A
ascensão do irracional
A
razão vem sofrendo um suicídio todos os dias, denunciava
Francis Slakey, da
New Scientific, em 1993. Após o cerco a Waco, Texas,
onde fanáticos do Ramo Davidiano suicidaram "em
nome de Deus", a inteligência norte-americana acordou
para o crescimento do gesto irracional em todo o país.
Após os atentados suicidas do dia 11 de setembro, até
os chamados profissionais da razão, nos EUA, estão se
rendendo ao irracional fanatismo de morrer em nome do
Bem contra o Mal, de fazer "infinita justiça"
guiados pelo "grande líder" Geoge W. Bush.
Universidades tradicionalmente críticas, céticas, ou
simplesmente pró paz (Berkeley, Harvard, Yale), também
rendem-se ao espírito fundamentalista
norte-americano.
Thomas
Mann, nos anos 30, pressentia o perigo ao escrever
que, "o irracionalismo
que se torna popular constitui um horrível espetáculo.
Sente-se que resultará daí uma desgraça".
Também o escritor, I. Ramonet, no livro Geopolítica
do Caos (Vozes, 1997), de onde tomo emprestado
o título para esse artigo, analisa que o irracionalismo
está em ascensão não só nos EUA, mas no mundo todo.
A economia e a tecnologia cada vez mais pragmáticas
e organizadas pela globalização, desprezam o homem
e suas diferenças, favorecendo assim o crescimento
do irracionalismo social e, sobretudo, o religioso.
No
nosso tempo, o irracional não se reduz a ignorância
ou loucura. Por vezes, usa de alguns elementos da
razão científica e tecnológica para fazer seus atos
irracionais. Os fanáticos da seita do Ramo Davidiano que preferiam arder no fogo,
eram pessoas inteligentes, de nível superior, com
formação em Direito, Ciências Contábeis, e até ex-cientista.
Os terroristas do fatídico 11 de setembro, também
eram inteligentes, viviam normalmente, tinham estudado
em boas universidades e, no entanto, foram levados
por um impulsos suicida e homicida. O terror irracional
só foi possível graças à tecnologia do avião, dos
mais altos edifícios construídos, da escola que os
ensinou a pilotar, conjugado com a interpretação distorcida
do Alcorão e o ódio cultivado ao "grande satã".
Também,
o governo norte-americano, apesar de ser dono da mais
racionalizada estratégia militar, usando alta tecnologia
para combater o invisível terrorismo internacional,
é movido pelo sentimento de vingança, que é irracional.
"Olho por olho, o mundo
será de cegos", dizia Gandhi. Qualquer
pessoa, medianamente inteligente e fora da influência
ideológica dos EUA, reconhece ser irracional jogar
bombas sobre os civis afegãos, causando "efeitos
colaterais" nos prédios da ONU, da Cruz Vermelha,
que estavam devidamente sinalizados para não serem
alvos. A guerra em si é irracional, assim como as
brigas entre humanos. Quando a palavra (o significante),
que é característica do ser humano, dá lugar à força
bruta destruidora é o irracional que passa a dominar
as ações. Karen Amstrong, uma estudiosa das história
das religiões, acha que o ser humano é determinado
por sentimentos, medos, preconceitos, ódio, amor,
que pelo discernimento da razão.
Os
discursos politiqueiros fundados no modo de pensamento
maniqueísta islâmico, judaico ou cristão, cada um
concorrendo para ser o representante do Bem contra
o Mal, recusam-se aceitar como fato psíquico que cada
ser humano é, ao mesmo tempo, bom e mau, logos e pathos, racional e
irracional, equilíbrio e loucura, consciente e inconsciente.
