Tempos
atrás participei de debate na Rádio CBN local,
cujo tema era o pânico instaurado pelo envio
de cartas com o pó da temível bactéria do Antraz.
Argumentei que há várias causas geradoras de
pânico talvez mais preocupantes do que a bactéria
em questão: a tensão da população civil afegã,
em especial as crianças, diante dos bombardeios;
a violência nas grandes cidades brasileiras;
a fome e miséria que atinge milhares de pessoas
no mundo; a intolerância e o racismo – não apenas
os negros, mas também a comunidade árabe no
Brasil e nos Estados Unidos; o terrorismo de
Estado; a ameaça do desemprego etc.
Até
o momento, segundo os dados publicados na imprensa,
o Antraz enviado pelos bioterroristas matou
5 pessoas e infectou 13. Parece evidente que,
do ponto de vista humanitário, é execrável todo
e qualquer ato contra a vida humana, independente
se atinge um indivíduo ou milhares. Porém, devemos
procurar qualificar de modo racional a exata
medida das coisas.
Observemos
que os bioterroristas escolheram bem os alvos,
multiplicando os efeitos propagandísticos: a
maioria dos casos está relacionado a cartas
enviadas para a midia e o Congresso. O ataque
à midia americana contribuiu objetivamente para
difundir o pânico. A mídia nacional não ficou
atrás – exceção feita a poucos colunistas e
especialistas da área. Brincadeiras de mau gosto
colocaram mais lenha na fogueira.
A
ameaça do bioterrorismo ganhou amplitude e propagação
desproporcional se compararmos às outras questões
que também afetam a vida humana e envolvem milhares
de pessoas. É compreensível o pânico estabelecido
na sociedade americana – em especial em categorias
profissionais como os carteiros. Mas, é ridículo
e artificial transpor o pânico externo para
nosso país.
Aqui
nosso pânico é de outra natureza. Imaginemos,
por exemplo, como reagiram os 3 mil trabalhadores
que receberam a carta de demissão da Volkswagen.
Para estes, a correspondência enviada pela multinacional
alemã equivale a incluí-los no rol das pessoas
atingidas pela doença social moderna: o stress
gerado pelo desemprego ou a perspectiva deste.
O efeito Antraz causador de pânico é o mesmo.
Se
a perspectiva de desemprego é fator gerador
de pânico – quem vive sob a ameaça de perder
o emprego bem o sabe – , ficar desempregado
por este meio – o bilhete vermelho entregue
em sua residência – é pavoroso e desumano. Será
que os burocratas da Volkswagen, movidos pela
racionalidade econômica, isto é, a busca alucinada
do lucro, pensaram, por um segundo sequer, sobre
os efeitos psicológicos das suas decisões sobre
os trabalhadores e suas famílias? Qual o valor
que estes têm para a empresa, a qual em tempos
de vacas gordas gosta de tratá-los como colaboradores?
A
favor da Volkswagen, devemos lembrar que ela
não é original em demitir por carta. Nos anos
80, esta prática foi muito usada no ABC paulista
– e depois, o mau exemplo se estendeu para outras
regiões do país.
A
bem da verdade o pânico da Volkswagen é anterior
ao envio das demissões pelo correio. Afinal,
como ficou a saúde mental dos milhares de funcionários
– e das suas famílias – sabendo que deles 3
mil seriam os escolhidos?
Definitivamente:
o Antraz da Volkswagen é muito mais potente
do que a bactéria em moda nos EUA. É verdade
que a o Antraz respiratório é letal. Aqui, morre-se
aos poucos – o que nem sempre é melhor, pois
pode ser torturante.
A
Volks faz escola. Enquanto o Antraz continua
a fazer vítimas nos EUA, a versão produzida
nos laboratórios administrativos da empresa
alemã ganha novos adeptos. Outra montadora,
a sueca Scania, faz chantagem com a ameaça de
demissão em massa, caso os trabalhadores não
aceitem a redução dos salários.
O
Antraz anti-social patenteado pela multinacional
alemã é aplicado em doses homeopáticas – mas,
admita-se, de forma inteligente. Primeiro, chantagear:
aceitar cortes salariais ou ficar desempregado;
depois, a mágica da reversão das demissões,
com direito a viagem para a Alemanha. Aceitou-se
no país germânico o que antes era inaceitável
aqui no Brasil.
Demitidos,
fragilizados materialmente e psicologicamente,
os trabalhadores – com resistências – aceitam
as propostas da empresa, recusadas anteriormente.
E, agora, sob a benção da direção sindical.
Mas, a diminuição de salários é anti-constitucional,
portanto, o acordo é ilegal. Ora, tanto empresa
quanto sindicato fazem vistas grossas às leis
em vigor.
É
surrealista. Enquanto a CUT resiste em Brasília
contra o projeto que flexibiliza a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) - e que resultará
em perdas de direitos -, a direção do Sindicato
dos Metalúrgicos do ABC – filiado à CUT – aceita
a flexibilização na prática e ainda é elogiada
pelo dirigente máximo da Central Sindical.
No
reino da hipocrisia, a derrota é apresentada
como vitória e a Força Sindical, central servil
do empresariado, criada e mantida pelo capital,
como denuncia órgãos insuspeitos da grande imprensa,
enquanto apóia e trabalha pela aprovação do
projeto de lei que flexibiliza a CLT, posa de
defensora dos trabalhadores e critica os dirigentes
sindicais dos metalúrgicos de São Bernardo do
Campo.
Talvez
agora o Ministro do Trabalho (do Trabalho?!)
que chamou os metalúrgicos de “irresponsáveis”,
pela ousadia de recusar a proposta inicial da
empresa, esteja feliz. Ele elogiou as capacidades
de negociador do dirigente máximo dos metalúrgicos
e disse acreditar que o mesmo teria condições
de impedir as demissões em massa. (FSP, 09.11.01)
O dirigente fez por merecer os elogios!
Enquanto
isso, o governo promove um pacote antigreve
e afronta o judiciário. O que parece uma medida
de força só comprova sua fragilidade e incapacidade
de superar conflitos sociais de forma democrática.
E, o jornal Gazeta Mercantil demite 143
jornalistas por justa causa. Detalhe cruel:
a decisão foi tomada após o Presidente do Tribunal
Superior do Trabalho (?!),Almir Pazianotto,
que ficou famoso por ser advogado do Sindicato
dos Metalúrgicos do ABC, conceder liminar à
empresa, desconsiderando a estabilidade empregatícia
dos funcionários conquistada após a greve dos
mesmos. Outro detalhe: o que motivou a greve
foi a reivindicação de receber os salários em
dias.
E
assim caminha a humanidade...