Terror
e Guerra: variações e alternâncias da violência política
Conflito
anunciado: “Mas já há indícios de que a próxima década será
marcada por uma onda sem precedentes de conflitos internacionais,
tendo como pivô uma ampla reação ao domínio econômico e político
norte-americano. Termos como globalização (...) estão sendo
submetidos a uma carga de críticas sem precedentes.
Para os mais críticos, tudo não passa de mais uma fantasia
criada para mascarar o velho imperialismo. E que, como ocorreu
com aquele velho imperialismo, vai desaguar em mais conflitos
entre os grandes, entre os grandes e os pequenos e dentro
de cada sistema nacional”. Gilson Schwartz, Folha de São
Paulo 2/1/2000.
Os
termos do confronto
Os ataques
de 11 de setembro produziram nos EUA um medo imediato e um
nacionalismo reflexo e exacerbado,
desprovido de atenção à produção de evidências ou de
respeito à lógica. Questões sobre a moralidade e a racionalidade
de responder ao tremendo e horrível ato de terror de 11 de
setembro com um ainda maior terror; de responder uma calamidade
barbárica com uma catástrofe barbárica, de responder ao fanatismo
ignorante com um sofisticado chauvinismo são as indagações
e opções do dia. No
primeiro momento não é defícil perceber como as respostas
estão sendo dadas. Resta ver como e quando a maré belicosa
do militarismo imperial começará a refluir.
No atentado
a New York muitas pessoas tiveram uma morte trágica sob as
vistas atônitas do mundo todo, pessoas que viviam no país
mais rico e poderoso do mundo.
Mas
a solidariedade
que as vítimas e familiares merecem não deve ser estendida
à grande burguesia, aos políticos e generais hipócritas que
por dezenas de anos tem sustentado os piores ditadores e organizações
mais reacionárias em todas as latidutes (inclusive o próprio
Bin Laden). Pergunta-se
então se a reação
indignada que o atentado provocou não deveria ser a mesma
para os milhões de mortes no terceiro mundo, esmagados por
um sistema econômico que lhes nega um futuro, vítimas de uma
opressão da qual o governo dos EUA tem sido o maior responsável?
Previsivelmente - no momento do patriotismo vingativo
do super poder imperial - esta é uma questão fora do lugar.
A reação
do establishment norte
americano e internacional foi inequívoco e enunciado com uma
só voz. O ataque de 11 de setembro vem definido como um ato
de guerra, ao qual se deve responder com igual violência.
Os líderes
mundiais da direita também estão usando o pretexto da “guerra
contra o terrorismo” para
conter ou eliminar qualquer crítica à suas posições e políticas.
Valendo-se da comoção provocada pelo massacre de New York,
Bush trombeteia uma “luta do bem contra o mal”. O massacre
fornece assim um poderoso álibi para a burguesia mundial
combater qualquer crítica ao sistema “ocidental” (leia-se
capitalista).
As consequências
reacionárias do terrorismo individual - sempre criticado pelos Marxistas
- significa que suas ações servem bem aos setores mais reacionários
das classes dominantes. O marxismo condena o terrorismo porque
ele ajuda a burguesia em vez de combatê-la, reforça os preconceitos
e a obscuridade mental de uma parte importante da população,
e mesmo onde desperta entusiasmo, como por exemplo em alguns
árabes no caso presente, não acelera a tomada de consciência
e a organização da luta, mas a esvazia de conteúdo e a desvia
de rota.
Num outro
registro, veja- se como Wanderley Guilherme dos Santos, um
dos mais respeitados cientistas políticos do país aborda a
questão: “ Não é só o fanatismo, para comentar fatos do dia,
que orienta o terrorismo. Interesses bem calculados se beneficiam
dele. Fanatismo é parte, não é tudo....
Muitos dos combatentes acreditam estar envolvidos em
mortal conflito religioso - profecia que para eles se auto-cumpre
- quando a guerra é, principalmente, e sem reducionismo, macabro
meio de troca para a acumulação de riqueza e poder.....Anônimo
e ubíquo não há, contra ele, retaliação eficiente..... (WGS,
Valor, 13/09/2001)
Esta “guerra
ao terrorismo” servirá como a Guerra Fria. Os norteamericanos
irão à luta com poucas ou nenhuma baixa militar; a utilizarão
para induzir medo em sua própria população, para justificar
qualquer política das elites, desde reduzir as liberdades
civis, ao aumento das margens de lucro do complexo industrial-militar,
até para legitimar
todas as iniciativas no plano internacional que possam favorecer
o poder e o lucro dos Estados Unidos no oriente médio ou em
qualquer outro lugar.
Terrorismo:
como crime ou como guerra
Estamos
aqui no campo da violência política, de indivíduos, pequenos
grupos ou de grandes contingentes que chamamos exércitos.
