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Claudio Boeira Garcia e Paulo Denisar Fraga (orgs.) Editora
Unijuí - Ijuí, RS
Pedidos: Em POA: unilivpa@terra.com.br Em SP: unilivros.sul@uol.com.br |
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Entrevista com o autor: Publicado no
jornal Hora H, Ijuí, 09.nov.2001,
Caderno H, p. 01
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Refletindo sobre
a vida danificada Paulo Denisar Fraga Entrevista a Marcio Granez
Hora H - Você é um dos organizadores
da coletânea Filosofia e cotidiano. Como surgiu a idéia do livro? PDF - A Unijuí é uma universidade
historicamente progressista e comprometida com as questões da comunidade.
A Filosofia tem muito a ver com isso, inclusive – mas não só – porque
a universidade nasceu da antiga Faculdade de Filosofia (FAFI). Então,
imbuídos do espírito de pensar sobre os problemas históricos e sociais,
durante anos os nossos colegas, professores de Filosofia, intervieram
na imprensa com textos sobre esses assuntos. Chegado o fim da década,
que coincidiu com o do século e do milênio, começamos a pensar em fazer
o registro da memória deste nosso trabalho nos últimos dez anos, o que,
no fim das contas, diz muito de nossa identidade teórica e do perfil
crítico de nossa universidade, o qual pensamos resgatar e defender com
as páginas deste livro. Enfim, para usar uma expressão que foi cara
a Lukács, que muita importância deu à esfera do cotidiano, este livro
é uma síntese do nosso “pensamento vivido”.
Hora H - Há algum tema preponderante
no livro? PDF - Especificamente, não, pois
o livro contém uma rica diversidade de temas. Até porque seus textos
foram escritos livremente ao longo de uma década, e não previamente
pensados para um livro. Nele encontram-se artigos, crônicas e entrevistas,
onde, a partir do lugar da Filosofia, pensamos sobre temas como democracia,
liberdade, ética, indústria cultural, arte, política, ciência, universidade,
violência, etc. Contudo, o que ele tem de comum é o seu perfil, onde
a Filosofia se preocupa em refletir criticamente sobre os assuntos da
vida cotidiana. E é isto o que dota este livro de um tema geral. Neste
sentido, penso que é possível dizer que seus textos se articulam sob
uma certa inspiração frankfurtiana, qual seja, a de que a função social
da Filosofia é fazer a crítica da sociedade da “vida danificada” – para
agregar aqui uma expressão de Adorno.
Hora H - No livro, há certos
textos que remetem diretamente à literatura. Qual a fronteira entre
ela e a filosofia? PDF - Esta é uma questão de fundo
teórico bastante complexo. Em curtas palavras, é apenas possível dizer
que os filósofos se valem de recursos literários e os literatos de fontes
filosóficas. Podemos pensar, por exemplo, do lado da Filosofia, na presença
da prosa nos Diálogos de Platão, e, no da Literatura, em Os sertões,
de Euclides da Cunha, que se utilizam de aspectos da teoria hegeliana
da história. Mas, se Filosofia e Literatura se mesclam em forma, nem
por isso deixam de distinguir-se em método e conteúdo. A Filosofia tem
o seu critério baseado no rigor da argumentação lógica e crítica, que
visa aferir compreensões teóricas sobre a historicidade do mundo vivido,
e, a Literatura, na capacidade de falar sobre o mundo de forma verossimilhante,
isto é, fazer uma leitura da realidade sem o compromisso de basear-se
em algo factual e historicamente verdadeiro, mas que cria uma outra
realidade enquanto representação do real.
Hora H – O livro tem uma bonita
capa. Você disse que ela foi especificamente pensada para ilustrar o
sentido teórico do livro. Fale sobre o seu significado. PDF - A capa contém os três elementos fundamentais do livro (uma imagem da Filosofia, uma do cotidiano e uma da imprensa). No primeiro plano, vê-se um filósofo sentado na mesma disposição física de um menino. Mas, socialmente eles são diferentes, pois enquanto o filósofo pensa e escreve, o menino cata piolhos. Em segundo lugar, sob a mão do filósofo que escreve, desce, ao fundo, o fac-símile de um artigo jornalístico. Tais combinações ilustram a Filosofia pensando a tragédia do cotidiano por meio da imprensa (o que era, aliás, uma idéia do jovem Marx, quando jornalista). Por isso, no título, a palavra cotidiano está invertida, indicando sua alienação e estranhamento. Contudo, ao alto, onde o “e” enlaça a Filosofia com o cotidiano invertido, aparece o globo terrestre, sugerindo que só uma reflexão crítica pelo viés da universalidade (e não da fragmentação) pode resgatar a sociedade da cisão que a dilacera. Ou seja, na capa temos o tema geral do livro, o modo como ele é tratado e o que visamos com isso.
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