Nossas pulsões e desejos ainda são vistos como demônios;
eles nos atacam e revelam que
também somos irracionais; renegam os impulsos
que anseiam transgredir a ética vigente. O maniqueísmo
de direita ou de esquerda, acha que "o
inferno são somente os outros". Os americanos hoje escondem que foi um
fanático da extrema direita que explodiu o prédio
de Oklahoma, esqueceram que criaram a Ku Klux Klan,
D. Koresh, Jim Jones, construíram e jogaram a bomba
atômica, de napalm
sobre o Vietnã e, provavelmente são os que estão enviando
bactérias pelos correios. Sujeitos que desligam sua
razão, as luzes se apagam. Os discursos inflamam-se,
alucinando inimigos em toda parte, senão o próprio
mundo torna-se seu inimigo. Nos EUA, o fanatismo é
epidemia nacional. Uma seita, Casa dos Filhos de Jeová,
torce para o mundo se acabar logo, porque seus membros
acreditam que surgirá uma nova civilização do Bem,
guiada por eles.
A
extrema direita americana composta de fervorosos do
evangelho, na contramão da ciência, obrigou as escolas
a ensinar o criacionismo da Bíblia no lugar da teoria
da evolução de Darwin, pregam que o mundo tem só 6
mil anos, que está no fim, entre outros absurdos.
Do lado muçulmano e judaico, são ensinados absurdos
parecidos, senão pior. O presidente Atartuk, da Turquia,
pressentindo retrocesso no futuro do país, se fosse
dominado pelo fundamentalismo islâmico, fechou as
madrassas (escolas religiosas), hoje dominante em
alguns países do Oriente. Os irracionais talebans
do Afeganistão, destruíram museus, cinemas, teatros,
televisão, proibiram a música, a dança, as crianças
de soltar pipa, as mulheres de saírem as ruas sem
a burqa, e não se esqueceram de implantar as madrassas
para fanatizar as crianças. No Brasil, capitalistas
das igrejas-empresas, compram os espaços da cultura
(cinemas e teatros) para serem templos e escolas de
inculcação do irracional. Será que não estariam pensando
em comprar as universidades públicas para transformarem
em "madrassas" evangélicas?!
Apesar
do povo do Reino Unido ser displicente quanto à religião,
segundo uma pesquisa britânica, uma em cada duas pessoas,
acredita em curas pela fé e uma em cada três em mapas
astrológicos. Nos EUA, uma em cada três acredita que
já conversou com um falecido e um em cada cinco, acredita
que pé de coelho dá sorte. Nesse país, vem acontecendo
uma onda de denúncias de filhos que teriam sido vítimas
de abusos sexuais pelos próprios pais. Não se nega
que existam casos de pedofilia, que até são divulgados
pela internet, mas um movimento de psicólogos, psicanalistas
e psiquiatras vem trabalhando com a hipótese de que,
em verdade, a maioria dessas denúncias são determinados
por "falsas lembranças", ou até mesmo "lembranças
plantadas" segundo as injunções da moral dominante
maniqueísta cristã. Há ainda, milhares que acreditam
em discos voadores, em ETs (extra-terrestres) e ITs
(intra-terrestres). Tim Maia acreditava em intra-terrestre,
ou seja, achava que existia uma civilização avançadíssima
que habita no centro da terra! Existe uma Sociedade
da Terra Plana, fundada a
22 anos, com mais de três mil membros espalhados pelo
mundo, que acreditam ser a terra
plana e que não houve queda pelas bordas porque
ainda ninguém foi aos seus limites. Também acham que
a ida a lua é um embuste!
As
superstições, crendices, fanatismo místico-religioso,
convicção de "guerra santa", acontecendo
hoje, contrariam as previsões de pensadores como Comte,
Marx, Freud, que imaginavam o homem do futuro plenamente
racional dominando a natureza. Para eles, o homem
racional idealizado não precisaria crer no sobrenatural.
Mas, já em 1932, Freud e Einstein, não se conformavam
como o homem aceita facilmente ser levado pelo entusiasmo
irracional da guerra. Hoje vemos com surpresa e frustração,
como que uma nação de boas universidades e de homens
de ciência, de tecnologia, se rendem a irracionalismo
da guerra!? A mesma pergunta foi feita com a Alemanha,
no início da 2a. Guerra Mundial. Os nazistas
guiados pelo delírio de grandeza, achavam que eram
os eleitos por Deus para limpar a terra de impurezas.