A ação localizada de pequenos grupos,
que envolve assassinatos, explosões, sequestros ou
roubo de bancos, só
em poucas situações parece justificada. Em contraste, guerras
e revoluções são frequentemente consideradas não apenas justificadas
mas sagradas, guerras santas.
Guerras
e revoluções e seus protagonistas (soldados, guerrilheiros,
comandantes, freedom fighters) organizam suas atividades
no sentido de reflerir a vontade e avançar os interesses de
amplos contingentes sociais (classes, grupos raciais, religiosos
ou nação). Violência individual ou de pequenos grupos no campo
político é usualmente associada à loucura ou crime. Ao chamá-los
de terroristas o que se sugere é que são, como os lunáticos
ou criminosos, uma minoria isolada, não representativa de
amplas camadas sociais.
Segundo
este entendimento, a violência política massiva pode ser justificada
algumas vezes, enquanto a violência de pequenos grupos quase
nunca. A dificuldade é que não se pode distinguir violência
individual/grupal ou massiva simplesmente contando cabeças.
Decidir se violência politicamente motivada é uma revolução
ou uma campanha terrorista requer mais do que uma simples
somatória de números. A decisão reflete um julgamento complexo,
uma interpretação dos fatos baseada em dados comprometimentos
e perspectivas. Entretanto, desde que se use o termo terrorismo
para descrever uma forma particular de violência política,
pode-se reconhecê-lo. Porém complica-se a análise se usarmos
o termo para julgar a validade moral ou política de tal
violência. O crucial então é o ponto em que se fundem
a descrição e o julgamento.
Por mais
violentos que tenham sido os ataques aos EUA eles não constituem
apenas um crime; eles foram também politicamente motivados.
É inútil enquadrá-los apenas como criminosos, cancelando seus motivos políticos.
Isto aliás ficou explícito quando Bush qualificou-os como
atos de guerra., não como simples assassinatos. Parece óbvio
também que os atentados não foram cometidos por motivações
pessoais de um grupo de desequilibrados, mas refletiam antes
desejos e interesses de um contingente social bem maior. A
retaliação americana não deixa dúvidas quanto a isto. Assim
fica dificil, por ora, distinguir objetivamente entre atos
de terrorismo e atos de guerra interna ou externa.
Igualar
imediata e peremptoriamente terrorismo à crime reflete usualmente
proposições conservadoras: que os terroristas estão isolados,
que são irracionais, e destinados ao fracasso. Como este julgamento
pode ser revertido pelo curso e pela côrte da história, ele
deve ser sempre provisório. Os extremistas isolados de hoje
poderão tornar-se os líderes legítimos de amanhã. Nestes termos,
terrorista é o nome que os vencedores provisórios de guerras
ou revoluções utilizam para descrever os perdedores provisórios.
Nesta dança de troca de posições também pode ocorrer troca
de parceiros, como lembra Wanderley Guilherme dos Santos (Valor
11/10/2001), “Assim como os aliados de ontem transformaram-se
nos inimigos de hoje, é impossível distinguir, entre os amigos
de hoje, quais serão os inimigos de amanhã”.
Naturalmente,
o “mundo civilizado”considera os representantes armados dos
grupos chamados de terroristas como loucos e criminosos. Como
alguém observou, se o Japão e a Alemanha tivessem ganho a
IIa. Guerra Mundial, os partisans da França livre poderiam
ainda estar por aí sequestrando aviões comerciais e assassinando
diplomatas, enquanto o mundo reagiria com horror diante de
tal fanatismo e criminalidade.
O debate
relevante, em casos particulares, não é então sobre o significado
do “terrorismo”. É antes sobre se a violência em questão é
capaz de libertar ou promover os interesses e o poder de uma
classe, nação ou algum outro grupo significativo. Uma definição
fria e operacional neste
sentido de terrorismo, tal como apresentada por um teórico
do assunto (R.E. Rubenstein, Alchemists of Revolution.Terrorism
in the Modern World), denotaria atos de violência de
pequenos grupos para os quais se podem reivindicar uma representação
de massas. Isto não nega que o terrorismo possa ser um
crime, mas também aceita que ele possa representar um estágio
inicial de mobilização de massas, uma abertura possível para
uma guerra de liberação.
