Na
década de 80, eu trabalhava em um banco estatal (hoje privatizado)
e participava ativamente do movimento sindical da categoria.
Fizemos greves memoráveis naquela década. Era o renascimento
do movimento sindical, depois de quase duas décadas de ostracismo
imposto pela ditadura militar. Surgia o “novo” sindicalismo,
como nós próprios intitulamos, e os cientistas sociais copiaram
sem muita crítica. Era o tempo do retorno das grandes greves
operárias, da resistência contra a ditadura militar, da retomada
da organização sindical.
Tudo
o que fizemos nos anos 80, os trabalhadores brasileiros e
o movimento sindical já haviam formulados nas décadas de 50
e 60. Mas, enfim, para nós era tudo novidade: era um novo
momento histórico, novas lideranças estavam surgindo e, nascia,
naqueles anos, uma das melhores e mais bem sucedida experiência
de organização do trabalhador brasileiro: a Central Única
dos Trabalhadores (CUT). Essa conjuntura contribuiu para a
sedimentação desse discurso sobre o “novo sindicalismo”, que
hoje parte da historiografia dos movimentos sociais já contesta.
Lembro-me
muito bem dessa época. E um dos temas que sempre tinha destaque
em nossos discursos sindicais era a crítica velada sobre a
Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) do Brasil. Não havia
uma assembléia sequer que alguém não lembrasse que a CLT era
uma cópia da Carta del
Lavoro, de Benito Mussolini, e implementada na sua essência
pelo ditador brasileiro da época, Getúlio Vargas. Ah, como
a CLT era por nós criticada e rotulada de fascista. O próprio
Luiz Inácio Lula da Silva, certa vez, em discurso para os
metalúrgicos do ABC paulista, disse enfaticamente: “A CLT
é o AI-5 dos trabalhadores brasileiros”, conforme escreveu
Kazumi Munakata, no seu livrinho clássico, A
Legislação Trabalhista no Brasil.
Hoje,
quando vejo o intenso debate sobre a flexibilização da CLT,
fico pensando: será que nós mudamos, estamos mais conservadores,
já não achamos a CLT fascista, ou perdemos força de mobilização
e de contestação? Difícil responder.
A
verdade é que o mundo mudou significativamente a partir de
1989. Caiu o muro de Berlim, o império soviético se desestruturou,
o socialismo deixou de existir como uma realidade social (embora
permaneça como utopia), e os países da América Latina ampliaram
os limites da democracia, embora não tenham conseguido se
desfazer, mesmo através do voto, de dirigentes com instintos
ditatoriais, como foram os casos de Collor de Mello, no Brasil,
Menen, na Argentina, Salinas, no México, e Fujimori, no Peru.
Como
se não bastasse, foi exatamente no ano de 1989 que foi elaborado
pelo International Institute
for Economy, liderado pelo economista John Williansom,
as bases das reformas econômicas que deveriam tirar a América
Latina da estagnação econômica (a década de 80 foi tida como
a década perdida, lembram-se). Estava criado o Consenso de
Washington, do qual o Brasil é um dos signatários, tendo como
pano de fundo as idéias ditas neoliberais.
E
o que propõe o Consenso de Washington para estabilizar a combalida
economia latinoamericana?: “corte dos salários dos funcionários
públicos, demissões, cortes dos investimentos sociais, reforma
da previdência social, desoneração do capital especulativo
para que ele possa aumentar a sua competitividade no mercado
internacional, privatizações das estatais – principalmente
as lucrativas -, flexibilização dos contratos de trabalho,
cooptação das lideranças dos trabalhadores e uma ofensiva
política e policial contra os movimentos sociais reivindicatórios”
(Dicionário crítico do
pensamento da direita, p. 96).
As
últimas palavras do parágrafo anterior são suficientes para
responder às nossas indagações. Já estava estipulado pela
reunião do Consenso de Washington que a flexibilização das
relações de trabalho era uma exigência do Banco Mundial e
do FMI para sanear as deficiências financeiras dos países
da América Latina. Conforme as dificuldades econômicas e sociais,
em alguns países ela viria com uma maior rapidez (Chile e
Argentina são bons exemplos), em outros demoraria um pouco
mais (como no Brasil). Mas as transformações eram certas!
E o que é pior, com o apoio de setores importantes do movimento
sindical. No caso da Argentina, com a participação do Peronismo;
no caso do Brasil, da Força Sindical, cooptada por volumosas
contribuições estatais para defender o projeto.
É
verdade que o movimento sindical perdeu a sua grande força
de mobilização e de contestação na década de 90, e isso lhe
deixa na defensiva. Mas na minha opinião não se trata hoje
de defender a CLT (que os sindicalistas sabem as bases históricas
da qual foi organizada, ou deveriam saber), mas sim de defender
direitos sociais conquistados com muito suor, com muita resistência,
protesto e revolta. A legislação trabalhista não foi uma dádiva
do Estado getulista (a ideologia da outorga), como os setores
trabalhistas tem afirmado (Leonel Brizola falou disso no último
programa do PDT na televisão). Pelo contrário, ela foi resultado
das grandes greves operárias que tomou conta do país no início
do século e da adesão do Brasil à Organização Internacional
do Trabalho (OIT), outra conquista dos trabalhadores brasileiros.
A CLT nada mais é, como o seu próprio nome diz, do que uma
consolidação, em lei única, de todas as conquistas sociais
dos trabalhadores.
É
por isso, que hoje, sindicalistas e deputados das bancadas
de oposição tem defendido a sua permanência: não da lei em
si, corporativa, fascista e burocrática, mas sim, das conquistas
sociais inerentes à ela.