autor “preferiu” a morte?
O
que agravara a luta entre o herói e o Castelo,
foi o fato deste não lhe dar combate, oferecendo-lhe
uma resistência passiva. Desesperante e esgotadora.
K. é “vivido” pelo Castelo e as coisas se sucedem
com pré-determinação absoluta. A essa vivência
deve-se o fato da vida do agrimensor desenvolver-se
ligada a um equívoco fatal: o erro consiste
em crer que se está lutando para chegar ao Castelo,
quando não se faz outra coisa na realidade,
do que permanecer nas mediações. É o
fenômeno da incomunicabilidade, que marca não
somente O Castelo mas o sentido profundo
dos escritos de Franz Kafka.
-
Aliás, já Marcel Proust num artigo
publicado na “Nouvelle Revue Française” no
ano de 1920 sob o título A propos du style
de Flaubert já fazia o que hoje os adeptos
do new criticism anglo-saxão tão empafiamente
chamam de ‘análise estilística” ou “crítica
interna”.
- Trabalho premiado
pelo Centro Literário “Barros Casal” (Rio
Grande do Sul) 1º prêmio no gênero “Ensaio
literário”.
Sobre
a ‘inteligentsia’ ocidental e seu papel social:
Karl Mannheim, “Ideologia e Utopia”, págs.
141-151. Ed. Globo, 1950, onde o autor defende
a famosa tese da “desvinculação classista”
do intelectual e a existência de várias alternativas
colocadas ante o mesmo, permitindo uma tomada
de posição perante outros grupos sociais.
Essa noção do “intelectual” livre está vinculada
a tradição da filosofia especulativa do idealismo
clássico onde o pensador aparece colocado
ante o produtor de um lado, e o consumidor
de outro. A crítica a esse “fetichismo
da consciência intelectual desvinculada dos
grupos sociais” aparece com clareza em Irving
Louis Horowitz, “Sociologia cientifica
y sociologia Del conocimiento”. Lib. Hacchete.
Buenos Aires, pág. 60. Ed. 1958-1959.
Sobre
o histórico do tema do ‘Absurdo’ em Dostoievski:
1. “Crime
et chatiment”. Ed. Gallimard. Paris, 1950.
2. “Les
Fréres Karamazov”. Ed. Gallimard. Paris, 1952.
3. “Les
Demons”. Ed. Gallimard. Paris, 1955.
Em
Albert Camus – 1. “La Peste”. Ed. Gallimard.
Paris, 1947.
Sobre
a vida de F. Kafka – Max Brod “Franz
Kafka”. Ed. Gallimard. Paris, 1945.
Obras
de F. Kafka utilizadas:
1. “The
Diaries of Franz Kafka”. Ed. Schocken. New
York, 1948.
2. “El
Processo”. Ed. Losada. Buenos Aires, 1939.
3. “America”.
Ed. Routledge. Londres, 1938.
4. “The
Castle”. Ed. Konpf. New York, 1947.