Certamente,
diante destas situações de conflito aberto não convencional,
não se trata de escolha ou preferência pela violência
de pequenos grupos ou do Estado. Pois, como alerta Rubenstein, se terrorismo simplesmente significa
violência assustadora, insensata, ou ilegitima, alguns Estados
nacionais, ou todos os Estados nacionais em algum momento
foram ou são os maiores trrroristas. Veja-se, a propósito
do caso em tela: “A característica tipificadora da delinquência
internacional consiste no repúdio sistemático do direito e
da moral nas relações entre povos. É exatamente o que faz
o Estado norte-americano. (...)Em matéria de operações bélicas,
então, o comportamento dos EUA, nos últimos 20 anos, frisa
com o banditismo internacional. A potência norte-americana
atacou militarmente Granada, a Líbia, o Panamá, o Iraque (bombardeado
incessantemente há dez anos!), a Somália, o Haiti, o Afeganistão,
o Sudão e a ex-Iugoslávia. No caso do Iraque, o bloqueio econômico,
acrescido aos bombardeios, tem vitimado, todos os anos, dezenas
de milhares de pessoas”. (Fabio Konder Comparato, “Um
Estado delinquente”. Folha
de S. Paulo, 14/10/2001).
Ninguém
(indivíduo, grupo ou regime) quer ser chamado de terrorista;
terrorismo é o que o outro lado está querendo fazer.
Por estas razões não há consenso entre acadêmicos sobre o
que constitui a essência do terror. Enquanto na linguagem
corrente dos confrontos políticos,
quem tiver mais recursos ideológicos estará em condições
de pespegar a etiqueta de terrorista ao seu adversário. Aquele
que para alguns é um terrorista, para outros é um combatente
pela liberdade, e vice-versa.
Dizer que
o terrorismo visa principalmente intimidar civis não esclarece
muito. Toda violência
política ( guerra, revolução ou a aplicação cotidiana de leis
criminais) envolve intimidação
ou dissuasão de civis. Pode ser inconveniente dizer, mas ataques
diretos contra alvos civis sem condições de defesa são, como
os atos terroristas de pequenos grupos, parte de uma guerra
de destruição.
Nós
x outros. Civilização x barbárie
As duas
citações seguintes confrontam as bases ideológicas dos discursos
correntes, que procuram sacramentar clivagens culturais justificadoras
de engôdos, demagogias e guerras.
A clareza dos argumentos me dispensa de comentários
adicionais.
“O ultimato
do presidente Bush aos povos de todo mundo, de que voce está
com nós ou contra nós é uma peça de arrogância presunçosa.
Não é uma escolha que o povo necessite fazer, deseje fazer
ou deveria fazer.
Então aqui
temos. A distinção equivocada entre civilização e selvageria,
entre massacre de pessoas inocentes ou, se quiser, confronto
de civilizações e ‘dano colateral’. O sofisma e a melindrosa
álgebra da “infinita justiça”. Quantos Iraquianos mortos serão
necessários para tornar o mundo um lugar melhor? Quantos Afegãs
mortos por cada americano morto? Quantas mulheres e crianças mortas por cada homem morto? Quantos
mujahedin mortos por cada banqueiro de investimento morto?
Enquanto vemos mesmerizados a Operação Liberdade Duradoura
na tela da TV. A coalizão dos maiores poderes mundiais está
fechando o cêrco sobre o Afeganistão, um dos países mais miseráveis,
mais destruídos, devastado por guerras de todo o
mundo, cujo governo do Taleban está abrigando Osama
bin Laden, o homem tido como responsável pelos ataques de
11 de setembro”.
Arundhati
Roy,
“The algebra of infinite justice” The
Guardian. London, September 29, 2001. Roy é autora de O Deus das pequenas coisas. (premiada com o Booker
Prize 1997)
“O paradigma
básico do Ocidente versus o resto do mundo ( ou seja, a oposição
da Guerra Fria reformulada) continuou intocado, e é isso que
persiste, de maneira (...) insidiosa e implícita, nas discussões
desde 11 de setembro.
(...) como
se mostram insuficientes os rótulos, as generalizações...!
Em algum nível, paixões primitivas e know how sofisticado
convergem de maneiras que desmentem a existência de uma divisão
fortificada, não apenas entre ‘Ocidente’ e ‘Islã’, mas também
entre passado e presente, nós e eles, (...).
Mas todos
nós estamos nadando nessas águas - ocidentais, muçulmanos
e outros. E, como as águas fazem parte do oceano da história,
tentar ará-las ou dividí-las com barreiras é inútil.
Incontáveis
editoriais em todo jornal e revista americanos e europeus
(…) acrescentaram termos novos a esse vocabulário de gigantismo
e apocalipse, cada utilização do qual claramente não visa
esclarecer os leitores, mas sim inflamar paixões indignadas,
na condição de membros do ‘Ocidente’.
[A tarefa
então é] fomentar a compreensão crítica da atordoante interdependência
de nossos tempos”.
Edward
Said, Professor da Universidade de Columbia em NY, autor de
Orientalismo e Cultura e Imperialismo, entre
outros.