Por MAURÍCIO TRAGTENBERG
Textos Políticos - In Memorian


 

O Judeu, a Classe Média e o Estado Moderno

 

O problema judaico é em suma o problema de uma minoria grupal que além de possuir certa unidade de culto define-se basicamente pela situação de classe média, intermediaria entre as grandes classes sociais modernas: burguesia e proletariado.

O elemento judaico (tradicionalmente concebido) ao integrar-se numa dessas classes extremas automaticamente abandona os usos e costumes do grupo de origem, deixa de ser judeu, assimila-se ou ao grupo dominante ou ao dominado.

O desenvolvimento do capitalismo permitiu uma grande margem de integração do judeu na sociedade global, a crise deste reavivou o problema da concorrência entre as classes médias na forma de anti-semitismo. A reação da classe média nativa contra a intrusa, a alienígena.

Sob o capitalismo moderno o problema judeu apresenta dois aspectos básicos. De um lado o elemento judaico integra-se na mecânica econômica do desenvolvimento moderno – no comercio, banco ou indústria.; de outro, essa integração acarreta fricções com os nativos, motivando reações anti-semitas, aproveitadas pelos donos do poder para desviar a atenção do povo de seus problemas de subsistência. A consciência social em vez de estar penetrada de agudo discernimento dos problemas econômico-sociais mais prementes regride à esfera biológica e racial, daí o mito da “pureza” racial encontrar campo aberto.

O sionismo representa uma reação da classe média judia que por via diferente chega à mesma solução pregada pelos “assimilacionistas”. Isso é, o povo judeu deve deixar de ser um povo – classe, deve “produtivar-se”, acabar com a herança do “gheto”. O Estado de Israel  representava a realização dessa tendência.

O Estado de Israel não resolve o problema judaico globalmente falando, constitui solução para os que lá emigram. Acrescente-se um fato, a criação de um Estado Nacional numa época de universalização das relações econômico-sociais, sob a égide de uma burguesia nativa que monopoliza os postos de mando – pois a “burocracia” da Histadrut representa mais a burguesia que o operariado – tem um caráter profundamente conservador. Essa burguesia palestinense utiliza o nacionalismo como ideologia de classe, os chamados partidos de esquerda do sionismo – Mapai, Mapam, Achdut Avodá – incorporam o nacionalismo à sua fraseologia socialista. Borochov representa a síntese entre a idéia socialista proletária e o nacionalismo de fundo pequeno-burguês materializado no chamado sionismo-socialista.

Tudo  isso apesar da existência do movimento do kibutz, ideal fourierista de pequenas comunidades agrárias auto-suficientes, representam uma “vanguarda” sem retaguarda. O espírito de vanguarda existe na idéia socialista que anima seus membros, espírito esse diluído pela vida em moldes agrários, logicamente mais conservadores que urbanos, onde a luta de classes é vivida “teoricamente” nos livros dos clássicos do marxismo unidos ao contrabando pequeno-burguês do nacionalismo.

O problema judeu como o problema de outras minorias – o do negro – não pode ser resolvido independentemente de outros problemas econômico-sociais que afligem a humanidade.

Num mundo universalizado pela energia nuclear, avião a jato, não existem soluções autárquicas e nacionalistas. Tudo é resolvido na arena internacional.

O elemento judeu como elemento de classe média tem possibilidades de esolha, ou alia-se aos donos do poder ajudando-os a manter o “statu quo” ou alia-se aos que nada têm a perder para mudar o “statu quo”.

Sob ponto de vista econômico o elemento judeu – de classe média – procura integrar-se dentro da órbita estatal como engenheiro, médico ou advogado. Ou então aparece como um assalariado qualificado nas grandes corporações econômicas do mundo moderno. O judeu de classe média não foge ao destino de outros pertencentes ao mesmo grupo social: ou integra-se na máquina estatal ou então na grande corporação industrial moderna.

Aliás, essa integração não se dá somente com a classe média; o proletariado sofre o mesmo processo. Atualmente, o capitalismo de Estado consegue realizar o sonho de Comte da “integração do proletariado na sociedade”. A criação do Seguro Social Estatal, do Sindicato ligado ao Estado representa tendências nesse sentido.

Em suma, a integração dentro das normas do capitalismo do Estado dos países mais desenvolvidos não é somente um fenômeno da classe média judia mas também da indígena acompanhada de seu proletariado. Basta ver a história do Estado brasileiro de 1930 até hoje. Os IAPCS, IAPI, IAPETEC, Sindicatos, Ministério do Trabalho representam canais institucionais dessa integração. Ante esse processo universal de amalgamento das classes médias e proletárias pelo capitalismo estatal centralizado, o problema judeu representa um mal entendido “racial” de um processo econômico que tem sua lógica interna. Falta só descobri-la.

 

MAURÍCIO TRAGTENBERG

Fonte: Agosto/58 – MAURICIO TRAGTENBERG (Fac. Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Seção de História)    

 

 

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