E
agora, Gutenberg?
É
difícil escrever uma coluna baseada em matérias e artigos
que circulam na grande imprensa. Isto porque, raríssimas
exceções, parece que cada vez mais a imprensa toma partido;
partido da situação e os fatos sucumbem à mirabolante análise.
Há afirmações sustentadas somente pelos repórteres já que
não estão nem entre aspas nem seguidas ou precedidas por
algum "conforme" ou de "acordo". E além
de afirmações, existem indicações sobre o que tal governante
deve fazer. E não se trata de artigo, e sim de matéria que,
em tese, deveria primar pela isenção.
Difícil também é ler até o final as tais matérias que têm
entonação clara e, nem sequer, buscam a sutileza do princípio
básico: ouvir a outra parte. Pior que isto: é utilizar informações
que ora pretendem parecer científicas, ora são quase imorais.
Um desrespeito ao leitor, no mínimo.
Nesse patamar audacioso, uma parte da imprensa brasileira
embarcou durante o segundo semestre na escolha antecipada
da candidata substituta ao possível eleito pelo excelentíssimo
senhor do Planalto. Pois, entre: Serra, Jereissati e Paulo
Renato, só haveria - em princípio - espaço para a pefelista
Roseana Sarney.
Notoriamente, há uma ala da elite pensante patronal que
ainda prefere optar pelo candidato indicado pelo Presidente
da República e, enquanto aguarda tal pífia escolha, começa
a desferir seus golpes contra a filha do ex-presidente.
De repente, reportagens legítimas, sobre a violência sexual
seguida do assassinato de cerca de 20 garotos no estado
do Maranhão, começam a constar da grade nacional de uma
dada emissora, por exemplo. Por que só agora ?
Eu não sou eleitora do PFL nem tampouco escolho candidato
pelo sexo; voto em programa e não em figuras públicas, mas
convenhamos que a partir de agora o foco de alguns veículos,
possivelmente, vai se redirecionar lá para as bandas de
São Luís podendo oscilar também para Fortaleza. Sem contar
que há candidaturas que não pretendem vencer, mas anular
votos ou fazer um vôo ensaístico. Não que eu seja a favor
do bipartidarismo à la Tio Sam. Sou a favor de programas,
como já disse.
Não há intenção de mostrar a realidade e acompanhar a situação
verdadeira de todos os presidenciáveis. Há sim um descaramento
completo, uma farsa de imprensa que segue gritando palavras
de ordem toscas em troco de salário alto a quem tem coragem
de trabalhar por uma garrafa de vinho a mais na dispensa.
Premonição
ou não, o presente artigo foi escrito dois dias antes da
revista Veja desta semana chegar às bancas, novamente querendo
emplacar/despistar seu possível candidato, enquanto - reafirmo
- o Planalto não faz sua opção apoiada no marketing de algum
"bambambam" A história repete-se. Da primeira
vez, em 1998, a digna publicação saiu enaltecendo um tal
caçador de marajás, agora destaca um certo fenômeno. Penso
que os brasileiros precisam mesmo de alguém de carne e osso
que não provoque efeitos climáticos por onde passe nem se
assemelhe a um super herói. Esquecer a construção da história
da humanidade é condicioná-la a rumar à destruição.
Os vis existem em todas as profissões e mesmo em todas as
classes sociais, mas nas duas últimas décadas o jornalismo
os produziu em série. Conversar, entrevistar, discutir,
editar, analisar e informar. Qualquer que seja a lógica
de compreensão do mundo o profissional não deve abandonar
a coerência interna. Ou será que os valorosos jornalistas
trabalham com a ausência de memória do leitor ?
Caro leitor, tenha olhos de lince, audição de coruja e
inteligência de quem vive no mesmo mundo de onde saem as
perólas construídas das "ilusões perdidas" dos
noticiários inflamados de veneno.
Alfabetização
Existe
colunista na grande imprensa que ainda defende a tese
que o presidenciável Lula perdeu tempo ficando em "stand
by" quando poderia ter concluído uma faculdade.
É preciso acabar de vez com este tipo de argumento esdrúxulo
que confunde discernimento com erudição, pois, aliás,
convenhamos, erudição não é para se aprender em escola
é para se ter como ofício cotidiano; o que - fosse o jornalismo
exercido com mais rigor - poderia ser algo verdadeiro
e não apoiado em hermetismos baratos para um povo analfabeto.
Erudição não é sinônimo de incompreensão. Estar em contato
com alguém que disponha deste atributo não significa apoiar-se
em um ponto de interrogação, ao contrário, significa fazer
conexão de uma realidade presente com fatos históricos
elucidativos, com poesia, com citação nominal, com vida.
Enquanto alguns flutuam em seus castelos, outros rastejam
pelos bueiros ciceroneando os ratos e fazendo-lhes parecer
gente; aqui, na vida real, tentamos não cair no esgoto
fétido do oportunismo que infesta jornais, revistas, emissoras
radiofônicas e televisivas. Tentamos apontar alternativas
para quem quer fincar o pé no mundo e transformá-lo -
para baixo dos castelos e bem acima dos bueiros.