A
crise da Universidade e da Educação neste país foi intensamente
discutida no 1º Seminário de Educação Brasileira, realizado
em Campinas. Porém, no meio de muita discussão teórica,
houve um momento em que grande parte do público presente
explodiu em aplausos. Foi quando encerou sua comunicação
o professor Maurício Tragtenberg, da Faculdade de Educação
da Unicamp e da Escola de Administração de Empresas de
São Paulo (FGV). Maurício Tragtenberg, com sua longa experiência,
rasgou o verbo e com grande coragem deu um retrato fiel
e ao mesmo tempo sombrio da situação crítica da Universidade
brasileira. Aqui, ele repete a dose.
Por
Laerte Ziggiati
Folhetim:
Professor Maurício, que universidade é esta?
Maurício
Tragtenberg: A universidade está em crise e isso ocorre
porque a sociedade está em crise. O tema é amplo, abrangendo
a relação entre dominação e saber, a relação entre o intelectual
e universidade como instituição ligada à dominação, ou
seja, a universidade anti-povo. A universidade não é uma
instituição neutra, é uma instituição de classe onde as
contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses
fatores ela desenvolve uma ideologia, um saber neutro,
cientifico, quer dizer, a neutralidade cultural e o mito
de um saber “objetivo” acima das contradições sociais.
Isso se acirrou a partir de 1964, quando a Universidade
foi praticamente apartada da realidade, se encastelou.
Nesse momento surgiu a figura do intelectual burocrata,
do funcionário intelectual, que mais reproduz do que produz
conhecimento próprio.
Folhetim:
Aparentemente ela distribui o saber “objetivo”. Mas
qual deveria ser a função real da universidade?
Maurício:
Hoje a universidade forma a mão-de-obra destinada
a manter nas fábricas o despotismo do capital. Nos institutos
de pesquisa cria aqueles que deformam dados econômicos
em detrimento dos assalariados. Nas escolas de Direito
forma os aplicadores de legislação de exceção. Nas escolas
de Medicina aqueles que irão convertê-la numa medicina
do capital ou utiliza-la repressivamente contra os deserdados
do sistema. Em suma, trata-se de um “complô de belas almas”
recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo
o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção
de um serviço do saber.
Folhetim:
Existe gente na Universidade preocupada com a reforma
universitária. Mesmo assim...
Maurício:
A coisa é feita às cegas. Existe a figura do planejador
tecnocrata formado pelas faculdades de educação a quem
importa discutir os meios sem discutir os fins da educação,
confeccionar reformas educacionais que são verdadeiras
“restaurações”. Formam o professor-policial, aquele que
supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida
do aluno, seu conformismo ante o saber professoral. A
pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle
sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades.
O controle de meio se transforma em fim e o campus universitário
cada vez mais parece um universo concentracionário que
reúne aqueles que se originam das classes alta e média,
professores e alunos, “herdeiros” potenciais do poder
através de um saber minguado atestado por um diploma.
Folhetim:
Qual o mecanismo através do qual a Universidade
mantém sua característica classista?
Maurício:
A Universidade classista se mantém através do poder
exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos
de nomeação para os professores. Na universidade mandarinal
do século passado o professor cumpria a função de “cão
de guarda” do sistema, ou seja, como produtor e reprodutor
da ideologia dominante, chefe da disciplina do estudantado.
Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar
as normas de passividade, subserviência e docilidade através
da repressão pedagógica. A transformação do professor
“cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da
universidade pretensamente humanística e mandarinesca
à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos
da empresa privada funcionarão para a formação das fornadas
de “colarinhos brancos” rumo as usinas, escritórios e
dependências ministeriais. E o mito da assessoria, do
posto publico que mobiliza o diplomado universitário.
Folhetim:
Como o senhor explica o fato de que a Universidade também
mantém alguns cursos críticos?
Maurício:
Os “cursos críticos” desempenham a função de um tranqüilizante
no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo
mandarinato universitário, mantido o sistema de exames,
a conformidade ao programa e o controle da docilidade
do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa,
numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica,
aqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder.
Por isso é necessário realizar a crítica da “crítica”,
destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato universitário.
Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber
ou não-burguesa do saber, e sim a destruição do “saber
institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único
“legitimo”.
