Começou
a guerra britânica e norte-americana contra o Taleban. As provas
apresentadas pelos EUA que indicam o comando de Bin Laden no
ataque ao World Trade Center e Pentágono foram questionadas
por grande parte de imprensa internacional. A revista Época
denominou as provas de "polêmicas" e "pobres".
The Guardian afirmou em editorial que Bin Laden seria absolvido
em tribunal internacional. Mas, então, qual motivo leva duas
potências internacionais a atacar um país onde 79% da população
reside no meio rural, onde a expectativa de vida não ultrapassa
49 anos e onde 64% são
analfabetos? E o que faz um país tão pobre cair numa armadilha
internacional tão evidente?
Tentemos
encontrar algumas explicações a partir de uma leitura geopolítica
do conflito:
O
retorno ao Oriente Médio: EUA
e Europa foram alijados do território que é palco da guerra,
em especial, no final do século XX, quando vários Estados Muçulmanos
fundamentalistas promoveram um ataque frontal ao mundo ocidental,
tendo o Irã e o Iraque como lideranças desse bloco político.
Esta região é estratégica para o ocidente. A linha que une Afeganistão
ao Mar Cáspio compreende reservas petrolíferas e de gás natural
essenciais para diminuir a crise energética que se esboça em
vários países ocidentais. A exploração comercial dessa riqueza
exige altos investimentos que somente empresas norte-americanas
e européias podem custear. Mas o mundo muçulmano impede veementemente
tal possibilidade.
A
disputa entre potências: Tony
Blair, primeiro-ministro da Inglaterra, aproveitou-se da fragilidade
do governo Bush e assumiu a liderança diplomática e militar
que envolve os bastidores da guerra. Em poucos dias, encontrou-se
com vários dirigentes da Europa, da Índia e Paquistão. Forjou
uma frente militar e geopolítica, além de reconstruir a aliança
EUA/Inglaterra em desuso desde a II Guerra Mundial e inimaginável
logo após a vitória eleitoral de Bush, em virtude de Blair ter
apoiado abertamente Bill Clinton e seu candidato. O primeiro-ministro
inglês é hábil e ágil e não tem evitado demonstrar quem está
na direção dos movimentos políticos e na defesa dos interesses
ocidentais nesta guerra.
A
guerra santa: As
disputas regionais envolvendo Paquistão e Índia definem os contornos
da atual guerra e o futuro das pretensões ocidentais. É um cenário
de jogo de xadrez dos mais complexos. Comecemos pela disputa
da Caxemira, região que se localiza ao norte da Índia, Paquistão
e Afeganistão. É um território disputado desde a criação dos
Estados do Paquistão (muçulmano) e da Índia (hindu), em 1947.
Após dois anos de conflito, este território foi dividido entre
os dois países. Nos anos 80, inicia-se um movimento guerrilheiro
de unificação territorial, denunciado pelo governo indiano como
financiado pelos paquistaneses. Em 98 e 99, os dois países realizam
testes nucleares e, em seguida, iniciam um conflito militar.
O Serviço de Inteligência do Paquistão, desde então, vem utilizando
o Afeganistão como uma base territorial para o conflito com
a Índia. Daí seu apoio ao Taleban. O Afeganistão que, desde
1973, era um país vinculado ao bloco soviético, em 1979 forja
uma organização guerrilheira muçulmana de oposição ao governo
central. O conflito interno foi promovido pelo Paquistão, apoiando
a ascensão da milícia Taleban ao poder, o que ocorre em 1995.
Entretanto, outros conflitos étnicos e religiosos permanecem
e nos próximos dias poderão aflorar no cenário de guerra. O
primeiro deles diz respeito ao posicionamento dos pashtuns.
A etnia pashtun ou patane envolve 38% da população afegã e 13%
da paquistanês. Organiza-se em estruturas tribais que se localizam
numa faixa territorial que desenha um semi-círculo no território
afegão, iniciando na fronteira leste com o Paquistão, descendo
ao sul do país e cobrindo parte da fronteira oeste, com o Irã.
Os pashtuns possuem um código moral muito rígido apoiado no
binômio vingança e hospitalidade. Mesmo sendo muito pobres,
as tribos pashtuns recebem os visitantes com excesso de amabilidade.
Muitas lideranças afirmam que esta tradição orienta sua relação
com Bin Laden, seu hóspede mais famoso. Os pashtuns consideram-se
uma nação específica e a localização de suas tribos perpassa
o Afeganistão e Paquistão, o que pode levar sua população à
guerra contra o ataque ocidental, desestabilizando o governo
paquistanês. Um segundo conflito territorial é o religioso.
O mundo muçulmano se divide em sunitas e xiitas. Paquistão e
Afeganistão possuem maioria sunita e o vizinho Irã possui maioria
xiita. Os xiitas acreditam que todas revelações divinas foram
recebidas por Maomé e estão contidas no Corão, o livro sagrado.
Por este motivo, lideranças religiosas altamente preparadas,
os imãs, são necessárias para interpretarem com rigor o Corão.
Já os sunitas desenvolveram um código legal, a Sharia,
que deriva do Corão, da tradição islâmica e do consenso entre
suas comunidades. Os sunitas procuram recriar e fortalecer estruturas
comunitárias, enquanto que os xiitas apoiam-se em leituras mais
esotéricas do Corão. Contudo, há uma segunda divisão, entre
os sunitas, envolvendo aqueles que são mais culturalmente flexíveis
e os fundamentalistas, que exigem a aplicação rigorosa da Sharia, suspendendo os direitos das populações não muçulmanas. Este
é o caso do governo do Taleban.
Como
se percebe, a guerra que se inicia cria um palco de múltiplos
interesses. Nele, emergem rancores e ódios latentes, muitos
deles dificilmente compreendidos exclusivamente pela razão.
Uma guerra entre culturas.