Professores, alunos, funcionários,
diretores, orientadores. As relações com todos estes
personagens no espaço da escola reproduzem, em escala
menor, a rede de relações que existe na sociedade.
Isso não é novidade. O que interessa
é conhecer como essas relações se processam e qual o
pano de fundo de idéias e conceitos que permitem que
elas se realizem de fato. A nós interessa analisar a
escola através de seu poder disciplinador. Conforme
diz o pensador francês Michel Foucault, a escola é o
espaço onde o poder disciplinar produz o saber.
Essa situação surgiu no século
XIX com a instituição disciplinar que consiste
na utilização de métodos que permitem um controle minucioso
sobre o corpo do cidadão através dos exercícios de domínio
sobre o tempo, espaço, movimento, gestos e atitudes,
com uma única finalidade: produzir corpos submissos,
exercitados e dóceis. Tudo isso para impor uma relação
de docilidade e utilidade.
Na escola, ser observado, olhado,
contado detalhadamente passa a ser um meio de controle,
de dominação, um método para documentar individualidades.
A criação desse campos documentário permitiu a entrada
do indivíduo no campo do saber e, logicamente, um novo
tipo de poder emergiu sobre os corpos.
Os efeitos do poder se multiplicam
na rede escolar devido à acumulação cada vez maior de
novos conhecimentos adquiridos a partir da entrada dos
indivíduos no campo do saber. Conhecer a alma, a individualidade,
a consciência e comportamento dos alunos é que tornou
possível a existência da psicologia da criança e a psico-pedagogia.
As áreas do saber se formam a partir
de práticas políticas disciplinares, fundadas
na vigilância. Isso significa manter o aluno
sob um olhar permanente, registrar, contabilizar todas
as observações e anotações sobre os alunos, através
de boletins individuais de avaliação, ou uniformes-modelo,
por exemplo, perceber aptidões, estabelecendo classificações
rigorosas.
A prática de ensino em sua essência
reduz-se à vigilância. Não é mais necessário
o recurso à força para obrigar o aluno a ser aplicado,
é essencial que o aluno, como o detento, saiba
que é vigiado. Porém há um acréscimo: o aluno nunca
deve saber que está sendo observado, mas deve ter a
certeza de que poderá sê-lo sempre.
As normas pedagógicas têm o poder
de marcar, salientar os desvios, reforçando a imagem
de alunos tidos como ‘problemáticos’, estigmatizados
como o ‘negrão’, o ‘índio’, o ‘maloqueiro’ ou o morador
da ‘favela’. A escola, ao dividir os alunos e o saber
em séries, graus, salienta as diferenças, recompensando
os que se sujeitam aos movimentos regulares impostos
pelo sistema escolar. Os que não aceitam a passagem
hierárquica de uma série a outra são punidos com a ‘retenção’
ou a ‘exclusão’.
A escola se constitui num centro
de discriminação, reforçando tendências que existem
no “mundo de fora”. O modelo pedagógico instituído permite
efetuar vigilância constante. As punições escolares
não objetivam acabar ou
‘recuperar’ os infratores. Mas, ‘marcá-los’ com
um estigma, diferenciando-os dos ‘normais’, confiando-os
a grupos restritos que personificam a desordem, a loucura
ou o crime.
Dessa forma a escola se constitui
num observatório político, um aparelho que permite o
conhecimento e controle perpétuo de sua população através
da burocracia escolar, do orientador educacional, do
psicólogo educacional, do professor ou até dos próprios
alunos.
É a estrutura escolar que legitima
o poder de punir, que passa a ser visto como natural.
Ela faz com que as pessoas aceitem tal situação. É dentro
dessa estrutura que se relacionam os professores, os
funcionários técnicos e administrativos e o diretor.
É necessário situar ainda que a
presença obrigatória com o ‘Diário de Classe’ nas mãos
do professor, marcando ausências e presenças
nuns casos, atribuindo “meia falta” ao aluno que atrasou
uns minutos ou saiu mais cedo da aula, é a técnica de
controle pedagógico burocrático por excelência herdada
do presídio. Esse professor é visto como encarregado
de uma ‘missão educativa’ por uns; como ‘tira’ e ‘cão
de guarda’ da classe dominante por outros, ‘contestador
e crítico’ por muitos.