Folhetim:
A função principal da Universidade seria então
a de reproduzir a ideologia do sistema da dominação?
Maurício:
A Universidade reproduz o modo de produção capitalista
dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas
pelos servos que ela forma. Por exemplo, o sistema de
exames, esse batismo burocrático do saber. O exame é a
parte visível da seleção. A parte invisível é a entrevista,
que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui
a empresa em
relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente,
ela “exclui” o candidato. Para o professor há o currículo
visível tipo publicações, conferências e atividade didática,
e há o currículo invisível, esse de posse da chamada “informação”,
que possui espaço na Universidade, onde o destino está
em aberto e tudo é possível acontecer. Há os “ratos” das
salas privadas, os “ratos” da Reitoria. É através da nomeação,
da cooptação dos mais conformistas, nem sempre os mais
produtivos, que a burocracia universitária reproduz o
canil dos professores.
Folhetim:
O que é essa “delinqüência acadêmica”?
Maurício:
Essa “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época
longe de seguir os ditames de Kant ouse conhecer. Se os
estudantes quiserem conhecer os espíritos audazes da nossa
época, é fora da Universidade que irão encontra-los. A
bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão
acadêmica. É a razão pela qual os filósofos da revolução
francesa se autodenominavam de intelectuais e não de acadêmicos.
Isso ocorria porque na Universidade havia hostilidade
ao pensamento critico avançado. O projeto de Jefferson
para a Universidade de Virginia, concebida para a produção
de um pensamento independente da Igreja e do Estado de
caráter critico, foi substituído por uma universidade
que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, de poder.
Isso levou os estudantes da época a realizarem programas
extras curriculares onde Emerson se fazia ouvir, já que
o obscurantismo da época impedia sua entrada nos prédios
universitários.
Folhetim:
Além de pouco audaz parece que a “delinqüência
acadêmica” se preocupa mais com o titulo do que com o
ensino.
Maurício:
É que a política das “panelas” universitárias de corredor
e a publicação a qualquer preço e um texto qualquer se
constituem o metro para medir o sucesso universitário.
Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento
a quem serve e para que serve?
Folhetim:
A quem e para quê?
Maurício:
Em nome do “atendimento à comunidade” e do “serviço público”,
a universidade tende cada vez mais a se adaptar a qualquer
pesquisa a serviço dos interesses econômicos hegemônicos.
Nesse passo a universidade brasileira oferecerá disciplinas
como as existentes na Metrópole: cursos de escotismo,
defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia
a nível de secretariado... (risos) pois já existe isso
em Cornell, Wisconsin e outros estabelecimentos legitimados.
A universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”,
isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A
universidade vista como prestadora de serviços corre o
risco de enquadrar-se numa “agência de Poder”, especialmente
após 68, com coisas do tipo Operação Rondon. O assistencialismo
universitário não resolve o problema da maioria da população
brasileira: o problema da terra. Uma universidade que
produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde
o senso da discrição ética e da finalidade social de sua
produção. E uma “multiversidade” que se vende no mercado
ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda.
Isso tudo encoberto pela ideologia da neutralidade do
conhecimento e seu produto. Já na década de 30, Frederic
Lilge, em seu livro “The Abuse of Learning: The Failure
of German University” acusava a tradição universitária
alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários
alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo
a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho.
Folhetim:
No 1º Seminário de Educação Brasileira a situação
parecia ser outra. Havia bastante gente preocupada com
a responsabilidade social do educador.
Maurício:
Realmente havia. Mas eu não me iludo com congressos. A
maioria dos congressos acadêmicos universitários serve
de “mercado humano” onde entra contato pessoas e cargos
acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros
entre gerentes de hotel onde se trocam informações sobre
inovações técnicas. Revê-se velhos amigos e se estabelecem
contatos comerciais. Estritamente falando, o mundo da
realidade concreta é muito generoso com o acadêmico, pois
o titulo torna-se o passaporte que permite o ingresso
nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa,
o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da
responsabilidade social é escamoteado. A ideologia do
acadêmico é não ter nenhuma ideologia, ele faz fé de apolítico,
servindo assim à política do poder. A filosofia racionalista
do século 18 legou uma característica do verdadeiro conhecimento:
o exercício da cidadania implicava no soberano direito
de crítica à autoridade, aos privilégios e tradições.
