Por GISLENE BOSNICH
Jornalista independente e socióloga, é colunista do )

 

E agora, Gutenberg?


É difícil escrever uma coluna baseada em matérias e artigos que circulam na grande imprensa. Isto porque, raríssimas exceções, parece que cada vez mais a imprensa toma partido; partido da situação e os fatos sucumbem à mirabolante análise.

Há afirmações sustentadas somente pelos repórteres já que não estão nem entre aspas nem seguidas ou precedidas por algum "conforme" ou de "acordo". E além de afirmações, existem indicações sobre o que tal governante deve fazer. E não se trata de artigo, e sim de matéria que, em tese, deveria primar pela isenção.

Difícil também é ler até o final as tais matérias que têm entonação clara e, nem sequer, buscam a sutileza do princípio básico: ouvir a outra parte. Pior que isto: é utilizar informações que ora pretendem parecer científicas, ora são quase imorais. Um desrespeito ao leitor, no mínimo.

Nesse patamar audacioso, uma parte da imprensa brasileira embarcou durante o segundo semestre na escolha antecipada da candidata substituta ao possível eleito pelo excelentíssimo senhor do Planalto. Pois, entre: Serra, Jereissati e Paulo Renato, só haveria - em princípio - espaço para a pefelista Roseana Sarney.

Notoriamente, há uma ala da elite pensante patronal que ainda prefere optar pelo candidato indicado pelo Presidente da República e, enquanto aguarda tal pífia escolha, começa a desferir seus golpes contra a filha do ex-presidente. De repente, reportagens legítimas, sobre a violência sexual seguida do assassinato de cerca de 20 garotos no estado do Maranhão, começam a constar da grade nacional de uma dada emissora, por exemplo. Por que só agora ?

Eu não sou eleitora do PFL nem tampouco escolho candidato pelo sexo; voto em programa e não em figuras públicas, mas convenhamos que a partir de agora o foco de alguns veículos, possivelmente, vai se redirecionar lá para as bandas de São Luís podendo oscilar também para Fortaleza. Sem contar que há candidaturas que não pretendem vencer, mas anular votos ou fazer um vôo ensaístico. Não que eu seja a favor do bipartidarismo à la Tio Sam. Sou a favor de programas, como já disse.

Não há intenção de mostrar a realidade e acompanhar a situação verdadeira de todos os presidenciáveis. Há sim um descaramento completo, uma farsa de imprensa que segue gritando palavras de ordem toscas em troco de salário alto a quem tem coragem de trabalhar por uma garrafa de vinho a mais na dispensa.

Premonição ou não, o presente artigo foi escrito dois dias antes da revista Veja desta semana chegar às bancas, novamente querendo emplacar/despistar seu possível candidato, enquanto - reafirmo - o Planalto não faz sua opção apoiada no marketing de algum "bambambam"  A história repete-se. Da primeira vez, em 1998, a digna publicação saiu enaltecendo um tal caçador de marajás, agora destaca um certo fenômeno. Penso que os brasileiros precisam mesmo de alguém de carne e osso que não provoque efeitos climáticos por onde passe nem se assemelhe a um super herói. Esquecer a construção da história da humanidade é condicioná-la a rumar à destruição.

Os vis existem em todas as profissões e mesmo em todas as classes sociais, mas nas duas últimas décadas o jornalismo os produziu em série. Conversar, entrevistar, discutir, editar, analisar e informar. Qualquer que seja a lógica de compreensão do mundo o profissional não deve abandonar a coerência interna. Ou será que os valorosos jornalistas trabalham com a ausência de memória do leitor ?

Caro leitor, tenha olhos de lince, audição de coruja e  inteligência de quem vive no mesmo mundo de onde saem as perólas construídas das "ilusões perdidas" dos noticiários inflamados de veneno.

Alfabetização

Existe colunista na grande imprensa que ainda defende a tese que o presidenciável Lula perdeu tempo ficando em "stand by" quando poderia ter concluído uma faculdade.

É preciso acabar de vez com este tipo de argumento esdrúxulo que confunde discernimento com erudição, pois, aliás, convenhamos, erudição não é para se aprender em escola é para se ter como ofício cotidiano; o que - fosse o jornalismo exercido com mais rigor - poderia ser algo verdadeiro e não apoiado em hermetismos baratos para um povo analfabeto. Erudição não é sinônimo de incompreensão. Estar em contato com alguém que disponha deste atributo não significa apoiar-se em um ponto de interrogação, ao contrário, significa fazer conexão de uma realidade presente com fatos históricos elucidativos, com poesia, com citação nominal, com vida.

Enquanto alguns flutuam em seus castelos, outros rastejam pelos bueiros ciceroneando os ratos e fazendo-lhes parecer gente; aqui, na vida real, tentamos não cair no esgoto fétido do oportunismo que infesta jornais, revistas, emissoras radiofônicas e televisivas. Tentamos apontar alternativas para quem quer fincar o pé no mundo e transformá-lo - para baixo dos castelos e bem acima dos bueiros.

 

GISLENE BOSNICH

     

 


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