A
primeira vez que ouvi alguém dizer que era injusto um
empregador exigir de um jovem que tenha experiência para
efetivar sua contratação foi exatamente no momento
em que ingressava na adolescência. Fiquei meio perplexo.
Nunca havia pensado no assunto. Passados vários anos,
essa injustiça continua. E continuo sem entender como
a sociedade brasileira não consegue encontrar uma solução
para um problema tão óbvio. Afinal, como exigir
experiência de alguém que está ingressando
no mercado de trabalho?
Os
exemplos concretos de como um trabalhador iniciante é
tratado com descaso por seus colegas mais velhos são
fartos e assustadores. Vou citar o que ocorre na carreira docente.
Os novatos são, via de regra, aqueles que recebem as
turmas mais complexas e os horários mais desgastantes.
Eu mesmo, quando comecei à dar aulas na universidade,
fui escalado, como sociólogo, para ministrar aulas em
cursos que nunca havia tido algum contato maior. Os horários
de aula eram pouco estimulantes, como sexta-feira, último
horário, ou sábado. Os alunos se entreolhavam
nos primeiros dias de aula e diziam com os olhos que não
entendiam o motivo de uma aula de sociologia. Eu tinha que me
desdobrar para conquistá-los. Me sentia como um médico
recém-formado que tinha a tarefa de operar um paciente
em estado muito grave. E percebia a incoerência: na medida
em que ficasse mais experiente, eram reservadas para ele as
tarefas mais simples até chegar ao topo da carreira,
resolvendo pequenos curativos.
O
último dado que tivemos acesso sobre esta curiosa injustiça
foi divulgado há dez dias. O IBGE informou que caiu,
nos últimos dez anos, o percentual de jovens, entre 15
e 17 anos, detentores de empregos formais. Informou que o percentual
de desemprego nesta faixa etária é superior ao
verificado entre pessoas com mais de 60 anos. É verdade
que um dos motivos foi o aumento da exigência de escolaridade.
Houve aumento de 28% dos postos de trabalho que exigem escolaridade
média e queda de 22% dos postos que exigem escolaridade
básica. Mas este não é o único fator.
Na
década de oitenta, o desemprego juvenil (definido como
aquele que atinge jovens entre 10 e 24 anos de idade que procuraram
emprego e não encontraram) chegou a 4% e 8%. Saltou para
18% na década de noventa. Márcio Pochmann, pesquisador
da Unicamp e Secretário do Desenvolvimento e Trabalho
de São Paulo, indica que o desemprego juvenil é
1,5 vezes superior que a taxa de desemprego total. Para o autor,
o trabalho juvenil é o mais atingido pelos postos de
trabalho precário, aquele que não oferece estabilidade,
em que a renda é baixa e a jornada de trabalho é
alta. Aos jovens está sendo reservada a parcela mais
insegura do mercado de trabalho, onde as regras de contratação
são mais flexíveis.
A
solução neoliberal desenvolvida nos anos 80 foi
a desregulamentação do mercado de trabalho e a
oferta de cursos de qualificação profissional.
De um lado, essas políticas aumentaram a precariedade
do trabalho juvenil e, de outro, adotaram a convicção
que o desemprego tem como principal culpado o próprio
desempregado que não possui qualificação
necessária. O fato é que essas políticas
não conseguiram reverter o cenário de desamparo
e desemprego. E não temos comprovação que
qualificação relaciona-se diretamente com emprego
juvenil. Na verdade, temos poucos estudos sobre como um jovem
ou adulto aprendem. Segundo dados oficiais, 60% dos trabalhadores
brasileiros que possuem título universitário não
estão exercendo funções compatíveis
com sua formação. O mercado de trabalho não
é tão racional e generoso como se pensou nos anos
80.
Dois
países estão se dedicando com mais atenção
a este problema: a Bélgica e a França. As soluções
francesas são as mais conhecidas. O programa Primeiro
Emprego da França, desenvolvido pelo governo socialista
de Jospin, exige que órgãos públicos abram
um percentual de vagas para jovens na faixa de 18 a 24 anos.
Mas não ficam apenas na contratação. Este
primeiro emprego deve durar, no mínimo, cinco anos e
programas de apoio e acompanhamento complementares são
oferecidos aos jovens empregados. É a função
social da ação pública, retornando após
anos de tenebroso inverno neoliberal.
No
Brasil, a experiência mais acabada é a de São
Paulo. Na capital paulista implantou-se o programa Bolsa Trabalho.
Trata-se de uma bolsa para desempregado na faixa de 16 a 20
anos, além de um programa de qualificação
que compreende ações e oficinas para formação
de agentes comunitários que atuam nas áreas de
esporte, lazer, saúde, educação, cidadania,
trânsito, e assim por diante. Neste programa, o jovem
desempregado pode ter acesso, mais adiante, aos programas do
Banco do Povo e Centro de Desenvolvimento do Trabalho e dos
Negócios.
O
importante é destacar que o mundo dos adultos, que afinal
comanda as ações públicas, tem um compromisso
com a formação e o bem-estar dos jovens. Não
há motivo para exigirmos de um jovem o que ele não
tem: experiência. Esta é a forma mais mesquinha
de excluirmos os jovens da disputa por uma vaga. Convenhamos:
a ética e a solidariedade que os adultos pregam podem
começar por este tema.