O serviço público prestado por esses filósofos
não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer
projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento
do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação”
ou políticas de arrocho salarial, que converteram o Brasil
no detentor do triste recorde de primeiro país no mundo
em acidentes de trabalho, pois a propaganda pela segurança
no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui
o aumento salarial.
Folhetim:
O senhor fala no discurso apolítico do acadêmico.
Não há nenhum discurso político na Universidade?
Maurício:
A separação entre fazer e pensar se constitui numa das
doenças que caracteriza a delinqüência acadêmica. O falar
é às vezes muito pra trás. Ao analisar a crise de consciência
dos intelectuais americanos que deram o aval à escalada
no Vietnã, Horwitz notara que a disposição que eles revelaram
no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação,
a sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar
os fins, a transformar os problemas políticos em problemas
técnicos, a desprezar a consulta pública preferindo as
soluções de gabinete, consumando o que definiríamos a
traição dos intelectuais.
Folhetim:
Como então combater o academicismo?
Maurício:
Fundamentalmente, a realidade é dialética. A mesma
realidade que cria o academicismo, que cria o saber oficial,
que cria a ideologia oficial, que se esclerosa e se cristaliza
através dos manuais oficiais e livros didáticos, essa
mesma realidade cria também a contra-ideologia. Essa mesma
realidade cria o seu oposto.
Folhetim:Qual
a alternativa para que a Universidade deixe de ser, para
usar palavras suas, um “depósito de alunos”, ou um “cemitério
de vivos”?
Maurício:
A alternativa é a criação de canais de participação
real de professores, estudantes e funcionários no meio
universitário que se oponham à esclerose burocrática da
instituição. A autogestão pedagógica teria o mérito de
devolver à Universidade um sentido de existência, ou seja,
um aprendizado baseado numa motivação de participação
e não em decorar determinados “clichês” repetidos semestralmente
nas provas que nada provam, nos exames que nada examinam,
onde o aluno sai da universidade com a sensação de estar
mais velho e apenas com um dado a mais: o diploma, que
em si perde valor na medida em que perde sua raridade.
A saída é a autogestão. Só que esta solução não se dá
a nível interno da Universidade, sendo uma questão da
sociedade global. Não se pode ter uma Escola pra frente
com Estado pra trás.
Folhetim:
Então, qual o poder da Universidade?
Maurício:
A Universidade é o reflexo das contradições sociais, ela
não as cria mas reflete.Pelo fato de ser um reflexo, o
seu papel não é determinante no corpo social. Não é tendo
o poder na Universidade que se tem o poder na sociedade
global. Isso só pode ser um sonho de uma noite de verão,
não é? O messianismo acadêmico é uma desgraça. Agora,
na medida em que a Universidade reflete contradições,
existem intelectuais críticos e intelectuais fascistas
na Universidade em si, a questão do pensamento crítico
na Universidade, não se resolve internamente e sim no
plano político maior, no plano das relações de poder.
Se no todo social há espaço para as contradições aparecerem,
se o operário tem o direito de fazer greve, se ele tem
direito de organizar o seu sindicato independente da burocracia
do Estado e da política, então na Universidade há espaço
para a luta. Embora a opção seja pessoal. Se não se juntar
a grupos, a associações, a partidos, a ação será ineficiente.
Só que as associações que se criaram neste País, os partidos
políticos, como dizia o velho Oliveira Vianna, são associações
públicas de direito privado, e a
última eleição mostrou isso fundamentalmente. São
meros clãs parentais, meros clãs feudais, meros grupos
de pressão dos interesses econômicos. A formação de outros
agrupamentos depende da dinâmica social e nem tanto do
voluntarismo do segmento acadêmico que porque leu Marx,
leu Weber, sai na rua e acha que vai formar o partido
a, b ou c. Isso também é uma coisa típica do messianismo
intelectual. Fundamentalmente, depende da dinâmica da
organização dos trabalhadores industriais e burocráticos.
Agora, apressar pode ser negativo, estar atrás também
é negativo, mas estar muito a frente é mau porque fica
na vanguarda sem retaguarda. Nós vimos o que foi 64: excesso
de vanguarda sem retaguarda, quer dizer, muito chefe e
pouco índio.