Não há dúvida que a escola, em
qualquer sociedade, tende a renovar-se e ampliar seu
âmbito de ação, reproduzir as condições de existência
social formando pessoas aptas a ocupar os lugares que
a estrutura social oferece. Com a religião e o esporte,
a educação pode se constituir num instrumento do poder
e, nessa medida, o professor é o instrumento da reprodução
das desigualdades sociais em nível escolar.
No seu processo de trabalho, o
professor é submetido a uma situação idêntica ao proletário,
na media em que a classe dominante procura associar
educação ao trabalho, acentuando a responsabilidade
social do professor e de seu papel como guardião do
sistema. Nesse processo o professor contratado ou precário
(sem contrato e sem estabilidade) – mais de 85 mil só
no Estado de São Paulo – substitui o efetivo ou estável,
conforme as determinações do mercado, colocando-o numa
situação idêntica ao proletário.
O professor é submetido a uma hierarquia
administrativa e pedagógica que o controla. Ele mesmo,
quando demonstra qualidades excepcionais, é absorvido
pela burocracia educacional para realizar a política
do Estado, portanto, da classe dominante em matéria
de educação. Fortalecem-se os célebres ‘órgãos’ das
Secretarias de Educação em detrimento do maior enfraquecimento
da unidade escolar básica.
Na unidade escolar básica é o professor
que julga o aluno mediante a nota, participa dos Conselhos
de Classe onde o destino do aluno é julgado, define
o Programa do Curso nos limites prescritos, prepara
o sistema de provas ou exames. Para cumprir
essa função ele é inspecionado, é pago por esse papel
de instrumento de reprodução e exclusão.
É nas escolas particulares de classe
alta, ao ultrapassar a entrada do colégio que o professor
perde seus direitos em função das normas impostas e
do papel a desempenhar. Mestres e alunos submetem-se
a esse inconsciente coletivo transmitido por herança
cultural: um ‘respeitável’ professor não fala de sua
vivência pessoal por temer ser considerado medíocre.
O aluno, por sua vez, espera do professor certo tipo
de comportamento, seu desprezo ou sua admiração.
A própria disposição de carteiras
em sala de aula reproduz as relações de poder: o estrado
que utiliza acima dos ouvintes, estes sentados
em cadeiras linearmente definidas próximas a uma linha
de montagem industrial, configuram a relação ‘saber/poder’
e ‘dominante/dominado’.
O professor subordina-se às autoridades
superiores, essa submissão leva-o a acentuar
uma dominação compensadora. Delegado dessa ordem
hierárquica junto aos estudantes, ele é símbolo vivo
dessa subordinação, o instrumento da submissão. Seu
papel é impor a obediência. Na relação do professor
com a classe, encontram-se dois adolescentes: o adolescente
aluno a quem ele deve educar e o adolescente reprimido
que carrega consigo.
O poder professoral manifesta-se
através do sistema de provas ou exames
onde ele pretende avaliar o aluno. Na realidade
está selecionando, pois uma avaliação de uma
classe pressupõe um contato diário com a mesma, prática
impossível no atual sistema de ensino.
A disciplinação do aluno
tem no sistema de exame um excelente instrumento: a
pretexto de avaliar o sistema de exames. Assim,
a avaliação deixa de ser um instrumento e torna-se um
fim em si mesma. O fim, que deveria ser a produção
e transmissão de conhecimentos, acaba sendo esquecido.
O aluno submete-se aos exames e provas. O que prova
a prova? Prova que o aluno sabe como fazê-la,
não prova seu saber.
O fato é que, na relação professor/aluno,
enfrentam-se dois tipos de saber, o saber do professor
inacabado e a ignorância do aluno relativa.
Não há saber absoluto nem ignorância absoluta. No fundo,
os exames dissimulam, na escola, a eliminação
dos pobres que se dá sem exame. Muitos deles
não chegam a fazê-lo, são excluídos pelo aparelho
escolar muito cedo, veja-se o nível de evasão escolar
na 1ª série do 1º grau e nas últimas séries do 1º e
2º grau.
