O problema judaico é em suma o
problema de uma minoria grupal que além de possuir
certa unidade de culto define-se basicamente pela
situação de classe média, intermediaria entre
as grandes classes sociais modernas: burguesia
e proletariado.
O elemento judaico (tradicionalmente
concebido) ao integrar-se numa dessas classes
extremas automaticamente abandona os usos e costumes
do grupo de origem, deixa de ser judeu, assimila-se
ou ao grupo dominante ou ao dominado.
O desenvolvimento do capitalismo
permitiu uma grande margem de integração do judeu
na sociedade global, a crise deste reavivou o
problema da concorrência entre as classes médias
na forma de anti-semitismo. A reação da classe
média nativa contra a intrusa, a alienígena.
Sob o capitalismo moderno o problema
judeu apresenta dois aspectos básicos. De um lado
o elemento judaico integra-se na mecânica econômica
do desenvolvimento moderno – no comercio, banco
ou indústria.; de outro, essa integração
acarreta fricções com os nativos, motivando reações
anti-semitas, aproveitadas pelos donos do poder
para desviar a atenção do povo de seus problemas
de subsistência. A consciência social em vez de
estar penetrada de agudo discernimento dos problemas
econômico-sociais mais prementes regride à esfera
biológica e racial, daí o mito da “pureza” racial
encontrar campo aberto.
O sionismo representa uma reação
da classe média judia que por via diferente chega
à mesma solução pregada pelos “assimilacionistas”.
Isso é, o povo judeu deve deixar de ser um povo
– classe, deve “produtivar-se”, acabar com a herança
do “gheto”. O Estado de Israel
representava a realização dessa tendência.
O Estado de Israel não resolve
o problema judaico globalmente falando, constitui
solução para os que lá emigram. Acrescente-se
um fato, a criação de um Estado Nacional numa
época de universalização das relações econômico-sociais,
sob a égide de uma burguesia nativa que monopoliza
os postos de mando – pois a “burocracia” da Histadrut
representa mais a burguesia que o operariado –
tem um caráter profundamente conservador. Essa
burguesia palestinense utiliza o nacionalismo
como ideologia de classe, os chamados partidos
de esquerda do sionismo – Mapai, Mapam, Achdut
Avodá – incorporam o nacionalismo à sua fraseologia
socialista. Borochov representa a síntese entre
a idéia socialista proletária e o nacionalismo
de fundo pequeno-burguês materializado no chamado
sionismo-socialista.
Tudo isso apesar da existência do movimento do kibutz, ideal fourierista
de pequenas comunidades agrárias auto-suficientes,
representam uma “vanguarda” sem retaguarda. O
espírito de vanguarda existe na idéia socialista
que anima seus membros, espírito esse diluído
pela vida em moldes agrários, logicamente mais
conservadores que urbanos, onde a luta de classes
é vivida “teoricamente” nos livros dos clássicos
do marxismo unidos ao contrabando pequeno-burguês
do nacionalismo.
O problema judeu como o problema
de outras minorias – o do negro – não pode ser
resolvido independentemente de outros problemas
econômico-sociais que afligem a humanidade.
Num mundo universalizado pela energia
nuclear, avião a jato, não existem soluções autárquicas
e nacionalistas. Tudo é resolvido na arena internacional.
O elemento judeu como elemento
de classe média tem possibilidades de esolha,
ou alia-se aos donos do poder ajudando-os a manter
o “statu quo” ou alia-se aos que nada têm a perder
para mudar o “statu quo”.
Sob ponto de vista econômico o
elemento judeu – de classe média – procura integrar-se
dentro da órbita estatal como engenheiro, médico
ou advogado. Ou então aparece como um assalariado
qualificado nas grandes corporações econômicas
do mundo moderno. O judeu de classe média não
foge ao destino de outros pertencentes ao mesmo
grupo social: ou integra-se na máquina estatal
ou então na grande corporação industrial moderna.
Aliás, essa integração não se dá
somente com a classe média; o proletariado sofre
o mesmo processo. Atualmente, o capitalismo de
Estado consegue realizar o sonho de Comte da “integração
do proletariado na sociedade”. A criação do Seguro
Social Estatal, do Sindicato ligado ao Estado
representa tendências nesse sentido.
Em suma, a integração dentro das
normas do capitalismo do Estado dos países mais
desenvolvidos não é somente um fenômeno da classe
média judia mas também da indígena acompanhada
de seu proletariado. Basta ver a história do Estado
brasileiro de 1930 até hoje. Os IAPCS, IAPI, IAPETEC,
Sindicatos, Ministério do Trabalho representam
canais institucionais dessa integração. Ante esse
processo universal de amalgamento das classes
médias e proletárias pelo capitalismo estatal
centralizado, o problema judeu representa um mal
entendido “racial” de um processo econômico que
tem sua lógica interna. Falta só descobri-la.