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TERRORISMO E IMPERIALISMO
Paulo Cézar Tiellet e Paulo Denisar Fraga*
Os últimos acontecimentos ocorridos nos EUA, com uma série de ataques terroristas, que redundaram como efeito prático na destruição de dois grandes símbolos do capitalismo (o World Trade Center e parte do Pentágono), precisam ser pensados à luz do contexto econômico-político das últimas décadas.
Os símbolos, como sustenta Mikhail Bakhtin, têm a sua base material na forma concreta como os homens organizam as suas relações econômicas, sociais e políticas. O WTC e o Pentágono, expressões máximas do centro do capital financeiro internacional e do poderio militar americano, edificaram-se sobre a miséria física e a opressão político-militar da maior parte do mundo. São ícones de uma hegemonia real, que se impôs historicamente e que hoje se consubstancia nas políticas neoliberais. Portanto, não é gratuito que os EUA tenham sido palco de tais eventos, embora a sua inesperada vulnerabilidade possa ser motivo de surpresa.
O alvo e a responsabilidade, neste caso, são indissociáveis. É insensatez teórica e política criticar o terrorismo sem criticar o imperialismo. A grande imprensa noticia a barbárie como se ela nascesse dos atos do terrorismo, mas esquece que esta é, também, como Rosa Luxemburg escreveu, produto da própria lógica da sociedade capitalista. No caso, o “absolutismo democrático” estadunidense ergueu o ódio à sua arrogância nos quatro cantos do mundo. Os milhões de vítimas do capitalismo tornam inaceitável que o terrorismo seja criticado unilateralmente, sem que se faça, do mesmo modo, uma crítica às responsabilidades do imperialismo norte-americano. Quem duvidar dessa tese terá a chance de se convencer quando acontecerem as retaliações.
Mas a mídia internacional que, por exemplo, apresentou como show o bombardeio a Bagdá, em 1991, não tem sensibilidade para considerar que a vida de um iraquiano merece a mesma comoção que a de um norte-americano. Não se deve esquecer, aliás, de que os EUA financiaram e armaram muitos dos que hoje praticam o terrorismo, porquanto, em determinados momentos, isso atendia aos interesses do capital. Ao longo da história moderna, todas as guerras e ataques militares promovidos pelos centros hegemônicos do capitalismo provocaram, infinitamente, mais mortes de civis do que todos os atos terroristas. Isso não justifica o terrorismo, mas desmascara a hipocrisia dos que ungem mortes com o bálsamo da democracia.
As piores horas são as mais necessárias para a razão. Por isso, é preciso, antes de qualquer discurso apressado ou emotivo, compreender para potencializar a crítica. O terrorismo internacional é, contemporaneamente, o filho bastardo do imperialismo. Parece ser a única forma que determinados grupos dissidentes do poder quase absoluto dos EUA encontram para enfrentá-lo no plano material, já que não têm condições de fazê-lo nem no plano político-diplomático, nem no econômico e, muito menos, no militar. O que faz ver, mais uma vez, guardadas as devidas proporções, que não é sustentável falar do terrorismo sem falar do imperialismo. Concorde-se ou não, o terrorismo internacional, na atual fase do imperialismo, apresenta-se como uma forma de luta diferente, uma determinada expressão da luta de classes.
A dimensão dos ataques não justifica a atitude dissimulada e oportunista – diante da presente desgraça humana – de esquecer o contexto que levou a eles. Bem compreendidos à luz do processo histórico contemporâneo, os dois – terrorismo e imperialismo – precisam ser duramente denunciados, sem que nisso se perca a dimensão racional da crítica.