O exame permite a passagem de conhecimento
do professor ao aluno e a retirada de um saber do aluno
destinado ao mestre. O exame está ligado a certo tipo
de formação de saber e a certo tipo de exercício de
poder. O exame permite também a formação de um sistema
comparativo que dá lugar a descrição de grupos, caracterização
de fatos coletivos, estimativa de desvios dos
indivíduos entre si.
Qualquer escola se estrutura em
função de uma quantidade de saber, medido em
doses, administrado homeopaticamente. Os exames sancionam
uma apropriação do conhecimento, um mau desempenho
ocasional, um certo retardo que prova
a incapacidade do aluno em apropriar-se do saber.
Em face de um saber imobilizado, como nas Tábuas da
Lei, só há espaço para humildade e mortificação.
Na penitência religiosa só o trabalho salva, é
redentor: portanto, o trabalho pedagógico só pode ser
sado-masoquista.
Não é por acaso que existe relação
entre a estrutura simbólica da religião com a escolar.
Elas reforçam a estrutura simbólica pela qual se realiza
a estrutura de classe. A mesma relação de indignidade
existente entre o pecador e a religião, é a existente
entre os alunos e o saber. O aluno é visto como se tivesse
uma essência inferior à do mestre, como o homem o é
ante a figura de Deus.
O trabalho mortificante no plano
pedagógico – a ansiedade em saber se foi aprovado ou
reprovado no exame – é a via da redenção, a expiação
da indignidade. É o único caminho pata atingir o Templo
do Saber, da Graça e da Riqueza.
Para não desencorajar os mais fracos
de vontade surgem os métodos ativos em educação.
A dinâmica de grupo aplicada à educação alienou-se quando
colocou em primeiro plano o grupo em detrimento
da formação. A utilização do pequeno grupo como
técnica de formação deve ser vista como uma possibilidade
entre outras. Tal técnica não questiona radicalmente
a essência da pedagogia educacional. O fato é que os
grupos acham-se diante de um monitor; aqueles
caracterizam o não saber e este representa o
saber.
Ao invés de colocar como tarefa
pedagógica dar um curso e o aluno recebê-lo,
por que não colocá-lo em outros termos: em que medida
o saber acumulado e formulado pelo professor tem chance
de tornar-se o saber do aluno?
Vistos estaticamente a escola
e o professor, ele aparece como guardião de um saber
estratificado, como o sacerdote das salvaguardas
educacionais, como o gerente de sua distribuição,
como o profeta da necessidade do trabalho e do
mérito vinculado a um esforço redentor, finalmente,
da vontade que tudo salva.
Porém, há o outro lado da moeda.
O professor é agente da reprodução social e, pelo fato
de sê-lo, também é agente da contestação, da crítica.
O predomínio das funções de reprodução e de crítica
professoral dependem mais do movimento social e sua
dinâmica, que se dá na sociedade civil, fora dos muros
escolares.
Em períodos de mudança social,
o professor, enquanto assalariado ou funcionário do
Estado, se organiza contra a deterioração de suas condições
de trabalho. Nesse momento ele contesta o sistema. Porém,
para contestar o sistema é necessário estar inserido
nele numa função produtiva.
É o que se dá com o operário. Reproduzindo
o capital, ponto terminal do trabalho acumulado, tem
ele condições de contestar o capital mediante sua auto-organização
e ações práticas. Desvinculado da produção pouco pode
fazer. Greve de desempregados é coisa difícil.
Por tudo isso a escola é um espaço
contraditório: nela o professor se insere como reprodutor
e pressiona como questionador do sistema, quando reivindica.
Essa é a ambigüidade da função professoral.
A possibilidade de desvincular
saber de poder, no plano escolar, reside na criação
de estruturas horizontais onde professores, alunos e
funcionários formem uma comunidade real. É um
resultado que só pode provir de muitas lutas, de vitórias
setoriais, derrotas, também. Mas sem dúvida a autogestão
da escola pelos trabalhadores da educação – incluindo
os alunos – é a condição de democratização escolar.
Sem escola democrática não há regime
democrático; portanto, a democratização da escola é
fundamental e urgente, pois ela forma o homem,
o futuro cidadão.