A
semana de 11 de setembro acabou sem dar resposta alguma ao mundo.
Todas agências de análise dos mercados e da política internacional
emitiram boletins cautelosos, mas que apontavam para uma possibilidade
concreta de crise sem precedentes. O que preocupa todos analistas
internacionais? Em primeiro lugar, a capacidade de liderança
de George Walter Bush. O apoio significativo da população norte-americana
ao seu presidente (as últimas pesquisas de opinião registram
84% de apoio) não assegura decisões racionais de seu líder.
Bush é pouco habilitado em questões internacionais e as eleições
presidenciais passadas deram desconcertantes mostras de sua
incapacidade nesta matéria.
Os cenários possíveis são pouco nítidos. Mesmo sendo temerário,
tentarei apontar algumas possibilidades.
No campo da política internacional, o cenário mais provável
é de guerra, colocando à prova a liderança do mundo ocidental.
Uma guerra especial, do século XXI. É possível aventar duas
situações:
a)
os EUA lideram uma ofensiva equivocada ao mundo muçulmano.
Não é uma possibilidade descartável, embora Bush tenha demonstrado
insegurança nos últimos dias. Mas a pressão de grupos de extrema-direita
em seu país pode obrigá-lo a dar demonstrações de um torto
nacionalismo. Se os EUA liderarem uma ofensiva ao Afeganistão,
poderá arriscar-se a provocar uma jihad, ou Guerra Santa.
Esta situação ocorreu na guerra Soviético-Afegã, de 1979-89.
Naquela oportunidade, os EUA formaram uma frente anti-soviética
de apoio ao governo do Afeganistão. A Arábia Saudita doou,
entre 1984 e 1986 cerca de 525 milhões de dólares para a resistência
e doou mais 436 milhões de dólares em 1989. O Paquistão, por
sua vez, foi o veículo da entrada de dinheiro norte-americano
no Afeganistão. Dinheiro que chegou às mãos de uma facção
fundamentalista, liderada por Gulbuddin Hekmaryar. A guerra
gerou uma milícia preparada e fortemente armada, incluindo
400 mísseis Stinger que, ironicamente, é apontada como inimiga
dos norte-americanos;
b)
Os EUA lideram uma ação tópica e conseguem intimidar as lideranças
palestinas. Esse, inclusive, é o cenário do momento, já que
Arafat e a Autoridade Palestina advertiram recentemente os
grupos islâmicos radicais, Hamas e Kihad Islâmica, que não
tolerarão ataques à Israel.
A primeira situação leva ao caos internacional. A Guerra
Santa, envolvendo o mundo muçulmano, não será uma guerra convencional.
O ocidente lutará contra um exército nômade, descentralizado,
comunitário e fanático. Não será uma luta contra um território,
mas contra uma cultura. Lembremos que o islamismo é a segunda
religião na França. Todo o norte da África é islâmico. Trata-se
de uma unidade política, religiosa e cultural. Como dizia
Hassan al Banna: "o Islã é uma ordem total, é guerra
santa ou apostolado". É fato que existem correntes nacionalistas
no mundo árabe que se distinguem das correntes unificadoras.
Mas as tradições e o orgulho religioso sempre calam fundo
nas decisões dos países islâmicos.
A segunda situação é uma incógnita. Em 1990, a Liga Árabe
decidiu condenar a ação de Saddam Hussein, a senha para o
início da Guerra do Golfo. Entretanto, Irã, Jordânia, Líbia,
Mauritânia, Iêmen, Sudão, Tunísia, OLP, Hamas e Frente Islâmica
de Salvação (FIS) apoiaram o Iraque. Significa que Arafat
e a Autoridade Palestina poderão sofrer grande desgaste político,
embora o conflito fique restrito à uma parcela do território
oriental. A caça a Bin Laden exigirá o uso de tropas terrestres.
E os EUA erram constantemente no reconhecimento de alvos.
Finalmente, as tropas ocidentais enfrentarão forças guerrilheiras
heterodoxas estimadas entre 5 mil e 15 mil efetivos, misturadas
à população urbana que vive em cidades repletas de vielas
e ruas sinuosas e estreitas. O que leva a crer que a guerra
será extremamente violenta e global ou longa e difícil, exigindo
paciência à opinião pública ofendida dos EUA.
Para o Brasil, qualquer cenário de guerra aprofundará nossa
crise econômica. A agência Standard & Poor's afirma em
seu último boletim que dificilmente países como o Brasil conseguirão
crédito internacional nos próximos meses. Os grandes investidores
estão retraindo seus lances e dirigem seus recursos para ativos
mais seguros. O ouro teve aumento de 4% na última sexta-feira.
As bolsas de valores do ocidente caíram ao redor de 4% e o
barril de petróleo subiu 8%. Um quadro de insegurança frente
à guerra que se avizinha.
Para o Brasil, o único cenário favorável é o de paz. Esse
sentimento e desejo que os árabes denominam de Salam.