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Por MAURÍCIO
CUSTÓDIO SERAFIM
Professor
do curso de Economia da Universidade do Extremo Sul Catarinense
– Unesc (Criciúma-SC)
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A
falácia da dicotomia Teoria-Prática
A
preocupação com a prática pode se tornar um mal entendido
quando se antagoniza com a teoria, ou seja, quando a primeira
é vista como prioridade, relegando à segunda um caráter
de "mal necessário". Tomando isso como certo,
está se considerando que uma é mais importante que outra,
consideração essa apenas possível se dicotomizarmos a
teoria da prática. Feita a separação, uma parece ter vida
própria em relação à outra, adquirindo status
diferenciados.
Consideremos,
então, que realmente sejam auto-suficientes. A teoria,
fora da prática social, se assemelha ao livro colocado
em uma biblioteca que ninguém lê. Sua existência não faria
a menor diferença para o estar no mundo das pessoas. Essa
desvinculação da teoria com a prática a transforma em
mero palavreado, que Paulo Freire chamou de verbalismo.
O que criticam em relação à teoria, mesmo sem o saberem,
não é a teoria em si, mas esse gosto da "palavra
oca", sem nenhum tipo de compromisso com a realidade.
A
prática, tomada como auto-suficiente, não passa de mera
técnica. Esta nos mostra o como fazer (know-how),
nos dando prescritivamente passos para realizarmos determinada
tarefa. O problema está em que,
com o fornecimento dessas metodologias – como toda receita
–, há uma certa validade (muito curta, por sinal) no tempo
e no espaço, variando muito de contexto para contexto.
Por exemplo, o sistema de produção, a organização administrativa,
a realidade econômica, variam de empresa para empresa,
de região para região. Na universidade é impossível ensinar
todas as possíveis técnicas de todos os possíveis contextos
em que o aluno irá se inserir. Neste caso, o aluno terá
que possuir as condições mínimas e necessárias para que
possa desenvolver a habilidade para quando se deparar
como o novo, saber avaliá-lo, julgá-lo, apreendê-lo e
modificá-lo de acordo com a realidade na qual está inserido.
Em uma frase, deverá ser autônomo e não autômato. Sob
o ponto de vista apenas da prática, o indivíduo fica à
mercê da técnica e, portanto, se torna autômato, simples
repetidor.
Quando
olhamos a teoria e a prática em relação, se dissipam os
dois cenários acima comentados. A teoria não se torna
verbalismo nem a prática em automatismo. Dessa forma,
no entender de Paulo Freire, a teoria "implica
numa inserção na realidade, num contato analítico com
o existente, para comprová-lo, para vivê-lo e vivê-lo
plenamente, praticamente" [2]. Paulo Freire rebate
a afirmação de que o pecado de nossa educação é ser "teórica"
dizendo que "nossa educação não é teórica porque
lhe falta esse gosto da comprovação, da invenção, da pesquisa.
Ela é verbosa. Palavresca" [3], no sentido que lhe
atribuímos quando a teoria se pretende auto-suficiente.
A
relação teoria-prática permite entender a teoria como
o farol do carro na estrada em uma noite escura, que ilumina,
a cada momento, um novo ângulo e de modo diferente, a
fim de decifrar a topografia do percurso. Para Frei Betto,
"a prática é, em última instância, quem faz e refaz
a teoria"[4]. Essa afirmação é um exemplo de admissão
da relação teoria-prática, explicitando que a interdependência
permite um maior apuramento de ambas. É o estar em relacionamento
que dá o caráter dinâmico da transformação tanto da teoria
quanto da prática. Considerá-las independentes é relegá-las
ao estatismo, inércia, imobilismo.
A
teoria é feita de conceitos, que são abstrações da realidade.
Assim como foi comparado com o farol de um carro, podemos
entender as abstrações como caminhos do pensamento que
nos aproximam das dimensões do real. Como disse Luis Boada,
"a compreensão que possamos ter da situação concreta
será maior se formos capazes de nos aproximar da realidade
manifestada através daquele conceito abstrato"[5].
Quanto maior for o grau de concretude do pensamento, menor
será a compreensão da realidade. Isso porque há uma tendência
em atribuirmos propriedades de partes de uma realidade
que experienciamos à totalidade dessa realidade. Assim,
por exemplo, se algum indivíduo não possui a capacidade
de abstração (ou teórica), algumas experiências desagradáveis
com algumas mulheres tenderão a ser julgadas por ele como
uma característica de toda uma categoria humana denominada
mulher.
Com
toda essa exposição, queremos deixar claro que não podemos
pensar se devemos privilegiar ou
a prática ou a teoria. Devemos privilegiar a teoria e a prática. É uma relação includente e não excludente. O aluno deve
ser alfabetizado, seja em economia, engenharia ou qualquer
outra área do conhecimento, para ler o mundo e não apenas
as palavras. Uma educação que privilegia preponderadamente
a técnica (ou a famigerada "prática") é uma
alfabetização reduzida e mecânica da existência. Abstrair
não é fugir da realidade, mas nela se inserir. É compreender
o nosso ao redor. E apenas transformamos algo se o compreendemos.
Portanto, acredito que o embate entre teoria-prática esconde
algo mais profundo: se desejamos ou não transformar o
mundo. Se desejamos educar pessoas para a autonomia ou
automatonomia[6]. Se desejamos repetidores ou criadores. Se todo o
ponto de vista é a vista situada em um ponto, olhando
por esse ângulo, podemos perceber a falácia que é separar
e diferenciar o status
entre a prática e a teoria. Não é lógico, mas ideológico.
[1]
Professor do curso de Economia
da Universidade do Extremo Sul Catarinense – Unesc
(Criciúma-SC).
[2]
FREIRE, Paulo. Educação
como prática da liberdade. Rio de Janeiro :
Paz e Terra, 1999.
[4]
BETTO, Frei. O poder da imaginação.
In: Boada, Luis. Uma economia poética. São Paulo : Brasiliense, 1987.
[5]
BOADA, Luis. Uma
economia poética. São Paulo : Brasiliense, 1987,
p.17.
[6]
Neologismo formado pelas palavras
autômato (maquinismo que se põe em movimento por
meios mecânicos) e nomos
(lei, regra norma), ou seja, capacidade de apenas
se comportar mecanicamente, automaticamente, provinda
de leis mecânicas.
MAURÍCIO
CUSTÓDIO SERAFIM
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