A chamada "solução final "dos judeus era
a razão funcionando de modo cínico a serviço do irracionalismo.
Hoje são os próprios judeus repetem a "solução"
com os palestinos.
O
uso de dispositivos irracionais funciona como defesas
psíquicas principalmente contra situações limites
ou de desespero."As superstições ajudam as pessoas
a lidar com a incerteza", afirma Suard Wyse,
psicóloga da Univ.de Connecticut. O mundo tecnológico
trouxe conforto e maior controle em muitos campos,
mas também promove a sensação de vazio. A globalização,
sem querer negar o lado positivo, fez mais estragos
na vida das pessoas que a ciência da macroeconomia
pode prever e corrigir. O irracional confunde informação
com conhecimento, e
conhecimento com sabedoria. As bruxas de 400
anos atrás, foram recicladas e reprojetadas nos comunistas
na época da guerra fria, nos ETs que sequestravam
pessoas, no "Satã Hussein", hoje superado
por Bin Laden e seus comparsas. A aprovação das últimas
leis, nos EUA, fez renascer o clima persecutório da
época de "as bruxas de Salen" e do macartismo.
Oficializaram a delação patriótica, o "vale tudo"
em nome do Bem. Talvez Hollywood mude a sua filosofia
de produção de filmes violentos, mas continuarão sendo
maniqueístas; também, as igrejas neo-cristãs que são
sustentadas pelo próprio comércio e shows
de exorcismos, serão ainda mais histéricas e fanáticas.
Até
mesmo intelectuais, professores, cientistas, não estão
livres de ter um núcleo irracional ativado. As paixões
sempre estiveram na mira dos filósofos, atrapalhando
a razão. Até mesmo um cético, não consegue evitar
uma fezinha escondida que o leva à missa ou ao culto
("mas
apenas para acompanhar a família", diz), ou que
o leva a rezar, principalmente, quando em desespero.
P.Demo, da Univ. de Brasília, ao analisar dados colhidos
em pesquisa de profissionais militantes da razão,
comprova que quando se trata de situação de morte
ou felicidade "a referência religiosa acaba se
impondo, [também para eles] entrando pela porta dos
fundos. Parece que a razão sozinha, não pode garantir
a felicidade, nem superar a idéia de morte".(Dialética
da Felicidade.Vozes, v.3, 2001). O depoimento
da escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras,
Raquel de Queirós,
dá provas disso, ao dizer: "não
tenho fé porque Deus não me deu.
É uma falha em minha personalidade; tenho tristeza
e vergonha por isso. É muito ruim viver sem fé, sem
crer em Deus ou nos santos, principalmente, senti
essa falta quando morreu minha filhinha. Eu não sou
religiosa, nunca escrevi contra a religião. Espero
que Deus me dê fé um dia!", disse. (Notar
as contradições em negrito). Caberia aqui uma provocação:
será que as pessoas guiadas pela fé são mais felizes
do que aquelas que vivem sob o critério da razão crítica
e do ceticismo?
Em
nossa época chamada
pós-moderna,
parece ter superado de vez a oposição entre razão
e a fé; nem mesmo o conhecimento científico pode ser
considerado melhor que os demais, como diz B. Souza
Santos. Por outro lado, também não devemos nos render
a onda irracionalista
cujo sintomas são: o fundamentalismo, o terrorismo,
as igrejas-empresas, o mercado poderoso, o exoterismo
(do tarô, cartas, cristais, florais, quiromancia,
advinhação,etc), a beligerância compulsiva, a corrupção,
o narcotráfico, a violência no futebol, os governos
insensíveis e cínicos (especialmente com o funcionalismo),
a imprensa alarmista, etc. A ciência é como vela no
escuro no destino da humanidade, declara C. Sagan,
no livro O mundo
assonbrado pelos demônios (C. Letras1996). A ciência,
a filosofia, as artes, a cultura, são os principais
caminhos para a humanidade exercitar o discernimento
e se aproximar da verdade. Como se fossem velas no escuro, devem formar
nossa sabedoria
para termos esperança, segurança e paz.